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Séries

Crítica: American Horror Story Apocalypse – O fim de tudo que conhecemos

Ryan Murphy construindo e destruindo seu próprio universo

17 de novembro de 2018 - 13:13 - Tiago Soares

Ryan Murphy é um criador. Nos inúmeros textos sobre suas séries presentes no site, várias características são ressaltadas, mas a de criador é a melhor delas. A cada temporada de American Horror Story, Murphy constrói seu próprio universo — estabelece regras e as quebra — ao mesmo tempo em que traz um ar de novidade ao seu carro chefe na televisão. Depois do decepcionante 7º ano, o criador ao lado de Brad Falchuk  já gerou expectativa ao anunciar que esta seria a temporada prometida para o crossover entre as temporadas 1 (Murder House) e 3 (Coven) — e ainda bem que Ryan vai além ao criar um universo dentro daqueles que já tinha estabelecido, sem abandonar o esperado fã service.

O mundo acabou. AHS Apocalypse começa exatamente no fim, sem rodeios. Bombas nucleares atingiram boa parte do mundo e devastaram todos — menos aqueles escolhidos a dedo pela figura de Michael Langdon (Cody Fern), para viver em abrigos anti-radiação e as bruxas do Coven da suprema Cordelia (Sarah Paulson). Ambas as figuras, uma em cada lado desse embate, vão se enfrentar até o fim em um jogo de xadrez, cercado de jogadas aonde bem e mal se entrelaçam.

Nos dois primeiros episódios somos apresentados a este novo mundo, para que no restante da temporada apenas flashbacks relatem o que aconteceu para chegarmos até ali. Ryan começa sua história pelo fim, e reinventa sua série de forma não linear. Se em Roanoke ele trouxe o found footage, aqui ele trabalha com uma câmera mais contemplativa, recheada de planos abertos em lugares fechados. A direção de arte mostra o quanto aquele mundo está devastado contrapondo os figurinos espetaculares.

Bradley Buecker, Jennifer Lycnh e até Sarah Paulson (que dirigiu o melhor e mais longo episódio da temporada), foram os responsáveis por trazer essa visão deturpada e o roteiro que passou por várias mãos além das de Ryan e Brad, nos faz retornar ao Coven, a Murder House e surpreendentemente ao Hotel Cortez do famigerado 5º ano. O texto amarra todas as pontas que ele mesmo se propôs a desatar, e tudo encaixa perfeitamente. Dúvidas das temporadas citadas também são respondidas sem que ninguém as pergunte e não há qualquer indício de saudosismo em uma narrativa cercada pela nostalgia.

Porém apesar de criar uma história própria, ela depende das outras temporadas para existir, tirando a sensação de antologia que a série traz. Dito isto, a oitava temporada de American Horror Story é feita exclusivamente para os fãs, aqueles que viram as temporadas citadas, não funcionando para quem chegou agora. Os retornos insanos de Misty Day (Lily Rabe), Madison (Emma Roberts) e do maravilhoso elenco da primeira temporada (Dylan McDermott, Connie Britton e a incrível Jessica Lange), só reforçam a ideia da total falta de desprendimento as tramas anteriores, sendo necessário lembrar delas, já que não há um resumo.

O deus ex-machina no fim é previsível, e Ryan quase perde a mão na reta final devido ao excesso de tramas e a perca do foco, principal adversário do criador em suas obras. Felizmente a série termina em alta com um final satisfatório, num clímax poderoso e repleto de futuras possibilidades.


Obs 1: Evan Peters fez inúmeros personagens nesta temporada, mas infelizmente foi sub-aproveitado em todos eles.

Obs 2: Frances Conroy e seu sarcasmo foram os verdadeiros donos desta temporada.

Obs 3: As perucas da temporada foram as verdadeiras vilãs.