AODISSEIA
Filmes

Crítica: Alma da Festa é comédia da melhor qualidade

Uma comédia surtada e surpreendentemente inspiradora


20 de setembro de 2018 - 13:14 - Flávio Pizzol

Eu sei que posso estar nadando contra a maré com essa afirmação, mas preciso admitir que não sou o maior fã de Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento). De todos os filmes que ela estrelou desde sua elevação ao status de astro da comédia, eu amo A Espiã que Sabia Demais e me divirto com Um Santo Vizinho e Caça-Fantasmas. Só. Ela é claramente uma atriz muito versátil e talentosa que sabe como interpretar textos ágeis e cheios de referências com perfeição (vide a citada paródia dos longas de espionagem), mas o seu tipo de humor predominante – mais físico – simplesmente não conseguia me impactar como fazia com o resto do mundo. Por sorte, Alma da Festa consegue balancear alguns estilos de comédia e levar qualquer sujeito sem hype, como eu, em uma jornada divertida e surpreendentemente antenada em seus discursos.

E, além da expectativa baixa, a surpresa que surge no futuro é fortalecida pelo fato do filme partir da premissa mais básica possível: uma mãe que viveu mais de 20 anos em torno do marido e da filha decide aproveitar a separação recente como motivação para concluir sua faculdade e reconquistar sua independência. O problema – que não poderia faltar nesse tipo de comédia – é que seu curso é ministrado no mesmo campus onde sua filha descolada está prestes a entrar no último ano.

Se essa história indicava que eu estava diante de mais um filme óbvio e bobo que gira em torno de um protagonista deslocado na faculdade, ver o nome de Ben Falcone nos créditos de roteiro e direção só fortaleceu essa possibilidade na minha mente. Ele sabe fazer o básico e passa longe de ser um péssimo diretor, mas seus dois longas anteriores (Tammy: Fora de Controle e A Chefa) estão no topo da lista dos filmes de McCarthy que não me agradam justamente por abusar do lado mais grosseiro e “sujo” da atriz. No entanto, mesmo sem fugir do seu típico feijão com arroz, o diretor me fez acreditar que esse passado sombrio não passava de um treinamento para essa colaboração que consegue se dividir entre o clichê e a subversão.

Uma parte de Alma da Festa é realmente esse clássico filme de faculdade que, apesar de usar a figura diferenciada de uma mãe, aposta em uma filha que não quer conviver com a mãe durante a faculdade e alguns outros clichês como a disputa de dança, a hora de ficar chapada e a festa para arrecadar dinheiro no clímax. No entanto, o longa consegue caminhar por trilhas pouco exploradas principalmente em relação a escolha dos discursos que ficam no centro da narrativa. Não posso negar que o longa demora um pouquinho pra engatar, porém, assim que esse momento de virada acontece, o ritmo muda completamente, a protagonista fisga a atenção do espectador e o roteiro aproveita o embalo para arriscar algumas reviravoltas que me pegaram mais desprevenido do que o esperado.

Mesmo assim, o filme leva o público por dois caminhos diferentes: os momentos onde a personagem está “por baixo” e aqueles em que ela está “por cima”. Nesse caso, as cenas focadas no seu sofrimento e desânimo não mexeram comigo e talvez seja por isso que o primeiro ato pareça tão arrastado e pouco inspirado. É claro que todos esses trechos possuem função narrativa quando se pensa no arco de uma personagem cujo objetivo é dar a volta por cima, mas as peças parecem não se encaixar tão bem quanto no lado otimista. E isso acaba piorando com o tempo, porque toda vez que esse clima volta no decorrer da projeção – como na sequência da apresentação oral – quebra o ritmo de algo que já mostrou que pode fazer muito mais.

Metaforicamente, é como se você experimentasse algo muito bom e reclamasse quando o garçom te obrigasse a comer algo menos gostoso. Por motivos óbvios, você vai preferir ficar nos pratos saborosos que em Alma da Festa são representados pelas inúmeras sequências que exaltam a protagonista através de discursos que dialogam com a diversidade em sua melhor forma, flertam com o empoderamento feminino sem ser panfletário e valorizam as pessoas independentemente da sua idade ou dos seus atributos físicos. Com exceção de uma mudança simples no visual, Deanna não precisa emagrecer ou fingir ser mais nova para bombar nas festas, roubar o coração do garoto mais gato da faculdade ou arrancar gargalhadas da audiência. E isso é ma-ra-vi-lho-so.

Esse momentos quebram com todos os clichês que poderiam ser aproveitados ao se colocar uma mãe cafona num ambiente mais jovem e oferece um material de muita qualidade para Melissa McCarthy – que também roteiriza o longa – brilhar em todos os tipos de humor possíveis. Ver a personagem funcionar como alguém descolada e cativante é tão inesperado que, ao contrário de outros filmes da atriz, as piadas mais brutais (como a invasão do casamento) me fizeram rir tanto quanto as tiradas mais inteligentes e sarcásticas (como os trocadilhos de arqueologia). E esse clima ainda se espalha muito bem pelo elenco coadjuvante, alcançando inclusive nomes mais jovens que contracenam muito bem com Melissa e roubam os holofotes uma vez ou outra.

A cena do jantar, por exemplo, funciona justamente por começar com a personagem por baixo e, de repente, abraçar o lado vitorioso de Deanna para se tornar a melhor sequência de piadas e interações entre o elenco do longa. É um daqueles momentos que reúne um clima nonsense, os discursos citados acima e piadas de alto nível com uma perfeição tão grande que me fez rir de uma maneira que poucos longas tem conseguido. E obviamente isso precisa ser levado em conta na hora de dizer que Alma da Festa tem seus problemas, mas sabe exatamente como quebrar expectativas, arrancar risadas altas e preencher a memória do espectador com pelo menos três cenas icônicas para o gênero. Precisa de mais alguma coisa pra ser um boa comédia?


OBS 1: Gillian Jacobs (Love) conseguiu interpretar a personagem mais aleatória dos últimos anos e merece uma salva de palmas.

OBS 2: Gostei do resultado final, queimei minha língua e estou muito feliz com isso.