AODISSEIA
Filmes

Critica: Anjos da Lei 2

10 de setembro de 2014 - 13:00 - Flávio Pizzol

Anjos da Lei 2_01

Anjos da Lei 2 chega para comprovar que as comédias de autorreferência estão conquistando um espaço grandioso e lucrativo. E, sinceramente, isso me agrada, já que isso potencializa a produção de filmes que visam criticar a indústria, tirar sarro de si mesmo sem nenhum escrúpulo e levar a imbecilidade/idiotice a níveis nunca vistos antes, como foi feito em O Âncora 2, É o Fim e no próprio Anjos da Lei.

Na prática, a história dessa continuação é a mesma do filme original e isso é, insistentemente, deixado claro durante boa parte do filme. Não dá pra contar nos dedos quantas vezes o Capitão Dickson – ou qualquer outro personagem – fala alguma vertente da frase “essa missão é exatamente igual aquela”. Os disfarces são iguais, boa parte do desenvolvimento segue a mesma linha do que foi feito no primeiro filme, mas Anjos da Lei 2 consegue transformar tudo isso em midas. Ou seja, a história idêntica e e presumivelmente previsível – que seria minha primeira critica ao filme, como fiz com Se Beber Não Case II e III – é utilizada a favor do filme, sendo fonte para ótimas piadas e apoio para as reviravoltas.

E esse não é nem de perto o único aspecto positivo do filme. Na verdade, o que move o longa é fato dele ser insanamente divertido e nonsense. Anjos da Lei 2 não tem medo de arriscar nas piadas e consegue ter uma enorme gama de cenas que vão da auto-paródia mais simples, como o “Anteriormente em Anjos da Lei” que abre o filme, até as mais surtadas piadas sexuais que você consiga imaginar. E acreditem quando digo que a maior parte dessas arrancam gargalhadas da platéia, mas, infelizmente, algumas repetições cansam e desgastam o filme.

Ainda assim, vou voltar para a grande quantidade de referências presentes no filme, por que elas merecem um parágrafo especial. Desde o início, eles brincam, principalmente, com o fato do filme ser uma sequência mais cara e desnecessária, seguindo a métrica usada no primeiro longa. Naquele filme, existe uma cena onde o primeiro capitão de Schmidt e Jenko fala que a sorte deles é que a polícia – assim como Hollywood – está pegando idéias dos anos 80 e as renovando. Aqui, existe uma cena praticamente idêntica, onde o mesmo personagem fala que o programa de infiltração que acolheu os dois ganhou um novo investimento, por que a polícia acha que dobrar o orçamento é a mesma coisa que dobrar os resultados. São piadas como essas, muitas vezes não são percebidas por todos os espectadores, que contrastam com o nonsense e dão uma balanceada no tom da continuação.

Nessa mesma leva, ainda são feitas outras inúmeras referências ao primeiro longa e a outros clichês dos filmes de ação. E, de maneira brilhante, o filme cita de Máquina Mortífera a Woody Allen, mas transforma tudo o que já foi visto em algo novo. Vide os créditos, que, sendo uma das melhores coisas do filme, faz inúmeras piadas com todos os filmes imaginados, como Top Gun, ER e Velocidade Máxima.

Do outro lado da moeda está o lado idiota e igualmente engraçado de Anjos da Lei 2. Aqui são desenvolvidos os momentos menos elaborados, mas bem ritmados e dirigidos por Phil Lord e Chris Miller, e intensificado o bromance iniciado no primeiro filme. Contando com uma ótima química entre Jonah Hill e Channing Tatum, o roteiro consegue criar sequências hilárias, como a “terapia de casal”, e gags mais físicas, como o momento chapado dos dois. Infelizmente, é aqui que o filme começa a se perder, já que muitas cenas “românticas” entre Hill e Tatum não são bem desenvolvidas e cansam.

