AODISSEIA
Filmes

A Mula é um retrato de despedida de Clint Eastwood

Clint se despede das atuações com um senhor que sabe bem o que faz mas tenta corrigir suas falhas pelas vias erradas


5 de março de 2019 - 14:07 - felipehoffmann

Jonny Cash diz em Hurt que “sob as manchas do tempo todos os sentimentos desaparecem”. Conviver com a idade é tarefa árdua e constante. Se ao longo dos anos, os sentimentos vão embora, talvez Clint Eastwood (Três Homens em Conflito) tenha feito uma de suas obras mais pessoais e sinceras, apesar da história central.

A Mula, seu mais recente trabalho, abraça o tempo e joga os dilemas de um senhor dentro de um road movie existencial. Earl Stone cultiva seus lírios e a eles dedica toda sua atenção. Algo que não transcende na mesma medida com sua família e isso abre debate para um tema cotidiano. Se eu vivo para meu trabalho, quando que vou correr atrás da vida com minha família?

Clint, que também dirige e produz A Mula, vive um senhor que precisa se readaptar ao mundo contemporâneo, vendo a decadência de seu negócio graças à internet. Baseado na história real de “Tata” a Mula mais velha do mundo, Earl Stone decide entrar para o cartel de drogas da região, negociando viagens com traficantes. Quem vai desconfiar de um idoso branco americano com cara de simpático mas com privilégios e ideias antiquadas?

 

 

O filme sabe muito bem disso e explora da situação. Quando um policial aborda dois mexicanos julgando-os suspeitos, é Earl que livra os caras da prisão, usando seu status quo para persuadir o policial e seguir sua viagem com centenas de quilos de drogas. Passear por piadas racistas e homofóbicas são refusas do próprio Eastwood em aceitar a evolução social e, talvez ai, seu time cômico, que não é lá essas coisas, tenha ficado em evidência. É intrínseco entender que a velha moral não se sustenta mais dentro de um manto ideológico mas essa é realidade americana, onde negros, latinos e minorias não se encaixam dentro de um padrão democrático sustentado por brancos e por isso lutam pelo seu espaço.

O interessante de A mula é entender o limiar que há entre a bondade do protagonista, sua má índole e omissão familiar. A escolha que Earl faz dentro da marginalidade foi pelas circunstâncias de adaptar ao mundo moderno e o filme trabalha muito bem essa honestidade. Com um roteiro simples e redondo (Sam Dolnick e Nick Schenk) a história parte de um ponto e termina em outro, tudo com muita previsibilidade, mas dentro da calma e segurança que só um senhor de 90 anos possui.

 

 

Clint é um diretor clássico dentro do cinema contemporâneo. O ritmo do longa é gostoso e as viagens regradas com boa música dão uma dinâmica clássica de road movie. E esse é o grande feito de A Mula. Saber conduzir sua própria história dentro das limitações de um idoso. Cada linha do roteiro tem sua justificativa e cada escolha de “Tata”, por mais errônea que seja, é plausível dentro daquele contexto.

Em suas derradeiras cenas o filme pode dar um nó na garganta com sua resolução emocional. A complexidade da idade abre a cabeça pros rumos da sua própria vida. Amar alguém e ser omisso, trabalhar demais e não viver ao lado da família, esquecendo o dia a dia e suas conquistas. Quando a conta chega, pode ser tarde demais para pagá-la. O que A Mula nos mostra é que, independente de suas escolhas, dos seus privilégios e sua posição social, se abster do contato familiar pode causar danos emocionais difíceis de curar.

Clint Eastwood se despede das atuações dando um recado pra ele mesmo. Se afirmar como culpado é entender que sua vida foi recheada de escolhas e ideias erradas, mas também vários acertos. Guardado no canto de suas rugas, os sentimentos sempre estarão presentes com lembrança de uma jornada recheada de memórias, por mais que o tempo passe e uma música nos diga o contrário.