AODISSEIA
Filmes

Crítica: Aniquilação

Um road movie, um terror ou um sci-fi existencial?

13 de março de 2018 - 13:19 - Flávio Pizzol

Depois de escrever o romance que originou o longa A Praia e roteirizar os ótimos ExtermínioSunshine – Alerta Solar e Dredd, Alex Garland roubou todos os holofotes do cinema de ficção cientifica com sua estréia na direção: um filme misterioso e independente chamado Ex-Machina. O longa chamou a atenção da crítica, conquistou o público, levou Alicia Vikander ao estrelato e encerrou sua passagem por Hollywood com uma indicação de Roteiro Original e um surpreendente Oscar de Efeitos Visuais. Tudo isso fez com que seu novo projeto, Aniquilação, criasse certa ansiedade no mercado.

Agora, adaptando o livro de Jeff VanderMeer, o diretor e roteirista decidi contar a história de várias pessoas que tem sua vida modificada pelo surgimento de um inexplicado evento que fica conhecido popularmente como O Brilho. A principal delas é uma bióloga que vê sua vida desmoronar mais uma vez quando seu marido, dado como morto em uma missão secreta, retorna para casa após um ano. Isso a leva até a Área X e se torna a grande motivação para uma missão de investigação dentro do tal Brilho.

Como um grande contador de história, Alex Garland se apropria desse senso de investigação por um local desconhecido para formatar a narrativa de Aniquilação como uma espécie de road movie. Essa não é de longe a característica mais importante da produção, mas é um artifício que divide a história em capítulos e ajuda a conduzir o espectador por uma trama em constante progressão. Os mistérios e o senso de ameaça tendem a ser maiores em cada parada e a direção usa os cenários muito bem trabalhados para apresentar todo esse contexto, precisando fazer pouco para que o público entenda o que era aquele lugar e o que o mesmo pode representar.

Dentro dessa construção narrativa, o longa pode ser dividido em dois gêneros básicos: um terror psicológico na pegada de O Enigma de Outro Mundo (1982) e uma daquelas ficções científicas cabeçudas que flertam com a existência do ser humano. O primeiro é o principal ponto fraco de um filme que, mesmo não focando nos sustos, perde a oportunidade de gerar qualquer impacto na aparição dos monstros geneticamente modificados e não chega nem perto de emular a sensação de loucura que deveria impregnar a mente das protagonistas. A falta desses dois aspectos enfraquece as cenas que deveriam prender a atenção do espectador e torna a decisão de uma das personagens (sem nomes para não dar spoiler) completamente artificial.

Por sorte, Garland sabe muito bem conduzir o lado mais científico da trama, tecendo questionamentos afiados sobre a vida, o universo, a existência humana, a contradição entre vida e morte e mais algumas coisas que não merecem ser citadas aqui. Seu texto parte mais uma vez da insignificância humana perante o universo (Ex-Machina fazia isso na relação entre o homem e as máquinas) com o objetivo de conduzir o público por uma história que abraça conceitos científicos, a piração e aquele típico plano final cuja função é deixar a pulga atrás da orelha de quem está assistindo. Você pode, assim como eu, descobrir a reviravolta principal antes da hora, porém isso – ao contrário do que rola nos momentos de horror – não consegue tirar o impacto de grande parte do terceiro ato.

E uma das coisas que consegue manter o público inserido no filme é o seu ótimo elenco. Cercado por personagens femininas que, apesar de não terem desenvolvimento completo em todos os casos, possuem motivações próprias e força de vontade, Garland apoia – com sucesso – boa parte do desenvolvimento do roteiro no poder de criação e reação de grandes nomes como Natalie Portman (Thor), Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados), Tessa Thompson (Creed), Gina Rodriguez (Jane the Virgin) e Tuva Novotny (Guerra). Elas carregam o filme e só deixam o centro da trama quando o magnífico Oscar Isaac (Star Wars: Os Últimos Jedi) surge para suas pequenas participações.

A combinação dessas peças faz com que Aniquilação seja um filme carregado e intenso que perde a oportunidade de ser muito mais do que um sci-fi complexo. Falta impacto nos monstros, na construção da loucura e até mesmo na apresentação de alguns aspectos do mundo, porém Garland mantém seu ótimo trabalho quando decide se entregar justamente aos aspectos científicos e existenciais da narrativa. Essa é a jogada responsável por encerrar o longa em uma nota perfeita que acaba balanceando a experiência e cumprindo sua proposta de lançar certas reflexões na mente do espectador.


OBS 1: Eu ter notado alguns erros no filme não significa que ele não bugou meu cérebro. Se preparem!