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A Lenda de Tarzan não é um desastre total, mas também não chega aos pés de como uma verdadeira lenda merece ser apresentada


Seguindo com toda a onda de remakes, continuações e readaptações de histórias clássicas que tomou conta de Hollywood, chegou a hora da fantástica história de Edgar Rice Burroughs voltar para as telonas com nova roupagem em A Lenda de Tarzan. Uma história completamente inédita que não parecia ter muito respeito com material original nos trailers, deixando muita gente com pé atrás. O resultado não é um desastre total, mas também não chega aos pés de como uma verdadeira lenda merece ser apresentada.

O longa começa com John Clayton vivendo com um importante lorde inglês no final do século XIX, enquanto o terceiro mundo sofria as consequências do imperialismo europeu. A partir desse contexto, o herói é convidado pelo rei da Bélgica para conhecer todo o trabalho realizado no Congo (sua terra natal) para evitar a escravidão dos nativos. Ele aceita, mas acaba descobrindo que existe questões muito mais pessoais e perigosas por trás dessa viagem. Aí, logicamente, ele precisa voltar a ser o Tarzan e temos nosso filme.

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O roteiro, escrito por Adam Cozad (Operação Sombra – Jack Ryan) e Craig Brewer (do remake de Footloose), parte de uma premissa relativamente interessante, se aproveitando de acontecimentos e personagens reais para criar uma base para a sua história. Por mais que me incomode de modo particular como fã, a forma como John e Jane vivem na Inglaterra é crível, assim como os sentimentos relacionados ao retorno à África. É um drama genuíno de alguém que gostaria de voltar, mas acredita ser necessário permanecer na Europa pelo bem das outras pessoas.

O ator sueco Alexander Skarsgård consegue utilizar isso como ponto alto de sua atuação, apresentando o sofrimento do personagem no início e transformando tudo em felicidade quando pode libertar toda a selvageria reprimida. Uma temática que poderia ter sido mais utilizada no decorrer da história, para que não ficasse contido apenas aos olhares e mudanças de postura adotadas pelo protagonista nos dois ambientes.

Da mesma forma, o filme nutre algumas ideias muito boas em relação as mudanças físicas do menino que vivia na selva, seu amor verdadeiro pelos animais e sua relação de desertor com os gorilas, mas acaba abandonando tudo depois de algumas cenas com o objetivo de dar mais espaço para os flashbacks e a suposta trama principal. As boas sacadas apenas orbitam um centro que não chega nem perto de ser tão interessante, graças ao desenvolvimento manco do roteiro.

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O motivo provavelmente a necessidade de criar algo muito grandioso e fantasioso para justificar a própria existência de A Lenda de Tarzan. No final das contas, A Lenda de Tarzan poderia ter sido facilmente vendido como uma história de super-heróis ou um buddy cops movies. Algumas coisas até funcionam dentro desse tratamento, como a relação entre Tarzan e George Washington Williams, interpretado de forma leve por Samuel L. Jackson, mas as consequências acabam sendo o desenvolvimento miserável dos vilões e o pouco espaço dado para Jane (Margot Robbie acertando ao fugir do estereótipo da donzela em perigo).

Inclusive, os vilões são um problema à parte que atrapalha muito o roteiro de Cozad e Brewer. Eles dividem esse cargo entre Leon Rom (Christoph Waltz) fazendo sua típica e caricata imitação de Hans Landa) e Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), mas nenhum dos dois personagens são bem desenvolvidos ou possuem uma liderança bem resolvida. Mesmo com todas as aparências gritando que Leon é o grande vilão, ele parece abrir mão desse papel apenas para que o chefe africano apareça por dez minutos, crie uma grande cena de ação e resolva todos seus dilemas com o protagonista depois de duas frases extremamente bregas.

O outro grande problema de A lenda de Tarzan pode ser colocado na conta da direção e da parte técnica. Responsável por alguns giros exagerados em cenas de diálogo, o diretor dos últimos filmes da saga Harry Potter, David Yates, faz um trabalho decente ao aproveitar a ótima cinematografia para criar cenas de ação divertidas e super estilizadas, mas acaba escorregando feio na utilização dos efeitos especiais e na criação dos animais, que só funcionam efetivamente quando são filmados em close.

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E para piorar, todos esses problemas ficam claros como o dia justamente em um clímax que ultrapassa os limites da fantasia. Tudo bem que a própria Jane avisa que seu marido não é um homem comum, mas é impossível comprar tudo o que acontece naquela cena, principalmente quando a invasão dos bisões na cidade é apresentada de forma extremamente mal finalizada e mal resolvida visualmente. Não dá pra comprar que aquilo pode acontecer nesse universo, porque os efeitos porcos de A Lenda de Tarzan tiram essa opção do público e isso obviamente é um problema grave.

Dentro dessa lógica, não podemos dizer que A Lenda de Tarzan é um filme ruim, no entanto também não podemos dizer que ele merece ser visto. O filme possui sim boas ideias escondidas dentro da premissa e cumpre seu papel como um filme de aventura focado unicamente na diversão, mas falha miseravelmente na construção de laços entre personagem, no desenvolvimento correto dos vilões e na escolha do que merecia ter mais espaço, principalmente nos aspectos visuais. Pode até ser considerado um filme razoável, mas passa longe de ter o peso da verdadeira lenda pensada por Burroughs.


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A Lenda de Tarzan

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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