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Filmes

Crítica: A Voz do Silêncio – São Paulo e a solidão

André Ristum faz de São Paulo um mar de tristeza

23 de novembro de 2018 - 15:29 - Tiago Soares

Muitos filmes brasileiros usam São Paulo como seu cartão postal, a maioria deles de maneira superficial ou apenas se utilizando da cidade como lugar em que se passa a história, não fazendo dela um personagem e é aí que o filme de André Ristum (O Outro Lado do Paraíso) se diferencia. A Voz do Silêncio conta a história de sete pessoas que trabalham, estudam, namoram, dançam,choram, enfim, vivem na cidade de São Paulo.

E a única coisa que as liga, além de possuírem alguns laços familiares, são os desafios diários e a solidão. É como se a capital paulistana fosse engoli-los, e Ristum faz um trabalho diferenciado ao unir uma fantástica trilha sonora que mistura música clássica com o som ensurdecedor das boates do centro. A Maria Claudia de Marieta Severo encabeça um elenco maravilhoso, vivendo Maria Claudia, uma mulher que vive isolada em sua casa tendo apenas a TV e algumas cervejas como companhia. Maria é mãe de Raquel (Stephnaie de Jongh) uma dançarina de boate que deseja ser cantora e Alex (Arlindo Lopes), um operador de telemarketing frustrado e solitário.

O argentino Ricardo Merkin vive um incrível radialista que tem seus dias de vida contados, e não vê o neto e a filha, personagem de Marina Glezer, uma mãe solteira batalhadora, há um longo tempo. Completando as histórias estão o advogado repulsivo vivido por Marat DescartesCláudio Jaborandy interpretando a figura que vem de outro estado e abraça as oportunidades que a cidade oferece, sendo o mais identificável e portanto fácil de se “enxergar” nele.

Apesar de tramas mais interessantes que outras, Ristum consegue trazer fluidez a sua obra. Vencedor do prêmio de direção (Ristum) e montagem (Gustavo Giani) no festival de Gramado, além de co-produzido com a Argentina, o roteiro que tem a colaboração de Marco Dutra consegue fazer com que tudo se interligue da forma mais natural possível. Não há um início, meio ou fim na vida dos personagens, começamos a acompanha-los num dia qualquer de suas vidas e os deixamos na mesma, com poucas mudanças, já que a vida é quase assim, imutável.

Ao fim, um grande eclipse, conhecido como Lua de Sangue, parece ligar mais ainda todos estes personagens, que apesar de separados, se unem pelas dificuldades e pelo caos que tem em comum. O ritmo lento pode afastar alguns espectadores, já que todas a histórias demoram a engrenar e são intercaladas pelo trânsito recheado de buzinas, uma das maiores características da metrópole. Ao som de “Não Existe Amor em SP“, Ristum ressalta as dificuldades de se viver num emaranhado de prédios cinzas cercados pela intragável e intrépida solidão.