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Al-Shafaq quer trazer o extremismo islâmico ao âmbito familiar, mas peca em não ser um filme no mínimo coeso


Ano passado, os irmãos Dardenne trouxeram um retrato por vezes errôneo da religião islâmica em “O Jovem Ahmed” (que também estava na Mostra, no ano passado). Lá, eles apresentaram um protagonista facilmente manipulável, tornando sua busca por respostas, uma espécie de vilã. Aqui em “Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide”, o diretor turco-suíço Esen Isik, é mais sutil, mas muito mais confuso que os belgas.

A família Kara é da Turquia, mas vive há muitos anos na Suíça. Abdullah (Kida Khodr Ramadan), o pai, comanda os três filhos com pulso firme enquanto Emine (Beren Tuna), a mãe, tenta equilibrar a rigidez do marido com seu carinho pelas crianças. Os dois garotos mais velhos conseguem se adaptar facilmente às duas culturas, tanto a turca quanto a ocidental.

Mas Burak (Ismail Can Metin), o caçula, não se sente pertencendo a nenhum desses dois mundos. Por isso, ele decide abdicar da cultura do Ocidente para se dedicar ao Alcorão. A princípio, os pais sentem orgulho, e só percebem o extremismo dos ideais de Burak tarde demais, quando o jovem foge para lutar na guerra santa.

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Esse ambiente hostil e de muitos planos fechados da casa dos Kara, se contrapõe aos flashbacks e paralelalismo que deixam a narrativa de “Al-Shafaq” confusa, não apenas pela não-linearidade da trama, mas por conta das motivações de Abdullah. A linha tênue entre o extremismo e fundamentalismo religioso, faz com que as justificativas se tornem banais.

A beleza de “Al-Shafaq” é aquilo que mais nos instiga. É quando vai para a emoção que o filme de Isik tem seus momentos mais belos. Quando discute os males do fanatismo, e a prisão que vivem os protagonistas (até daqueles que contribuem para esse encarceramento), a produção encontra suas melhores situações.

Mas toda esse questionamento e debate, é desperdiçado em momentos incoerentes e bastante implausíveis, com personagens se encontrando em momentos chave, sem razão específica.

“Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide” é forçado, e não traz uma discussão necessária sobre dualidade, que toma conta de um assunto tão sério.


Filme visto na 44ª Mostra de São Paulo. Saiba mais sobre o evento AQUI.

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Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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