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Crítica: Agents of S.H.I.E.L.D. (5ª Temporada)

Uma temporada confusa e agridoce que poderia encerrar a série...

24 de Maio de 2018 - 01:37 - Flávio Pizzol
[Alerta: Caso nenhuma viagem no tempo tenha alterado a realidade, esse texto deve ter alguns spoilers.]

Eu já disse várias vezes (provavelmente em todas as introduções das críticas dessa série) que Agents of S.H.I.E.L.D. deveria receber um prêmio de consolação por sua coragem de tirar os personagens da zona de conforto e reinventar sua narrativa. Hoje eu posso ter certeza de que essa opinião pode ser o retrato perfeito do programa, já que esse mérito continua em dia mesmo durante uma quinta temporada confusa e sem grandes doses de criatividade que só conseguiu encontrar seu ápice emocional em um último episódio que, por sua vez, seria o melhor encerramento possível para o primeiro grande produto televiso da Marvel.

O projeto, estrelado por um recém-falecido Coulson, aproveitou o sucesso estrondoso de Vingadores para chegar a televisão com pompas e glórias, mas não conseguiu segurar uma audiência que esperava a mesma coisa que via nos cinemas. A série precisou malhar muito para se desprender do MCU, aprender a fazer milagres com seus orçamentos baixos e manter-se viva por todo esse tempo. Foi assim que, dividida mais uma vez em três atos, a quinta temporada começou assombrada tanto pelo fantasma do cancelamento quanto pelo gancho deixado no final do quarto ano: após um misterioso teletransporte, nosso heróis acordaram perdidos no espaço. Em outra palavras, completamente fora de suas zonas de conforto.

Os primeiros episódios foram, logicamente, dedicados a apresentação desse novo contexto, onde distopia roubava a cena e as fronteiras morais pareciam caminhar na direção contrárias das concepções terrestres. E, mesmo sem apresentar a tal criatividade que havia marcando as três temporadas anteriores, Agents of S.H.I.E.L.D. conseguiu trabalhar muito bem seu lado sci-fi e mais cartunesco com boas doses de suspense, alienígenas de caras ridiculamente pintadas (algo que já nem me incomoda mais) e novos personagens. O principal deles, Deke (Jeff Ward), adicionou uma certa ingenuidade ao grupo e acabou ganhando um dos arcos mais interessantes da temporada.

Infelizmente, esse mesmo personagem está conectado com um dos grandes problemas desse ano: a viagem no tempo. Idas e voltas entre passado, presente e futuro abrem possibilidades para diversas inconsistências de roteiro e Agents não conseguiu fugir da regra quando decidir mexer com tempo e espaço na mesma tacada. A primeira parte da temporada, por exemplo, apresentou tantos conceitos que chegou a ficar confusa, enquanto o restante dos episódios precisou lidar com as consequências espalhadas em subtramas desnecessárias, vilões medianos e um excesso de núcleos absurdo. Isso, por motivos óbvios, dificultou a amarração das pontas, mas não anulou a capacidade que a série de entregar momentos inesquecíveis.

O destaque desse vez ficou com a saga de Fitz para reencontrar seus amigos em um episódio que reuniu comédia, drama, participações especiais, passagens de tempo muito bem planejadas e uma atuação luxuosa de Iain De Caestecker (Rio Perdido). Por mais que o elenco da série seja todo muito talentoso e carismático, Iain é o membro que mais passou por camadas ao lado do seu personagem (do romance fofinho até a vilania) e dominou todas as elas sem aparentar nenhuma dificuldade. A prova disso é que, já na segunda metade, ele ganhou os holofotes em outro episódio para liberar seu lado malvado. O roteiro fez tudo soar como um deus ex machina, mas a atuação não perdeu nada no percurso.

Outra personagem que ficou no meio dessa confusão temporal e conseguiu sair bem foi a Yo-Yo (Natalia Cordova-Buckley). Ver o futuro alterou sua forma de ver o mundo e o crescimento da personagem levou a discussões morais que, de tabela, aumentaram a força de Mack (Henry Simmons) – um dos meus coadjuvantes favoritos – na série. Isso fez com que até mesmo o trio de protagonistas formado por Coulson (Clark Gregg), May (Ming-Na Wen) e Daisy (Chloe Bennet) ficasse em segundo plano, guardado para momentos-chave ou cenas de ação. Em outras palavras, o episódio de número 100 e o belíssimo season finale sobre o qual vou falar mais daqui a pouco.

Voltando à Terra, os roteiristas da quinta temporada completaram sua bagunça com a repetição (mais uma vez) do antagonismo da Hydra. Seria mais um pequeno problema para a lista desse ano, se esse arco não entregasse uma vilã feminina relativamente ameaçadora e direcionasse para um verdadeiro e grandioso final. Inclusive, como prova da eficiência desses episódios de transição, posso relembrar que eles foram os responsáveis por trazer de volta Glenn Talbot (muito bem interpretado por Adrian Pasdar) com o destaque merecido e contornos de reviravolta que, apesar do desenvolvimento raso, funcionaram muito bem na amarração da série em geral.

E é nesse ponto que Agents of S.H.I.E.L.D. marca uma cesta de três pontos no último segundo de jogo. Se as pontas soltas da temporada em si acabam ganhando resoluções frágeis e questionáveis, a série acerta em cheio ao usar o final de temporada para amarrar a série como um todo. Ver os retornos do Soro Centopéia, da mãe da Daisy como referência aos Inumanos, das tentativas de quase voo da Quake, do Taiti e do próprio Talbot deram um toque de nostalgia ao episódio e cumpriram sua função na criação de conexões que remetessem a diversas tramas do programa.

Além disso, o season finale (que foi propositalmente chamado de The End) também deixou claro que poderia funcionar muito bem como encerramento definitivo da série. Foi o episódio mais surpreendente, corajoso e emocional da temporada, incluindo uma pancadaria cheia de bons efeitos entre Daisy e Talbot, a morte – extremamente forte – do já citado Fitz e uma despedida justa e merecida para Coulson. Não seria a melhor temporada para encerrar uma série que conseguiu entregar três anos geniais com muito pouco, no entanto seria o episódio ideal para tal façanha. Agora tudo o que ficou no lugar certo com esses últimos movimentos agridoces vai precisar ser remexido e defeito para mais treze episódios que devem conduzir a um novo encerramento que, por sua vez, carregará a terrível missão de ser melhor que esse. Boa sorte, Agents of S.H.I.E.L.D.!