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Filmes

Crítica: A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata

Finalmente, um acerto indiscutível da Netflix...

25 de agosto de 2018 - 10:59 - Flávio Pizzol

Já cansei de dizer por aqui que a Netflix tem investido cada vez mais em produções originais de diversos formatos, tipo, estilos e gêneros, porém não posso fugir disso logo agora que começamos a discutir sobre a queda de qualidade desse modelo de negócio. E digo isso porque, enquanto alguns gostam de falar sobre as séries ruins que a gigante do streaming lança toda semana, eu sempre bati na tecla de como os filmes erram com mais frequência. Existem sim algumas boas produções que sabem mirar no público certo (como foi o caso de Para Todos os Garotos que Já Amei), mas ouso dizer que A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata é o maior acerto do estúdio desde sua estréia no formato com o incrível Beasts of No Nation. Finalmente…

Baseado no livro escrito por Mary Ann ShafferAnnie Barrows, o longa de nome gigantesco acompanha uma jovem escritora que viaja para uma pequena ilha no Canal da Mancha com o objetivo de conhecer o estranho clube do livro que dá nome à produção. Sua ideia era escrever sobre eles para um jornal londrino, mas as descobertas de novas amizades, pontos de vista diferentes sobre a guerra e uma paixão inesperada (é óbvio…) fazem com que ela reflita sobre sua vida, colocando carreira e casamento em outras perspectivas.

Sim, eu sei que você já leu essa sinopse identificando vários clichês do romances vitorianos, mas A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata possui um texto mais moderno que, como toda boa obra inspirada em Jane Austen e companhia, sabe misturar esses casos de amor épicos com outras temáticas mais profundas e complexas. Aqui, por mais que as aparências enganem, temos um filme que usa seu primeiro plano para apresentar uma crônica verdadeira, tocante e diferente sobre a Segunda Guerra Mundial. Uma trama que, para a alegria desse amante de história, usa relatos, flashbacks pontuais e consequências para apresentar pessoas simples que realmente conviveram, lado a lado, com os alemães no lugar dos políticos, nobres ingleses ou soldados enviados para a morte que geralmente roubam a cena no gênero.

Em outro plano, um pouquinho mais abstrato, o filme mostra como a literatura pode ser inspiradora, libertadora e muitos outros adjetivos do tipo tanto para quem escreve, quanto para quem lê. É encantador ver a paixão pelos livros nos olhos daqueles personagens que usaram as palavras de outra pessoa como refúgio para términos de relacionamentos, perdas de familiares e, principalmente no caso deste filme, ocupações nazistas. Por mais que o destino faça seu papel na criação do clube ou no contato entre certos personagens, é a paixão por essa arte que motivam e reúnem cada um deles. E, mesmo que eu pareça estar exagerando, isso realmente pode mexer com alguém que escreve constantemente, sabe?

Mas calma: não é porque eu coloquei esses dois aspectos em primeiro lugar que eu vou ignorar ou falar mal do lado romântico que fica extremamente claro desde os primeiros minutos da narrativa. Pelo contrário, vou te dizer que o romance é sim uma peça-chave aqui e boa parte de A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata perderia a força se os temidos pares românticos não conquistassem o espectador com tanta facilidade. Algo que acontece graças ao roteiro consciente, a revelação bem planejada do passado e aos ótimos personagens que cercam a história. A maioria absoluta é bastante completa, escancara sua carga dramática no olhar e permite que a credibilidade nascida daí faça o público acreditar na amizade ou na paixão existente entre eles. É só observar, por exemplo, como o casal protagonista ganha a torcida do espectador sem precisar trocar um beijo sequer antes do terceiro ato.

A direção simples – porém arrojada e extremamente cativante – de Mike Newell (Harry Potter e o Cálice de Fogo) também é muito importante no funcionamento de todos os esses aspectos. Ele controla muito bem o ritmo de uma produção que poderia ser facilmente consumida pelo marasmo excessivo, faz uma recriação história rica em detalhes, aproveita as belíssimas paisagens da costa inglesa através das lentes bem posicionadas de Zac Nicholson (A Morte de Stalin) e, no meio de tudo, usa os movimentos de câmera para capturar com perfeição o contraste entre a velocidade de um Londres pronta pra recuperar o tempo perdido e a calmaria deu uma ilha isolada em reconstrução. As cenas de guerra obviamente ficam de fora desse jogo, mas encontram seu lugar em outros tópicos já citados, partindo de uma compreensão interessante da tensão e da dor que cercava os envolvidos.

Além de tudo isso, o elenco capricha no transposição desses homens e mulheres tão fortes, mesmo sendo composto por poucos rostos conhecidos. Lily James (Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo) é o nome mais famoso entre os protagonistas e não é à toa que ela fica com a responsabilidade de guiar o público por esses mundos quase opostos. E acredite quando eu digo que ela faz isso com perfeição, enquanto entrega uma personagem feminina forte, determinada e com tantos traumas quanto qualquer soldado. Eu até acho que esses dramas mereciam um pouquinho mais de espaço antes de ceder seu lugar para doses de carisma e encanto que deixam qualquer um apaixonado, mas é o suficiente para compor alguém que faz o espectador torcer por ela desde os primeiros minutos.

E, apesar do destaque relativamente menor, os coadjuvantes de A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata também seguem esse padrão de interpretações críveis, fortes, cativantes e muito certeiras dentro de sua importância narrativa. Matthew Goode (Watchmen), por exemplo, usa seu rosto bastante conhecido pra ser pouco mais do que um ombro-amigo que faz bico como alívio cômico, mas cumpre seu dever com muita competência. Já Michiel Huisman (Game of Thrones), Tom Courtenay (45 Anos), Penelope Wilton (O Bom Gigante Amigo), Jessica Brown Findlay (Um Conto do Destino), Katherine Parkinson (The IT Crowd) e Glen Powell (Castelo de Areia) fazem uso de sua maior quantidade de cenas com bastante talento, roubando os holofotes para si mais de uma vez durante a projeção. Pra se ter noção de como todos funcionam, até mesmo o garotinho interpretado por Kit Connor (Jogador Nº 1) ganha sua cena de destaque na ótima sequência de despedida das crianças.

O resultado da reunião de todos esses pontos positivos, logicamente, não poderia ser classificado como outra coisa além de uma experiência cinematográfica quase perfeita. É verdade que A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata não é um longa complexo ou revolucionário, mas sabe fazer com que todas as peças se encaixem para revelar uma imagem muito bonita, bem produzida e recheada por mensagens e histórias belíssimas. E isso, definitivamente, é mais do que o bastante para oferecer duas horas de prazer e reflexão, conquistar o público e mostrar que a Netflix pode acertar quando o assunto é filme…


OBS 1: Sim, eu tenho um crush pela Lily James… Hahahaha

OBS 2: Só acho que a única coisa que faltou foi usar o policial que faz vista grossa pra completar a vida da Isola com um romance…