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A Vida Invisível é um melodrama sobre como as mulheres avançaram e os homens continuaram os mesmos

 

Relações de cumplicidade entre mulheres – e, principalmente, irmãs – foram retratadas diversas vezes no cinema. Mas trazê-las com a beleza ímpar no Brasil dos anos 50 é algo que só Karim Aïnouz foi capaz de fazer. Baseado no livro da escritora pernambucana Martha Batalha, “A Vida Invisível” conta a história de duas irmãs dependentes uma da outra: Eurídice, com 18, e Guida, com 20 anos. Unha e carne, elas não se desgrudam, escondem segredos e apesar de serem opostas em quase tudo, são inseparáveis.

Eurídice é mais tímida e sonha em se tornar uma pianista de sucesso, enquanto Guida só quer viver um amor sem medo. Ambas vivem em um lar de pai e mãe portugueses, sob domínio patriarcal, e são separadas pelo destino e pela vida. Sendo assim, acompanhamos a vida das duas separadamente e todos os seus dramas diários, movidas pelo desejo de se verem novamente. E a química entre elas é palpável. Carol Duarte e Julia Stockler fazem um trabalho magnífico em tela. São duas mulheres que começam inocentes, mas precisam amadurecer antes de todos os homens a sua volta.

 

 

Guida é logo desiludida pela vida, enquanto Eurídice casa com Antenor (Gregório Duvivier), sem saber nada, sem nunca ter visto um homem nu antes. Os diálogos naturais do texto de Murilo Hauser, co-escrito por Aïnouz e Inés Bortagaray, ajudam a contextualizar aquele universo. É o Rio de Janeiro da década de 50, mas é como se fosse outro mundo, dado o cuidado da direção de arte e da direção geral de Karim, cercada de planos longos e cenas de sexo desconfortantes. Proposital ou não, o cineasta causa tensão no espectador, que teme o que vá acontecer aquelas meninas, se tornando mulheres diante dos nossos olhos.

Em dado momento Eurídice diz que quando toca, desaparece. É uma forma de chegar mais perto da irmã. Tendo os sonhos frustrados por uma sociedade machista, o filme a todo momento faz com que olhemos para nós mesmos. É absurdo, mas é verdadeiro. Quantas coisas fazemos porque gostamos ou queremos, e tantas outras pelo simples fato de apenas seguir a manada? Karim normaliza o lado sexual dessas mulheres e não romantiza as cenas sexuais, sexistas em sua maioria. Cru, a identificação é imediata, mediante a sororidade que Filomena (Bárbara Santos) tem por Guida e a confidente Zélia (Maria Manoella), tem por Eurídice, parceiras na melancolia.

 

a vida invisivel

 

Cruel e bonito na mesma medida, “A Vida Invisível”, representante do Brasil no Oscar 2020 e vencedor da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2019, é definida pelo diretor como um melodrama. Ressalta a importância de nossas novelas e folhetins, cada vez mais tidas como algo de gosto duvidoso, ou abaixo dos altos padrões. No entanto, mesmo com essa alcunha não se engane: a produção nunca cai no piegas, na breguice ou na intenção de fazer chorar, mas faz isso com verdade, uma verdade dolorosa. Mise en scène, trilha sonora, figurino e fotografia unidos para contar a história dessas duas mulheres fortes e viscerais como o tempo.


Obs 1: Fernanda Montenegro é a cereja do bolo. A força da natureza tocante que vai além da participação especial e merece um tópico só para ela.

Obs 2: O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 21 de novembro de 2019.


 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo

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A Vida Invisível

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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