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Séries

Crítica: A Maldição da Residência Hill – Um estudo sobre traumas, medo e luto

Nova série de terror da Netflix valoriza o vigor estético e apego aos personagens e história.

27 de outubro de 2018 - 16:14 - Tiago Soares

Contar a história de uma casa mal assombrada e uma família recém-chegada morando nela, já é um tema batido nos filmes de terror. Ao mesmo tempo em que falar sobre a influência de traumas da infância na vida adulta de seus personagens é algo que Stephen King já estabeleceu de maneira profunda em IT: A Coisa e mais recentemente em Castle Rock.

Usar de clichês é um caminho sem volta, principalmente se tratando de um gênero tão desgastando como o terror  e inovar neste segmento tem sido tarefa difícil. Mike Flanagan tenta mudar o estigma contando a história da família Crain, que mora na antiga residência dos Hill. Brincando com o tempo — o diretor e criador da série, intercala passado e presente — refletindo os traumas que a família teve após sua breve passagem pela mansão.

Flanagan tem altos e baixos em sua carreira. Se brilhou em Hush e Jogo Perigoso (filmes originais da Netflix), vacilou em Ouija: Origem do Mal e Sono da Morte. Parece que a qualidade do diretor está atrelada ao serviço de streaming e aqui não é diferente. Tendo controle total sobre sua obra, nos faz torcer pela família Crain e todo seu drama familiar.

O diretor não tem pressa e os comentários iniciais são de que a série é muito lenta. O que acontece de fato é o desenvolvimento dos personagens. São 5 irmãos e dos 10 episódios da temporada, Flanagan dedica pelo menos 50 minutos a cada um deles, ao mesmo tempo em que desenvolve os pais e os outros irmãos. Até quando a história engata de fato, eles estão sendo desenvolvidos.

Além do dramalhão familiar, o terror está presente na figura dos fantasmas — que quer estejam escondidos ou não — assustam. Tudo graças ao vigor estético detalhista e espetacular de Mike Flanagan. Uma fotografia lavada com tons de azul e amarelo, uma decupagem excelente e uma montagem orgânica fazem de A Maldição da Residência Hill uma das séries mais bonitas e interessantes dos últimos tempos.

É claro que sem o roteiro e as pessoas fabulosas por trás dele (Shirley Jackson, Meredith Averill e mais alguns), não haveria o desenho dos personagens, seus respectivos carismas e riqueza de detalhes. Suas partes adultas e suas contrapartes infantis igualmente talentosas, roubam a cena. O patriarca Hugh (Henry Thomas/Timothy Hutton) tenta manter a sanidade da família e da esposa Olivia (a maravilhosa Carla Gugino).

O irmão mais velho Steven (Michiel Huisman/Paxton Singleton) é o cético, Shirley (Elizabeth Reaser e a já carimbada no terror Lulu Wilson), é o coração dos irmãos. Theodora (Kate Siegel de Hush e a talentosa Mckenna Grace) é a razão misturada com o misticismo e o episódio focado nela é um dos melhores da produção, ficando atrás apenas dos de Luke (Oliver Jackson-Cohen/Julian Hilliard) e Neil (Victoria Pedretti/Violet McGraw), com o famoso episódio “explode cabeças”.

Falando em episódio, todo o trabalho fantástico de direção, iluminação e edição é exemplificado no excelente episódio 6, sem dúvida uma das melhores coisas já vistas em séries do gênero. Com dois longuíssimos planos sequência, cercados de viradas de câmera assombrosas e trilha sonora formada apenas pelo silêncio incômodo e pela tempestade, Mike Flanagan dá aquela famosa carteirada.

Agarrando-se em esteriótipos do gênero ao mesmo tempo em que foge de outros (dificilmente você verá jumpscares na série por exemplo), A Maldição da Residência Hill mostra que um bom trabalho pode ser realizado, mesmo com uma história contada várias vezes antes. O final — que pra muitos pode ser “feliz” para os padrões da série — acaba se tornando um alívio para uma história repleta de tragédias, escondidas nos cômodos mais remotos e num quarto vermelho.