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Séries

Crítica: American Horror Story – Roanoke

Com subgêneros do terror considerados mortos pelo público, Ryan Murphy entrega a melhor temporada de American Horror Story em anos.

18 de novembro de 2016 - 16:38 - Tiago Soares

Desde 2011 quado estreou, American Horror Story apresentou algo diferente para a TV, que acabou revolucionando o terror que estamos vendo hoje em muitas séries. O horror do título trazia figuras macabras, e assuntos que são tabus até hoje como o combate a homofobia, a aceitação do outro e até mesmo uma discussão sobre família e amadurecimento, tudo isso com a câmera inquieta e incomoda para alguns de Ryan Muphy, e seu fiel companheiro Brad Falchuk.

Mas Murphy foi perdendo a mão, talvez pelo excesso de ideias e de séries em sua cabeça, comandou Glee e seu fim não tão satisfatório, depois veio com AHS, com as duas primeiras temporadas magníficas que se perderam com o tempo, produz também Scream Queens, uma homenagem ao terror dos anos 80 e 90, além da premiadíssima American Crime Story, e como se não bastasse ainda comandará série FEUD, que tem Jessica Lange em seu elenco. Jessica Lange que saiu de AHS depois da quarta temporada intitulada Freak Show, aonde Ryan começou a inserir muitas tramas paralelas, culminando em Hotel, já sem Jessica, que foi um pouco melhor, mas ainda sofria com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo deixando tudo confuso.

A sexta temporada prometia e muito, já que Ryan e Brad prometiam mudar AHS, a começar pelo título que não foi anunciado até a estreia, antecipada por inúmeros teasers misteriosos, que não entregavam absolutamente nada. Além disso, American Horror Story deixaria os habituais 13 episódios (com exceção de Hotel com 12) e teria apenas 10, deixando a trama mais enxuta. Felizmente tudo foi cumprido e Ryan entrega a temporada mais sangrenta, enxuta, objetiva e a melhor desde Asylum, que foi dividida em 2, ou porque não 3 partes, começando com My Roanoke Nightmare:

My Roanoke Nightmare (Episódios 1 a 5)

A sensação de novidade foi sentida logo no primeiro capítulo, intitulado apenas como Chapter 1 (Capítulo 1), AHS começava como uma espécie de mockumentary (falso documentário), que contava a história do casal Shelby (Lily Rabe) e Matt (André Holland), que após um ato de racismo e violência contra Matt, resolvem ir para um lugar mais tranquilo, e acabam comprando uma casa aonde ficava a antiga colônia de Roanoke. Pra quem não sabe Roanoke trata-se de uma colônia estabelecida nos EUA, mais especificamente na ilha de Roanoke, na Carolina do Norte. Tal colônia é hoje conhecida como A Colônia Perdida, em virtude de todos os seus colonos terem desaparecido.

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Praticamente temos uma trama, mas Ryan e Brad resolvem ir além, não se limitando apenas a uma casa assombrada ou um lugar em si, mas trabalhando os seus personagens tanto no presente, como na simulação. Mas como assim simulação? Sim, enquanto Shelby e Matt narram suas histórias, tudo é simulado no falso documentário, sendo Shelby vivida por Sarah Paulson e Matt por Cuba Gooding Jr. ambos com atuações impecáveis. Além deles, Lee (Adina Porter) vivida por Angela Bassett no programa, tem papel fundamental em toda a história.

Com os personagens reais narrando os fatos, é possível perceber que todos sobreviveram ao tal Pesadelo Roanoke e fica difícil compreender de cara se aquilo faz parte do programa ou se são flashbacks, felizmente a linguagem usada por diretores de qualidade como Bradley Buecker, Michael Goi, Jennifer Lynch,  Marita Grabiak e Nelson Cragg, ajudam pra que a história tenha foco, algo que as temporadas anteriores não estavam tendo com muitas tramas. Aqui o objetivo e a sobrevivência, e mesmo não sendo original em trazer ideias velhas (como os que morrem permanecem presos na casa ou ao redor dela assim como em Murder House), Ryan consegue dar um toque de realismo, e com conexões tanto com a primeira temporada ( a volta de Pig Man) e a personagem de Lady Gaga (a primeira suprema), como nas referências a O Iluminado, Bruxa de Blair e até a O Massacre da Serra Elétrica, com a família Polk, espécie de canibais, liderados no programa pela sempre ótima Frances Conroy.

