AODISSEIA
Filmes

Critica: Aliança do Crime


23 de novembro de 2015 - 14:00 - Flávio Pizzol

Bem vindo de volta, Johnny Depp!

Acompanhar a forma como um zé ninguém se transforma em um rei do crime não é uma grande novidade no cinema, mas a história desse gângster de Boston tem alguns aspectos interessantes que poderiam o tornar original. O problema é que o resultado final é bem genérico e seria fácil de esquecer se o retorno de Johnny Depp ao hall das grandes atuações não salvasse o longa.

O filme conta a história de James “Whitey” Bulger, um dos maiores criminosos da história dos EUA. Mas a ideia não era fazer uma cinebiografia para o criminoso e sim um longa de máfia que se apropria de um momento decisivo da sua carreira, onde ele decide fazer uma aliança (como o próprio nome em português já entrega) com John Connolly, um ambicioso agente do FBI que cresceu nas ruas com Jimmy e seu irmão.

A decisão de não gastar tempo abordando a infância de Jimmy para focar na parte da sua aliança é muito inteligente e, como já disse ali em cima, cria uma premissa um tanto quanto diferente para o longa. Entretanto o roteiro, escrito por Mark Mallouk e JezButterworth, deixa claro que não sabe a força do bom material que tem em mãos, já que acaba desperdiçando bons momentos por cair em grandes clichês do gênero, não saber aprofundar seus personagens e por ignorar a importância de algumas histórias paralelas, como a do senador ou a própria morte do filho do protagonista.

Apesar de tudo isso, não posso dizer que o roteiro é mal escrito, afinal ele também acerta quando opta por não fazer uma abordagem maniqueísta dessa história. Aqui o FBI não pode ser considerado o herói e Bulger não se torno um grande vilão, já que tudo é um grande jogo de interesses para os dois lados e, mesmo apostando em um resultado óbvio, nem público consegue ter certeza de quem está manipulando quem durante a maior parte da história.

Seguindo essa mesma métrica de pontos positivos e negativos, a direção de Scott Cooper faz um trabalho eficiente nos movimentos de câmera seguro, na utilização de uma fotografia que deixa o filme com cara de anos 80 e na exploração de um ambiente perfeitamente recriado pela direção de arte. Mas isso não é o bastante e o desenvolvimento do filme deixa claro que falta alguma coisa no trabalho de Cooper.

Na minha opinião, o que mais faz falta é um pouco de explosão dramática, assim como acontece nos seus dois longas anteriores, e isso faz com que o longa seja mais lento do que deveria. Claro que isso funciona em alguns momentos mais tensos, como a cena do jantar e na “discussão” entre Bulger e a mulher de Connolly, mas alguns outros momentos poderiam fazer um bom uso da catarse para mexer com os brios de um público que não estava sentindo nada pelo filme.

São algumas dessas decisões que vão deixando o filme mais genérico até ele ser completamente salvo pelo seu gigantesco elenco, composto por Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Jesse Plemons, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Rory Cochrane, Juno Temple e Julianne Nicholson. O grande problema é que, infelizmente, a grande maioria desses talentos são descartados em personagens mal desenvolvidos ou que não tem espaço para surpreender.

Todo o trabalho de carregar o filme nas costas e dar novas dimensões para os personagens fica praticamente restrito a Johnny Depp, que se encarrega da criação de um personagem introspetivo, calculista e totalmente psicopata que, mesmo assim, joga cartas com sua mãe, ama o filho como ninguém e é idolatrado na cidade. É um papel digno de Oscar que, mesmo com uma grande dose de maquiagem, não tem nada de Capitão Jack Sparrow e fica totalmente fora da zona de conforto do ator.

Aliança do Crime é um filme que sofre com vários erros de roteiro, direção e desperdício de um ótimo elenco, mas que também tem alguns bons acertos que não merecem ser descartados, principalmente pelo fato dele contar com uma das melhores atuações da carreira do seu protagonista. Mesmo assim, o resultado é apenas um filme mediano que só não se torna esquecível pelo brilhante retorno de Johnny Depp aos filmes de gângster.

OBS 1: O filme faz muitas homenagens a outros filmes de máfia, mas a melhor delas está na relação entre a cena do bife e o longa Os Bons Companheiros, dirigido por Martin Scorcese.

OBS 2: Curiosamente, uma das minhas atuações favoritas de Johnny Depp está em Inimigos Públicos, onde ele (de cara completamente limpa) interpreta John Dillinger, outro famoso criminoso da história dos EUA.

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