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Critica: A Teoria de Tudo

31 de janeiro de 2015 - 19:05 - Flávio Pizzol

A-TEORIA-DE-TUDO-

Tá aí um filme que tem a cara do Oscar. Não deve ser o grande vencedor desse ano, mas é o tipo de história que os votantes gostam, considerando o fato de ser a cinebiografia de uma grande personalidade e um filme de superação ao mesmo tempo. Se você não entendeu porque a história de Stephen Hawking é tão forte e merecedora de atenção, reserve duas horas do seu dia e assista a A Teoria de Tudo.

Como o próprio nome do filme já deixa claro, o filme conta a história de Stephen Hawking, mas o faz através de sua relação com Jane, sua primeira mulher. Abordando acontecimentos pontuais, o filme segue o cientista desde o começo do seu doutorado até seu encontro com a rainha da Inglaterra (não sei qual era naquela época), sempre acompanhado de sua história com Jane, que escreveu o livro no qual o filme se baseia.

É certo afirmar que não seria possível ver toda a vida de uma pessoa como Stephen Hawking, então, de certa maneira, a decisão de focar em um ponto de vista é justa e certeira. Acredito que muitas pessoas gostariam de ver um filme que trouxesse mais do lado científico de Hawking, mas temos que entender que é muito menos arriscado – na visão dos produtores – produzir e vender um filme de superação e romance do que uma obra prioritariamente científica.

A ciência está ali desde o início do filme, mas, como a história é contada do ponto de vista de Jane, ela vai aparecendo cada vez menos. Até porque é um fato que, mesmo sendo extremamente inteligente, ela teve muito mais contato com o lado humano e com o sofrimento de Stephen, então esse é um desenvolvimento que faz sentido e deixa o filme mais enxuto. No entanto, esse foco muito intenso no romance e na relação dos dois também tem seu lado prejudicial.

Em primeiro lugar, temos que voltar a ciência, porque ela dá uma certa dinamicidade ao filme. A história de Stephen e Jane é bonita e merece ser contada, mas tem alguns momentos um tanto quanto desinteressantes. O que quero dizer é que a primeira metade do filme, que balanceia a ciência e a relação deles, se desenvolve de maneira muito mais rápida do que a outra parte, que tem momentos muito arrastados.

Em segundo lugar, esse foco tira o espaço de algumas coisas interessantes e deixa muita coisa apenas nas entrelinhas. Por exemplo, enquanto a doença tem um desenvolvimento cuidadoso e emocionante, o filme deixa completamente de fora toda a importância que Stephen teve na continuidade das pesquisas e na conscientização acerca do ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). Também só passa de maneira bem rasa por uma discussão entre religião e ciência, que ganha algum foco ali bem no final, mas acaba soando meio aleatório por não ter sido aprofundada.

O roteiro também peca um pouco no cuidado com os seus coadjuvantes. São personagens que vão ter alguma influência no último ato, mas que passam despercebidos pelo filme, como Brian e o Professor Sciama. De resto, o filme se desenrola de maneira tranquila e até bem didática, dosando bem o romance, o drama de superação e até o humor, já que o próprio Hawking tem um senso de humor bem interessante.

O diretor James Marsh conduz muito bem o desenvolvimento, misturando jogos de câmera, pontos de vista e um lado um pouco mais documental, que é a área onde ele tem maior experiência. Ao lado de uma ótima trilha sonora e de uma fotografia que brinca constantemente com a paleta de cores, ele consegue criar imagens lindíssimas e emocionar sem fazer muito esforço. Não é aquele filme que te faz chorar rios, mas a história em si é muito forte e o diretor não precisa fazer muito para que ela toque o público.

Ainda acho que, assim como o roteiro de Anthony McCarten, ele poderia se arriscar mais em alguns momentos. Um bom exemplo seria a cena onde ele contrapõe as ações de Jane no acampamento e de Stephen na apresentação da orquestra de Bordeaux. Uma cena muito bonita e cruel no seu desenvolvimento e na sua consequência. A questão é que ele corta ela um pouco mais cedo e deixa uma situação em aberto quando não deveria. Acho que esse é o tipo de risco que daria contornos mais complexos à história sem atrapalhar em nada. Na verdade, deixar isso pra imaginação do público é até mais cruel com os personagens.

Por outro lado, vejo que Marsh arriscou um pouco na escolha de um elenco desconhecido de grande parte público. E esse aqui é o ponto onde ele acertou em cheio, porque, se o roteiro dá qualquer escorregadinha no seu decorrer, os atores seguram o filme de maneira sublime.

Eddie Redmayne, que se tornou conhecido há pouco tempo em Os Miseráveis, faz um dos trabalhos de composição mais brilhantes dos últimos tempos, chegando ao ponto de impressionar o próprio Hawking. Ele faz uma representação física e mental perfeita desde de antes da doença, mas é com o desenvolvimento dela que tudo fica mais complicado e surpreendente. Em um trabalho que inclui mente, corpo e voz, Eddie passa toda a angústia, sofrimento, amor e humor de Hawking em poucos movimentos.

Na minha opinião, esse é o único trabalho de composição de personagem (entre os que eu já assisti, claro) que supera o trabalho feito por Jake Gyllenhaal em O Abutre. Jake sequer foi indicado ao Oscar, então minha torcida vai toda para Eddie Redmayne. Ele ganhou o SAG e tem grandes chances de bater Michael Keaton, que é o outro favorito ao prêmio.

Sua parceira de cena também não deixar por menos, mesmo tendo um papel mais fácil. Não estou dizendo que Felicity Jones faz um trabalho ruim, mas é lógico que ela não tem nenhuma dificuldade com o trabalho físico, como Redmayne. No entanto, a composição mental de Jane é forte e complexa. Felicity interpreta de maneira certeira toda a coragem, amor e outros sentimentos conflitantes vividos por Jane durante sua vida ao lado de Hawking.

Como disse, o roteiro não tem tanto cuidado com os coadjuvantes, então eles acabam ficando quase sempre à sombra de Eddie e Felicity. Ainda assim, posso assinalar as boas atuações de David Thewlis (Sciama), Harry Lloyd (Brian) e Charlie Cox (Jonathan aqui e o Demolidor na série da Netflix), mesmo sem ter muitos espaço ou cenas tão fortes.

No fim das contas, A Teoria de Tudo tem muito mais acertos do que erros e consegue adaptar de maneira interessante a história de um dos maiores gênios e vencedores da nossa geração. Ainda apoio a ideia de termos outro filme que conte a trajetória sob outro ponto de vista, mas não posso tirar o mérito da história extremamente corajosa e emocionante de Jane e Stephen. É uma história que merecia chegar aos cinemas dessa maneira e que precisa ser conhecida pelo público.