AODISSEIA
Filmes

Crítica: Animais Fantásticos 2 é um filme meia-boca

Continuação diverte, mas sofre com muitos problemas narrativos

15 de novembro de 2018 - 12:11 - Flávio Pizzol

Vamos esse texto com uma verdade absoluta: o universo de Harry Potter foi a maior galinha de ovos de ouro que a Warner teve durante muito tempo. Histórias de sucesso que se tornaram filmes elogiados, conquistaram uma quantidade gigantesca de fãs e encheu os cofres do estúdio que viu Venom ultrapassar Liga da Justiça (um dos filmes que deveriam ser seu novo carro-chefe). E, gostando ou não, a verdade é que Animais Fantásticos é fruto da vontade do estúdio de continuar arrecadando o máximo possível com o tal universo. Isso não desqualifica a existência desses novos filmes (deixo claro que gosto muito do primeiro e posso provar), mas ajuda a explicar a produção de um filme que, mesmo divertindo, consegue ser tanto superlotado de arcos, quanto completamente desnecessário. Mas vamos em frente com toda a calma do mundo…

Pra começar, a história de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (um título sem justificativa que eu obviamente vou resumir) acompanha sem nenhum mistério o próximo passo na preparação do épico confronto entre Dumbledore e o implacável Grindelwald. Para isso, o professor manda seu pupilo, Newt, para Paris com o objetivo de encontrar Credence antes do vilão e isso vai dar início a uma série de aventuras e descobertas que ameaçam a cidade e o universo bruxo como um todo.

Uma premissa básica e – convenhamos – nada surpreendente que usa a presença de um grande vilão para se aproximar bastante do clima sério da franquia original e até poderia ter algum potencial se não sofresse nas mãos de um roteiro muito problemático escrito pela própria J.K. Rowling. E, deixando claro, o problema aqui não gira em torno dela ser ou não um boa escritora, porque ela já provou seu talento diversas vezes. A questão nesse caso é que ela não entendeu a diferença entre as mídias e claramente escreveu um livro, incluindo toda aquela enfadonha divisão por capítulos e pontos de vistas que acompanham personagens sem nenhuma conexão aparente. Isso também pode ser notado no primeiro longa, mas fica ainda mais aparente e problemático na continuação graças a quantidade de arcos e à montagem no mínimo questionável de Mark Day (A Lenda de Tarzan).

O resultado é uma produção arrastada, cansativa e confusa que demora pra chegar em algum lugar (narrativamente falando, já que eles podem aparatar, né) e “aproveita” esse tempo pra explorar inúmeros temas de maneira rasa, aglomerando uma série de personagens e acontecimentos bem desnecessários para o todo. Nicolas Flamel, por exemplo, poderia ser substituído por qualquer outro bruxo da face da terra, mas está no filme só pra a câmera mostrar a pedra filosofal por dez segundos. Jacob é outro personagem sem nenhuma função narrativa que garantiu seu lugar aqui apenas por estar no primeiro longa, já que nem seu papel de alívio cômico é utilizado com tanta frequência dessa vez. E o mesmo pode ser dito de Nagini, Leta Lestrange e Theseus, considerando seus desenvolvimentos mínimos e suas funções que poderiam ser ocupadas por qualquer outra pessoa.

Além disso, no meio de inúmeros feitiços usados descaradamente pelo roteiro como deus ex machina, Rowling ainda encontra espaço para deixar um último grande problema: um terceiro ato extremamente anti-climático e nada recompensador pra quem esperou tanto tempo por algo impactante. Em outras palavras, Animais Fantásticos 2 constrói seu suposto senso de urgência como algo que culminaria num gran finale, porém nunca entrega isso. A sequência de ação final é extremamente genérica e mal resolvida, as reviravoltas são óbvias e o foco recai sobre as pessoas erradas, dando um peso grande demais para personagens novos que ainda não possuem elo emocional com o público. As palavras ditas na conclusão podem até ter alguma força, mas acabam soando vazias sem essa conexão.

Pra nossa sorte, como espectador e fã do universo de Harry Potter, o filme acerta em uma trinca decisiva: na direção relativamente eficiente, nos efeitos especiais incríveis e no caminho de alguns protagonistas que seguram o filme. A verdade é que, com exceção de algumas cenas de ação extremamente confusas e uns planos subjetivos sem sentido, David Yates possui pleno controle desse universo onde está inserido desde Harry Potter e a Ordem da Fênix e faz um ótimo trabalho na apresentação dos detalhes de época, no figurino, na criação de animais fantásticos que conquistam o público imediatamente e na direção de atores que já surgem confortáveis nos seus papéis. E, no caso de Newt e sua trupe, o fato do primeiro filme ser uma grande apresentação é de grande ajuda na hora de reforçar os laços com a audiência.

Só é um pouco triste ver apenas Newt Scamander ser bem aproveitado pela trama de Animais Fantásticos 2, visto que Quennie sofre com um arco corrido e voltado para um único objetivo, Tina é reduzida ao romance que nunca rola e Jacob, como eu já disse, não tem nada pra fazer além de um número bem reduzido de piadas. O bom humor e a força de vontade acabam permitindo que Dan Fogler (The Goldbergs) e Katherine Waterston (Steve Jobs) roubem os holofotes momentaneamente, mas logo ambos são deixados de lado para que Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) brilhe no meio dos tiques exagerados do carismático amante dos animais. E, apesar das aparições serem menos numerosas do que o esperado, Jude Law (A Espiã Que Sabia de Menos) e Johnny Depp (Assassinato no Expresso do Oriente) também possuem ótimas presenças de cena, sendo o primeiro responsável por dar vida aos trejeitos de Dumbledore com um toque jovial e o segundo por gritar bravatas de guerra que não vão incomodar quem já entrou na sala com certo ranço do ator.

Na verdade, a raiva que parte do público acumulou após a escalação de Depp ajuda a deixar Grindelwald mais vilanesco do que o roteiro se propõe a criá-lo e, de certa maneira, isso pode ser bom no caso de um antagonista que ainda não teve suas motivações exploradas. Algo que esperamos que aconteça no futuro, porque o que fica no final desse é justamente o gostinho dessas promessas. J.K. Rowling cria um filme de transição arrastado, mal organizado e inchado que não funciona sem as referências, mas deixa claro que tudo vai fazer sentido ou ficar realmente espetacular no próximo, sendo que no final das contas tudo o que parece importar de verdade é o começo e o final da novela. Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald deixa claro que a franquia entrou na trilha da encheção de linguiça à la O Hobbit e as expectativas de sair de lá sem prejudicar o universo são poucas. Isso não significa que o filme não seja divertido, bonitinho e muito nostálgico (porque ele é), mas quer dizer com todas as palavras que o universo de Harry Potter merecia mais do que uma produção desnecessária e inferior ao começo contido e esperançoso dessa nova franquia.


OBS 1: Não vou falar que o Grindelwald é extremamente parecido com um certo político brasileiro… Vamos apesar dizer que ele é uma referência ambulante a Hitler e o resto pode ser (ou não) mera coincidência…

OBS 2: Também não vou dizer que os animais quase não tem importância. Os poucos que aparecem são fofos e tal, mas a quantidade não justifica o título pra mim.

OBS 3: Isso sem contar que certa revelação do final abre a possibilidade de um belo retcon na história original, afinal a família do Dumbledore já tinha sido toda apresentada anteriormente… ou não?