AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Noite do Jogo

Prontos para jogar?

12 de Maio de 2018 - 13:01 - Flávio Pizzol

Pense na frase a seguir: “um grupo de amigos se reúne para uma simples noite de jogos, mas a situação sai do controle quando perigos reais surgem em cena”. Agora inclua alguma lavação de roupa suja causada por mágoas do assado, decida se quer brincar animais selvagens, substitua as amizades por alguém da família em certos casos e pronto. Temos uma sinopse genérica que poderia se encaixar perfeitamente com diversos filmes renomados. A Noite do Jogo se aproveita dessa mesma proposta, mas encontra seu diferencial – acertadamente – na química do elenco e na bizarrice das situações que preenchem a história.

Por mais que a história do filme seja de fato preenchida por inúmeras camadas que extrapolam a sinopse e os acertos citados acima, o roteiro de Mark Perez (Aprovados) faz questão de esclarecer, desde as primeiras cenas, que os envolvidos sabiam exatamente no que estavam se metendo. A principal prova disso está na maneira como o texto não fica muito tempo preso na apresentação de personagens ou possíveis subtramas. O longa estabelece características, personalidades e funções narrativas de cada um com uma agilidade muito positiva, colocando assim apenas as peças obrigatórias no tabuleiro e avançando direto para o que interessa: o desenvolvimento da narrativa em si.

Apesar de não ser um nome experiente, Perez demonstra ter habilidade na hora de amarrar pistas deixadas elo caminho com as devidas conclusões, criar personagens que funcionam tanto isolados quanto em grupo, adicionar camadas temáticas que falam sobre amizade família e competitividade sem destoar do tom principal, misturar tipos de humor distintos, sugerir cenários cada vez mais absurdos e construir reviravoltas que, se pecam pela quantidade exagerada com que surgem nos últimos minutos, acertam em cheio na qualidade. No entanto, ao contrário do que seria esperado em uma comédia desse tipo, o roteiro parece sumir propositalmente para dar lugar ao talento dos diretores e do ótimo elenco. Acertadamente, eles assumem o “fardo” de prender a atenção espectador, enquanto o roteiro dita as regras e funciona como uma perfeita base de sustentação – literalmente um tabuleiro – para os movimentos das câmeras e dos personagens.

Os primeiros – representados pela dupla John Francis DaleyJonathan Goldstein (Férias Frustradas) – não fogem do comum na maior parte do temo de projeção, porém destacam-se em alguns momentos que exigem uma pitada a mais de timing cômico, agilidade e tensão (a mudança de tons e a mistura de gêneros é decisiva aqui). Em outras palavras, eles brilham justamente quando o longa tinha tudo pra ficar perdido em meio a policiais, sequestradores, mafiosos e planos mirabolantes, contando ainda com a ajuda expressiva da fotografia de Barry Peterson (Anjos da Lei) na criação de soluções visuais que podem ser consideradas inventivas dentro desse contexto. Eu gosto, particularmente, das transições que transformam a cidade em maquete, de toda a sequência que envolve as tentativas de retirar uma bala e de uma perseguição de carro onde as câmeras simplesmente flutuam.

Ao mesmo tempo, o elenco esbanja criatividade e química desde os primeiros minutos em cena, aproveitando cada gancho para piadas com precisão, emendando sacadas que parecem ser totalmente internas e se completando de maneira genuína. Claro que a compartimentalização do grupo em casais ajuda no desenvolvimento dos relacionamentos ao passo em que abre espaço para todos terem seu momento de destaque, mas o que o elenco faz é muito maior do que isso. Só pra exemplificar, eu desafio qualquer pessoa a sair do cinema sem ter sido conquistada imediatamente pelo casal cheio de manias interpretado por Jason Bateman (Quero Matar meu Chefe) e Rachel McAdams (Questão de Tempo).

O fato das estrelas do show acertarem em um aspecto tão primordial pra história com tamanha facilidade obriga o público a torcer por eles, permite que a maioria esmagadora das piadas ou situações que os envolvam funcionem perfeitamente e até abre espaço para a revelação de outros talentos. Rachel acaba se mostrando uma comediante impecável, enquanto o holofotes transitam entre o humor físico e observacional de Bateman, a falsa seriedade de Kyle Chandler (Manchester À Beira-Mar), a idiotice de Billy Magnussen (A Grande Aposta), a inteligência nata de Sharon Horgan (BoJack Horseman), as discussões amorosas de Lamorne Morris (New Girl) e Kylie Bunbury (Under the Dome), e a excentricidade – pra dizer o minimo – de Jesse Plemons (Breaking Bad). Esse último, inclusive, é um daqueles personagens inesperados e brilhantes que merecem outro filme só pra explorar todas suas camadas…

O resultado, como já deu pra imaginar, é uma comédia extremamente ágil, divertida e bizarra que, além de tudo, consegue manter algum suspense na projeção e surpreender com os caminhos escolhidos no terceiro ato. O final acaba, infelizmente, se perdendo na quantidade de reviravoltas por minuto quadrado e ficando alguns poucos minutos mais longa do que deveria, mas a experiência permanece muito valiosa. A Noite do Jogo é um daqueles filmes exagerados e absurdos onde o besteirol, as piadas inteligentes, a direção inventiva e um elenco talentoso se encontram sem trocar nenhuma farpa.


OBS 1: John Francis Daley e Jonathan Goldstein estão confirmados – por enquanto – como roteiristas e diretores do próximo filme do Flash. Se eles tiverem a liberdade para repetir o trabalho daqui, eu começo a botar alguma fé na produção.