AODISSEIA
Filmes

Crítica: Ana e Vitória

Um estudo romântico e musical da nossa geração

7 de agosto de 2018 - 12:00 - Flávio Pizzol

Uma canção autoral publicada na internet por duas garotas do interior do Tocantins, uma conexão inesperada com um empresário carioca e a parceria certeira com um cantor em ascensão no Brasil. Essa receita completamente globalizada e conectada com a realizada da nossa geração foi o começo de uma caminhada que culminou no sucesso estrondoso e quase instantâneo do duo Anavitória. Agora, pouco tempo após tomar o país de assalto, as garotas chegam aos cinemas com Ana e Vitória. Um filme com cara de biografia que encontra seu caminho ao se transformar num retrato social cercado de romance e músicas sobre os jovens da atualidade.

A história começa quando Ana Caetano e Vitória Falcão se conhecem em uma festa no Rio de Janeiro e dão, mesmo que inconscientemente, o pontapé inicial em uma trajetória musical que vai funcionar como um mero organizador narrativo no filme. Isso significa que, por mais que os atos sempre comecem em pontos marcantes na vida da dupla como aconteceria em uma típica biografia, o conteúdo da trama em si não tem nada a ver com isso. Ana e Vitória é muito mais sobre as descobertas e desilusões amorosas que vão formando a personalidade e a música dessas garotas do que sobre as gravações de CD, as turnês ou os shows.

E focar nisso é justamente o que acaba direcionando o filme para esse tal estudo social da nossa juventude, apresentando uma história atual que sabe discutir certos tabus de forma aberta, natural e surpreendentemente sincera. Não é um daqueles trabalhos profundos e complexos que chamam a atenção e entram para a história, mas continua sendo interessante ver o texto escrito por Matheus Souza (Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida) falar sobre temas como sexualidade, amizade, internet e sucesso com sensibilidade e algumas boas referências – indiretas – aos relacionamentos líquidos que autores como Zygmunt Bauman dizem caraterizar essas gerações mais novas.

É claro que, no meio desse processo todo, o roteiro acaba se perdendo diversas vezes em sua própria desorganização, parece indeciso sobre o tom de certos momentos, cai em muitos clichês dos gêneros (principalmente a comédia romântica) em que está incluído e peca pela falta de obstáculos que movimentem a trama e façam o espectador torcer pelas protagonistas sabendo ou não das histórias reais de ambas. São problemas constantes e estruturais que incomodam e só não me tiraram de uma vez por todas da experiência por conta da boa direção do mesmo Matheus Souza (Tamo Junto).

Ele encontra uma abordagem visual muito bonita, jovem e adequada à temática da produção, conduz a trama sem deixar o ritmo cair drasticamente (com exceção dos últimos quinze minutos) e aproveita muito bem a trilha sonora produzida pelas próprias estrelas do show em parceria com Tiago Iorc e a ótima banda OutroEu. As canções – que possuem ótimas letras, por sinal – se encaixam dentro da história com precisão e, mesmo adquirindo aquela cara de clipe, não interrompem o clima proposto pela narrativa graças mais uma vez a um trabalho de direção eficiente que inclui planos sequências bastante fluídos, templates de redes sociais pipocando na tela, uma transição que apresenta toda a vida útil de um relacionamento com a câmera fixa e algumas metáforas visuais que superam a cafonice para falarem mais do que o texto em si.

As atuações, por sua vez, são medianas e podem ser considerada por muitos um grande problema da produção pelo simples fato das protagonistas não serem atrizes. É impossível negar que existe um desconforto aparente quando Ana Caetano e Vitória Falcão dividem textos afastados de suas ralidades com outros coadjuvantes, porém a direção tem plena consciência dessa dificuldade e evita colocar nas costas delas, por exemplo, piadas que necessitem de um timing cômico mais apurado pra funcionar. O humor e os momentos mais dramáticos ficam reservados a atores mais experientes como Victor Lamoglia (Sharknado 5), Thati Lopes (Porta dos Fundos) e Bryan Ruffo (Trabalhar Cansa) ou surpresas como a digital influencer Clarissa Müller.

Isso é o suficiente para prender a atenção do público e, junto com outros acertos, entregar um resultado muito acima que o esperado. Eu desconfiava da necessidade de se fazer uma suposta “biografia” sobre duas jovens com tão pouco tempo de carreira, do amadorismo evidenciado pelo trailer e da qualidade de algo que foi idealizado, produzido e lançado em menos de oito meses, mas o filme conseguiu reverter essa falta de expectativa em bons sentimentos na maior parte do tempo. É óbvio que a maior parte da produção é direcionada para um público mais adolescente e acaba me perdendo nessas horas, mas isso não anula a existência de um conteúdo necessário para certos estratos da sociedade, momentos divertidos e ótimas músicas. Mais do que isso, eu, como crítico, tenho a obrigação de aceitar e avisar que Ana e Vitória sabe o que e com quem está falando, tornando-se no mínimo uma mensagem bonita enviada que deve impactar se encontrar o remetente certeiro.


OBS 1: O álbum com a trilha sonora do longa já foi lançada nas plataformas digitais e pode ser conferida aqui.