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A guerra do Afeganistão é uma das mais marcantes dos últimos 20 anos, por isso nunca deixa de ser alvo do cinema mundial. No entanto, não adianta fazer novos filmes sem apresentar novas perspectivas para esse conflito. O candidato dinamarquês ao Oscar de filme estrangeiro, A War (ou Krigen, originalmente), consegue atingir esse objetivo.

Dessa vez, o roteirista e diretor Tobias Lindholm (do brilhante A Caça) divide o filme em duas partes para seguir um grupo de soldados na zona guerra, as dificuldades da família de um deles e as consequências da volta para casa com o objetivo de fazer um estudo sobre a importância das suas decisões, principalmente quando essas são tomadas sob grande pressão.

O primeiro ato é basicamente focado na apresentação dos personagens durante as ações de guerra, as relações familiares mais próximas e, logicamente, momentos onde uma decisão pode levar a outra decisão mais importante, gerando quase que uma bola de neve que acaba prejudicando os julgamentos de qualquer um. Nessa parte, Tobias consegue conduzir tudo muito bem com destaque para o posicionamento da câmera como um dos soldados durante as cenas militares, mas tanto a história quanto a direção não fogem dos clichês que já foram utilizados tantas vezes em filmes mais famosos, como Guerra ao Terror e Sniper Americano.

Entretanto, a metade da projeção apresenta uma reviravolta, baseada na decisão do protagonista, que transforma Krigen em um filme de tribunal que lida com um daqueles dilemas digno das aulas de Filosofia. O cenário traz à tona todas as pressões apresentadas em um momento de vida ou morte, a velha e justa desculpa de que só quem passou por aquilo por entender e outras questões que envolvem moral, ética e responsabilidade dentro da sua família. Apesar da direção não fugir do básico, o roteiro de Lindholm consegue passar todas essas variáveis de forma competente, mas chega muito perto de dar um passo em falso quando entrega uma única solução para um problema que possui várias interpretações possíveis e aceitáveis.

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Mesmo assim, essa é uma parte importante da conclusão, simplesmente porque possibilita que o diretor trabalhe com o seu verdadeiro alvo: as consequências dessas mesmas decisões dentro da consciência dos envolvidos. É justamente nesses últimos minutos que o ótimo Pilou Asbaek, um ator dinamarquês em ascensão, conclui seu trabalho com a perfeição e mostra, em pequenos gestos e olhares, que a maior consequência de uma decisão é ter que conviver com ela.

No fim, Kriegen acaba abusando de clichês já estabelecidos no gênero e Lindholm não consegue alcançar um resultado tão brilhante quanto em seus filmes anteriores, mas ainda consegue apresentar uma visão diferente para a guerra, fazer uma leitura social forte e comprovar que, no final, quem decide a moral da guerra é a consciência do soldado.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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