AODISSEIA
Séries

Crítica: After Life – Um brinde à vida na alegria e na tristeza

Uma aula de como misturar lágrimas e risadas com perfeição...


11 de março de 2019 - 13:03 - Flávio Pizzol

Pode parecer tendencioso começar esse texto elogiando um dos meus comediantes favoritos, mas não consegui pensar em outra coisa além de repassar essa informação: Ricky Gervais (Humanidade) é um gênio. Ele é um poço de criatividade, escreve piadas como poucos, sabe como extrair críticas bem-humoradas do cotidiano e, assim como faz em praticamente todos os seus trabalhos, ainda embala tudo com uma narrativa que esbanja sensibilidade. O seu texto quase sempre cai numa área politicamente incorreta que talvez não agrade a todos, mas o resto do pacote acaba mostrando o verdadeiro valor do conteúdo no final. E, depois do seu especial de comédia, a Netflix voltou a abraçar essa causa com o lançamento de uma combinação perfeita entre lágrimas e risadas chamada After Life.

A história – criada, roteirizada, dirigida e protagonizada pelo próprio Gervais – acompanha um homem que precisa aprender a viver sem a sua esposa após a mesma ser derrotada pelo câncer. Depois de uma tentativa de suicídio e mais uma porção de pensamentos sombrios anulados pela fome de sua cachorra, ele decide dividir sua vida entre as atividades normais de ser humano e a arte de literalmente ligar o foda-se para tudo. Afinal, segundo ele, não se importar com nada e poder jogar tudo pro alto a qualquer momento é quase um superpoder.

Como a própria premissa indica, After Life carrega consigo a boa e velha carga dramática que sempre acompanha obras cujo o objetivo é dialogar sobre a morte ou o luto. Nesse caso, considerando seu formato de comédia, o tom da série possui um equilíbrio que pode surpreender aqueles que começarem a curta maratona sem ver o trailer. São muitas passagens realmente dramáticas, mas a maioria delas vem acompanhadas por piadas que vão desde sacadas inteligentes sobre a nossa sociedade até um toque de bizarrice que pega carona nessa ideia de ignorar as responsabilidades. É em torno desse “contraste” que Gervais cria diversas situações banais que abraçam alegria e tristeza, desenvolve a história com paciência e constrói com muito talento o arco desse protagonista que perdeu o interesse de viver.

No entanto, convenhamos que a combinação desses elementos não é nem um pouco inovadora, tanto visualmente quanto narrativamente. Dessa forma, o grande diferencial da série está no fato de Gervais ser o faz tudo que comanda todos os detalhes do programa para que ele se torne seu palco. Ele prepara o cenário com algumas pitadas de drama, mexe com os sentimentos do espectador e, de repente, solta suas falas politicamente incorretas com o nível certeiro de acidez, abrindo espaço para discutir a religião, Deus, o amor, os relacionamentos, o trabalho, a depressão, a solidão e diversos outros temas recorrentes em sua carreira. Os momentos com o terapeuta, por exemplo, são praticamente monólogos de stand up disfarçado e isso não é um ponto negativo, já que cria reflexões e recheia o repertório do protagonista com opiniões concretas.

Alguns desses tópicos não passam de sacadas pontuais, outros ganham um desenvolvimento gradativo no decorrer dos seis episódios e os ótimos diálogos escritos por Gervais acabam sendo os responsáveis por amarrar tudo isso ao conceito e à dinâmica da série. Em outras palavras, eles resumem o que After Life tem a dizer e como quer fazê-lo de uma maneira que também adicione conteúdo à trama e à construção do protagonista como um todo. Observe como cada conversa com a senhora do cemitério gera alguma reflexão em Tony e influenciam suas atitudes à longo prazo, refletindo inclusive nos diálogos posteriores. Não é nada fora do comum perante o que o próprio Ricky já fez em Derek e outros de seus textos, mas é um trabalho de escrita que acerta em cheio tanto no tom melancólico, quanto na utilização dessa “ferramenta narrativa” à favor da história.

E, por fim, a cereja do bolo fica a cargo dos personagens que verbalizam tais diálogos com precisão e muita honestidade. Tony, o protagonista, vai apresentando diversas camadas ao longo da série, conquista o espectador com um carisma que muitas vezes precisa superar a solidão e só ganha pontos com a atuação sóbria e cheia de sarcasmo do próprio Gervais. Ao mesmo tempo, os coadjuvantes (destaque para o pai, o cunhado e a moça do cemitério) também recebem a atenção merecida, visto que não é só “nosso herói” que tem problemas. E é justamente a interação entre esses dois mundos que eleva o nível da obra, mostrando que ninguém vive sozinho no mundo e que as consequências dos seus atos devem ser levadas em consideração mesmo quando a tristeza parece gritar o contrário.

É nesse momento que a série cria momentos poderosos, como a discussão dele sobre o sobrinho, e redireciona o arco do seu protagonista sem cair em simplificações. Entretanto, o mais interessante é notar como ela é uma série que cresce a cada episódio e continua adicionando novos ápices emocionais até o último ato. Assim, quando chega no último episódio, mesmo sem apostar em nenhuma reviravolta ou surpresa fora do padrão, After Life entrega o episódio que mais brinca com as emoções do público, faz refletir e comprova sua força narrativa. A montagem final talvez seja cafona e novelesca demais, mas é ela que resume o já citado equilíbrio entre o brutal e o divertido, arrancando tanto lágrimas quanto boas risadas de quem está do outro lado da telinha.


OBS 1: Ignorei o subtitulo em português, por motivos de ser muito ruim!

OBS 2: A única coisa que não entendi é porque a cachorra não tem nome.

OBS 3: Mesmo assim, a cachorra é sensacional. Quero uma igual…