Apresentando alguns flashbacks sobre a origem da casa, como o capítulo focado no milionário Edward Phillipe Mott (Evan Peters) e inserindo opiniões de “especialistas” no assunto, American Horror Story Roanoke traz a grande dúvida se de fato todos os martírios vividos por Shelby, Lee e Matt são reais, ou se tudo não passa de alucinação, o que acabamos descobrindo futuramente, que não é bem assim.

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Return to Roanoke: Three Days in Hell (Episódios 6 a 9)

O grande boom da temporada se daria no capítulo 6, considerado o de transição por Ryan Murphy. Quando descobrimos que a primeira temporada do programa My Roanoke Nightmare foi um sucesso, e o showrunner Sidney (Cheyenne Jackson) convence os executivos a realizar uma segunda. É interessante notar que o próprio Ryan Muphy é parodiado na figura de Sidney como um idealizador. Daí deixamos de acompanhar o falso documentário e a série se torna um found footage de qualidade e  de dar inveja a qualquer Bruxa de Blair e seus descendentes.

Com isso todos voltam a casa em Roanoke para a segunda temporada Return to Roanoke: Three Days in Hell, dessa vez os próprios a viverem o inferno e os atores estarão na casa, numa espécie de Big Brother do terror, durante o período da Lua de Sangue, o mesmo da primeira temporada. Outro ponto levantado por Ryan é o não saber separar a vida do ator, da vida do personagem, refletido na figura de Agnes (Kathy Bates), que praticamente tomou esta temporada para si nos poucos momentos em que apareceu. A atriz não conseguia sair do seu personagem, a açougueira, uma figura demoníaca assassina em Roanoke, e acaba causando um verdadeiro caos em toda a temporada.

Com Shelby, Matt e Lee originais, além de seus interpretes Audrey Tindall (Sarah Paulson), seu marido Rory Monahan (Evan Peters), Dominic Banks (Cuba Gooding Jr.) e Monet Tumusiime (Angela Bassett) se unem na casa com seus papéis definidos, se tratando dos atores, com Sarah fazendo uma britânica incrível ao lado de Evan, Cuba fazendo as vias de vilão e Angela a de alcoólatra descontrolada, aliás Angela Bassett dirige o episódio 6 dessa temporada, um dos melhores da série. O espectador de American Horror Story já é avisado que as imagens são fortes e que todos morrerão, menos um, o que deixa a sensação de suspense durante toda a temporada.

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E podem anotar, essa é a temporada mais sangrenta de American Horror Story, mortes de todos os tipos (desmembramento, queimados vivos, pessoas estripadas) e a falta de apego aos personagens é evidente, a segunda parte da temporada exagera no gore sem medo, e prova que o found footage não está morto e pode ser apreciado quando bem feito, méritos a direção de Elodie Keene, Gwyneth Horder-PaytonAlexis Ostrander nessa segunda parte, além de retornos esperados como o de Tayssa Farmiga, que apesar de breve, é muito importante para o todo.

Chapter 10 (Crack’d, Lana Winters Special e Spirit Chasers)

A season finale de AHS merece um tópico próprio, pois tem seu próprio estilo e pode ser considerado o capítulo mais “fora da casinha” dessa temporada, confesso que muitas vezes achei que estava vendo a série britânica Black Mirror. Começando com uma brincadeira de Ryan, de repente achamos que tudo não passa de uma grande pegadinha, quando na verdade tudo de fato aconteceu. Lee realmente é a única sobrevivente do massacre, e toma completamente este episódio, começando com o programa fictício Crack’d que mostra o julgamento de li, sua absolvição e a tentativa de reconquistar Flora, seguido do programa Lana Winters Special, que nos brinda com a volta de Lana “Banana” em uma clara conexão com Asylum, citada aqui em outro momento.

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Mais como um fã service, a volta de Lana é desnecessária, assim como outros retornos, o de William (Denis O’Hare) e Ashley (Leslie Jordan), aliás a season finale só existe para fechar o arco de Lee, pra quem viu o capítulo 9, sabe que a história poderia ter terminado muito bem ali. Apesar de um fim não tão satisfatório, principalmente com a inclusão do Spirit Chasers (Caçadores de Espíritos) no fim do episódio, e o sacrifício de Lee para salvar Flora, além da explosão da casa, AHS Roanoke tem um fim digno de sua temporada, e um epílogo que deixa uma pulga atrás da orelha. Com inúmeras referências, homenagens, auto-plágio e muito sangue, American Horror Story volta aos eixos e consegue entregar sua melhor temporada desde Asylum.


Obs: A única coisa que senti falta nesta temporada foi a clássica abertura, mas entendo que sua ausência teve importância narrativa.