AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Grande Muralha

Um filme-pipoca surreal e visualmente impecável


28 de fevereiro de 2017 - 14:16 - Flávio Pizzol

Diversas sociedades, em qualquer lugar do planeta, criam e transmitem suas próprias lendas com o objetivo de explicar eventos misteriosos, porém essas histórias fantásticas sempre sofrem alguma influência do imaginário popular. A China cultiva milhares dessas narrativas em meio aos seus ensinamentos e provérbios, incluindo várias que exigem um certo nível de descrença por parte do seu interlocutor. Afinal de contas, não é todo mundo que consegue comprar a relação de A Grande Muralha com elementos mágicos, imperadores e monstros “comedores de gente”.

O roteiro de Carlo Bernardi (Narcos), Doug Miro (O Aprendiz de Feiticeiro) e Tony Gilroy (Rogue One: Uma História Star Wars) também precisa que o espectador abrace esses aspectos fantásticos para funcionar e justificar a presença de três ocidentais em uma história que poderia ser facilmente sustentada pelos generais chineses. É um “whitewashing” considerável que, pelo menos, encontra uma motivação relativamente crível, não rouba o espaço de direito da cultura oriental e ainda passa despercebido quando os personagens se misturam ao habilidoso e dedicado exército chinês que ocupa a muralha.

É um texto simples, ágil e eficiente que sabe como incorporar os clichês típicos dos grandes blockbusters, criar boas subtramas paralelas para alguns coadjuvantes (a jornada do cozinheiro me lembrou um pouco o Nix de Mad Max – Estrada da Fúria) e prender a atenção do público por todo o seu desenvolvimento. Não entrega nada mais ou gera grandes surpresas para o público, mas é uma história muito bem contada sobre redenção, confiança, guerra, honra e coragem. Sinceramente, isso foi o suficiente para me fazer embarcar na história.

Matt Damon (Perdido em Marte) e Pedro Pascal (Game of Thrones) possuem química, funcionam como os fios condutores da narrativa e entregam momentos que ficam, respectivamente, entre a ação mirabolante de Jason Bourne e o alívio cômico de um sidekick. A presença deles, no entanto, não passa de uma manobra para lotar as salas estrangeiras, já que o próprio roteiro abraça a Comandante Lin Mae como sua verdadeira protagonista. Ao lado de um carismático Andy Lau (O Grande Duelo), a jovem Tian Jing (Kong: A Ilha da Caveira) constrói uma personagem feminina muito forte e rouba as grandiosas cenas de ação para si, sem precisar de um par romântico ou de um herói para chamar de seu.

E, depois que o espectador conhece os personagens principais e consegue aceitar essa mitologia surreal, tudo o que lhe resta é aproveitar um dos melhores filmes de ação do ano. Esse gênio chamado Zhang Yimou (Herói e O Clã das Adagas Voadoras) aproveita a direção de arte impecável, os cenários grandiosos e a ótima trilha musical de Ramin Djawadi (Westworld) para criar um show visual (e sonoro) de primeiro mundo. Os monstros ficam computadorizados demais em alguns planos mais abertos, mas possuem um design muito interessante e contribuem para um 3D de tirar o fôlego. Eu juro que me vi desviando de machados e lanças como não fazia há muito tempo mesmo.

Além disso, Zhang coloca uma cereja no topo do bolo ao dividir o exército da muralha em clãs com habilidades e cores distintas. Eles se destacam separadamente em certos momentos, revelam um senso de unidade magnífico nas cenas que envolvem todos os soldados e criam uma dinâmica de guerra que eu nunca vi nos cinemas. As batalhas são grandiosas, muito bem construídas e não cansam de surpreender o público com a revelação de um clã ou uma arma diferente, enquanto a câmera se divide entre os planos aéreos e os bastidores dos eventos.

É tudo muito bem coreografado, filmado e pensado para impressionar um público que nunca presenciou esses eventos grandiosos e marcantes que o cinema chinês possibilita. O roteiro fica preso em vários pontos de obviedade, mas o visual é estonteante, impressionante e recompensador como poucas coisas que eu vi nos últimos anos, incluindo os grandes filmes de super-herói. A Grande Muralha é um balé de artes marciais e monstros que tira o fôlego de quem está assistindo e merece ser visto em 3D na maior tela possível.


OBS 1: Esse é um dos filmes chineses mais caros da história, então o roteiro americano e a presença comercial de Matt Damon surtiu algum efeito sobre os produtores.