AODISSEIA
Filmes

Crítica: Arranha-Céu – Coragem Sem Limite

Entre missões impossíveis, prédios gigantes e heróis duros de matar...

13 de julho de 2018 - 10:09 - Flávio Pizzol

 

Muita gente gosta de comentar sobre a crise de criatividade que Hollywood tem enfrentado nos últimos anos, enquanto muitas ideias originais são ignoradas em detrimento das grandes franquias que arrecadam bilhões de dólares a cada estreia. Eu prefiro não falar sobre esse assunto sem me aprofundar, mas preciso admitir que, em tempos carentes por novidades no cinema, ver Dwayne Johnson sair do universo já batido de Rampage para estrelar Arranha-Céu: Coragem Sem Limite – uma mistura de Inferno na Torre, Missão: Impossível e Velozes e Furiosos numa trama descaradamente copiada de Duro de Matar – é uma prova concreta dessa tal padronização de histórias.

E, caso você precise de mais alguma comprovação, vou te contar a sinopse da maneira mais breve e básica possível: um especialista em segurança precisa tirar sua família de um prédio sequestrado e incendiado no meio de Hong Kong. Você só precisa trocar esse cara responsável por checar sistemas de segurança por um policial recém-separado e vai reconhecer, sem nenhum obstáculo, a trama completa do longa que lançou John McClane para o mundo e transformou Bruce Willis em um astro de ação. E a pior parte é que essa sacada tão brilhante não passa da ponta de um iceberg que está mergulhado em um oceano de repetições batidas.

Na verdade, o roteiro de Rawson Marshall Thurber (Um Espião e Meio) mergulha tão fundo nesse proposta que poderia até mesmo receber um prêmio por conseguir reunir praticamente todos os clichês e estereótipos clássicos do gênero em um mesmo texto. É incrível como ele vai do vilão maniqueísta marcado pelo sotaque bizarro até o nacionalismo exacerbado que sempre coloca os americanos como superiores aos asiáticos, passando pelo garoto com crises de asma que surgem ou reaparecem de acordo com a necessidade do roteiro. E a consequência dessa bagunça pouco inovadora é que nem mesmo o desenvolvimento ágil e progressivo da trama consegue salvar Arranha-Céu de alcançar um nível de obviedade que permite ao público sacar quem são os antagonistas com cinco minutos de projeção e antecipar cada movimento simples do protagonista, como usar a perna mecânica de apoio.

 

 

É uma produção carente de surpresas ou reviravoltas impactantes que só não se perde completamente graças às doses generosas de carisma e diversão que acompanham todos os trabalhos de Dwayne Johnson (Jumanji: Bem-Vindo à Selva). Ele usa toda a sua reconhecida força pra carregar o filme nas costas e, apesar dos diálogos fracos ou dos personagens que não aprendem (a detetive de Hong Kong que fala chinês pra esconder algo de uma certa personagem, descobre que a outra também fala chinês e repete a mesma tática segundos depois é o auge desse problema narrativo), nosso querido “The Rock” faz com a experiência de vê-lo pendurado, quebrando tudo e arriscando sua vida seja divertida o suficiente para um filme cuja maior ambição seria passar na Temperatura Máxima.

O fator que acaba pesando – mais uma vez – contra a produção é a direção pouco inspirada do mesmo Rawson Marshall Thurber que escreveu o roteiro. Ele até faz um trabalho decente nos momentos mais intimistas, em algumas poucas piadas que percorrem a narrativa e naquelas sequências de luta mais corporais, porém permite que a inexperiência de uma carreira construída em comédias de besteirol o atrapalhe bastante quando o assunto são as cenas de ação grandiosas que ocupam lugar central na trama. Fica muito claro que ele não sabe o que fazer com a câmera nesses momentos e, com exceção de um plano vertiginoso que funciona muito bem até ser repetido exaustivamente, Rawson opta basicamente por copiar outras cenas de ação famosas sem o mesmo estilo. E, nesse caso, assistir uma cópia do salto entre prédios de Velozes e Furiosos 7 ou a escalada de prédio que Tom Cruise executou com maestria na pele de Ethan Hunt tira boa parte do impacto que esses momentos-chave poderiam e deveriam ter.

 

 

Isso faz com que Arranha-Céu: Coragem Sem Limite seja realmente essa versão pirata de Duro de Matar – incrementada por todos os outros nomes citados nesse texto – que não conhece encontrar o caminho para ser uma diversão acima da média. No entanto, ainda é uma produção razoável que, mesmo presa em um limbo de clichês, repetições cansativas e soluções baseadas em coincidências, tem potencial suficiente para ser um bom passatempo de domingo graças aos milagres executados por Dwayne Johnson. Assim como acontece com o já citado Velozes e Furiosos, tudo depende de você saber se é o tipo de espectador que aceita esse combo de problemas narrativos e loucuras que desafiam às leias da Física em troca de duas horas de uma diversão supostamente descompromissada…


OBS 1: Eu não me concentrei no fato do longa ser muito mentiroso, porque isso faz parte da realidade dele e não interfere diretamente em sua qualidade. Mesmo assim, como disse no parágrafo acima, se você fica incomodado com uma fita silvertape sendo usada para escalar paredes, esse não é o filme certo pra você.

OBS 2: Coincidência ou não, o longa está estreando no aniversário da estréia do próprio Duro de Matar.

OBS 3: Só pra não deixar passar a oportunidade, o subtítulo em português é uma merda!