AODISSEIA
Filmes

Critica: Amazônia


7 de julho de 2014 - 17:00 - Flávio Pizzol

amazonia

Não sei se assisti um filme infantil ou um documentário da BBC exibido no Globo Repórter. Mesmo pairando sobre a indecisão e muitos problemas, Amazônia não deixa de cumprir o que promete.

O filme conta a história de um macaquinho de circo que tem que aprender a viver na selva depois de sofrer um acidente de avião. Assim, vamos acompanhando o herói em uma jornada humanizada de auto-descoberta e sobrevivência por um ambiente desconhecido – não só por ele como por boa parte dos brasileiros.

Amazônia é uma produção dividida entre França e Brasil, que tenta aproveitar a pegada ambiental e infantil aberta por Rio. É um longa bem produzido, meticuloso e até corajoso, quando abre mão dos efeitos especiais muito usados para dar vida aos animais. Para contar a história do macaquinho e mostrar toda a vida selvagem em 3D, os produtores do filme passaram 3 anos gravando com animais em um ambiente complicado. Pensem como deve ser difícil andar pela floresta com equipe, animais e câmeras gigantescas.

Aí devemos todos os elogios do filme ao diretor Thierry Ragobert. Devo admitir que todos os problemas são superados pelas belíssimas imagens feitas pelas lentes bem fotografadas do diretor. Por causa dele, as partes documentais do filmes tem muita força e beleza, mesmo que muitas dessas cenas sejam transições ou momentos mais aleatórios do filme.

Por outro lado, a parte ficcional do longa, mesmo escrita por cinco pessoas, deixa a desejar. Muitas situações do filme são forçadas, principalmente quando vemos um cenário recheado de situações extremamente humanas. Eu não consegui comprar a idéias, mas o público infantil deve se encantar com o herói se apaixonando ou fugindo dos vilões, seja uma onça ou o pai de sua “namoradinha”. Ou seja, o filme cumpre parte do seu objetivo que é ser um filme infantil.

Claro que isso não pode ser usado como desculpa quando vemos algumas cenas sem nenhum senso de ridículo, como um macaco alucinando depois de comer um cogumelo. Essa cena em particular pode ter uma estética interessante, mas eu não consegui entender a função dela no filme.

Como a linguagem é proritariamente infantil, o longa é bem simples. Mesmo sem falas saindo da boca dos animais ou muitas explicações, o filme é previsível e muito fácil de entender. Mas ao falar isso tenho que deixar claro que assisti a versão italiana do filme, porque a produção brasileira adicionou uma estranha e desnecessária narração in off feita em primeira pessoa por Lúcio Mauro Filho.

Esse tipo de narração vem para deixar o filme mais didático e cômico, mas a verdade é que poucos filmes precisam dessa muleta narrativa e, ainda assim, ela vem sendo usada de maneira excessiva nos últimos tempos. Não assisti como ficou essa versão (só no trailer), mas não senti dificuldade nenhuma em pegar o ritmo do filme.

Lógico que na versão internacional o ritmo é ditado de outra maneira, se apoiando na edição e na trilha sonora. A primeira me deixou um pouco dividido, já que funciona bem quando precisa direcionar as imagens ficcionais, mas, por outro lado, deixa alguns vazios narrativos bem incômodos. A segunda já atua de maneira mais precisa, deixando claro quais são as cenas de tensão ou de alivio cômico. Destaque para um momento aleatório onde um tatu tenta subir em um tronco e a música de fundo me lembrou muito os filmes mudos de Charles Chaplin, onde a comédia física era a alma do negócio.

Mais tudo isso não tenta, em nenhum momento, tomar o lugar da selva e seus habitantes. Mesmo com trejeitos antropomórficos dignos da Disney para criar uma conexão com as crianças, os animais são as estrelas, principalmente o macaquinho herói, que mostra muita inteligência e sagacidade. Ele se vira muito bem para quem nunca viveu naquele ambiente hostil.

Pensando em quão difícil deve ser trabalhar com animais, devo dizer que fiquei abismado com a qualidade do macaquinho. Palmas para o diretor que deixou o pequenino com mais carisma e caretas do que a Kristen Stewart e o Robert Pattinson juntos. Mesmo não gostando da humanização proposta, devo admitir que é impressionante ver sentimentos humanos nas feições de animais sem nenhum incremento digital. Isso foi um dos aspectos responsáveis por me conectar ao filme, já que me importei com a história do macaco.

Mesmo tendo muitos problemas, Amazônia é um filme muito bonito que tem tudo para agradar em cheio as crianças pequenas. Mesmo os adultos que forem de coração aberto vão se sentir bem no filme. Se não quiser ver no cinema, espere um pouco e veja no Globo Repórter em alguma sexta na televisão mais próxima.

OBS 1: Sem a narração, o macaco não tem nem nome. No Brasil, ele é chamado de Castanha e faz muitas piadas, de acordo com as criticas nacionais.

OBS 2: Logicamente, o filme termina com uma mensagem ambiental. Ela tem sua devida importância, mas passa muito rápida.

OBS 3: Deixei pra falar que a humanização trás junto os clichês dos filmes estrelados por humanos. Observem a última cena, onde o macaco tira a coleira com estilo e dá aquela olhada típica para a câmera.

OBS 4: Luto pelo macaquinho morto pela harpia em uma cena que não poupa as crianças da cadeia alimentar.