E quando se analisa o longa de maneira calculista e alheia à comédia, essa situação tende a piorar um pouco. Por exemplo, ainda que as cenas de ação sejam ágeis e muito bem dirigidas, algumas delas não fazem tanto sentido, como o próprio clímax, que eu considerei extremamente falho e deslocado do restante do filme. Pelo menos as reviravoltas conseguem se salvar desses erros, já que realmente surpreendem. Usando o fato de ser idêntico ao primeiro, o roteiro e a direção levam o espectador em uma direção já conhecida para depois mudar isso. A cena deles chapados também é um bom exemplo aqui, já que o seu desenvolvimento é fora do comum, enquanto o público esperava algo parecido com o que foi feito no original.

Phil Lord e Chris Miller, que já lançaram nesse ano o ótimo Uma Aventura Lego, continuam demonstrando uma direção ágil e uma incrível capacidade de criar piadas visuais com a ajuda da edição e da trilha sonora. Momentos que emulam os filmes de ação dos anos 80 são geralmente entrecortados por situações constrangedoras que aparecem do nada. Como já disse, as cenas de ação continuam muito bem dirigidas, equilibrando de maneira certeira as explosões, os tiroteios e as piadas. Mesmo que as cenas de ação não funcionem no papel, o público não vai poder reclamar do aspecto visual desses momentos.

Eles também comandam muito bem o elenco, usando de maneira brilhante a capacidade de improviso e o talento de todos eles. Tudo bem que eu tenho que admitir que Anjos da Lei 2 não exige muito dos atores, mas também muita coisa não funcionaria se não fosse o carisma de Jonah Hill, Channing Tatum e Ice Cube. Os dois primeiros, como também já disse, tem uma química invejável, além de serem ótimos atores. Hill já está na minha lista de boas revelações há algum tempo, tendo inclusive recebido merecidas indicações ao Oscar por papéis que balanceavam o drama e a comédia, mas Channing começa a mostrar que não é só um rostinho bonito e cria uma personalidade ingênua e doce que funciona muito bem para Jenko. E eles conseguem ser ainda mais carismáticos e divertidos do que no primeiro filme, talvez por já estarem à vontade nos seus papéis e parecem topar tudo o que foi sugerido.

Dos coadjuvantes, o destaque positivo é Ice Cube, que tem muito mais espaço e uma das cenas mais engraçadas do longa. O que eu quero dizer é que todas as suas cenas conseguem trabalhar muito bem os estereótipos do policial negro e explosivo e ainda premiam o público com momentos que arrancam gargalhadas. Não me lembro de um filme que me fez gargalhar da maneira que fiz nas cenas de “confronto” entre Cube e Jonah Hill.

No fim das contas, Anjos da Lei 2 não se leva a sério em nenhum instante e não liga de ser completamente idiota, entretanto é, ao mesmo tempo, um longa extremamente rico, já que não abre mão de um roteiro divertido, de uma direção qualificada e de muitas piadas inteligentes. É aquele filme que cumpre o que promete e vai um pouco além e só não consegue ser perfeito, por ter pequenos problemas de desenvolvimento e já demonstrar algum desgaste. Mas, pelo que os créditos indicam, eles não vão desistir de fazer continuações e, sinceramente, se elas mantiverem 70% do que está sendo feito, elas vão me divertir e valer o ingresso.

OBS 1: Tentem observar como esse filme, tanto quanto seu antecessor, tem o desenvolvimento similar ao de uma comédia romântica. Eles estão felizes, brigam, separam e se reconciliam de uma maneira zoada e proposital.

OBS 2: Demorei um pouco pra escrever a critica, porque tive que respirar e esquecer que vi o filme dublado. Não estou falando mal da dublagem, mas muitas piadas se perdem na tradução e atrapalham. Ainda assim, o filme vale a pena.

OBS 3: Prometo que vou escrever alguma coisa sobre o assunto, por que não consegui encontrar nenhuma sessão legendada para o filme no Estado. Estou pensando em como escrever algo grande e abrangente sobre o assunto.