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Filmes

Critica: A Grande Aposta


19 de janeiro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Uma nova e divertida visão sobre a economia

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O cinema americano tem um gosto particular por adaptações de alguns acontecimentos marcantes para o mundo, imaginando, talvez, que isso possa mudar os resultados. Isso não acontece, mas algumas surpresas aparecem quando se apropria da história e apresenta uma visão completamente diferente. Em A Grande Aposta, o alvo é a crise econômica dos anos 2000.

Baseado em um livro escrito por Michael Lewis, o filme segue a história de um grupo de pessoas que, entre os anos de 2005 e 2008, conseguiu prever o colapso da bolha imobiliária e decidiu nadar contra a maré do mercado. Em uma decisão que muitos consideram louca, mesmo para investidores de Wall Street, todos eles criam um esquema para apostar contra os bancos e saírem lucrando após o início da crise.

Entretanto, mesmo com essas previsões, a maioria deles não tinha plena noção do quão grande seria o estrago dentro da sociedade norte-americana e mundial. Hoje, nós conhecemos o final dessa história e sabemos que ele não é nem um pouco feliz, então o primeiro grande acerto do roteiro (e possivelmente do livro) é pegar esse tema bastante denso e tratá-lo pelo viés de uma comédia quase absurda, estrelada por personagens completamente caricatos e situações improváveis dentro da vida real.

Além disso, o roteiro, escrito por Adam McKay e Charles Randolph, também precisa lidar com a complexidade do mundo econômico e a quantidade de termos técnicos que obrigam o filme a ser extremamente didático. No entanto, eles conseguem sair muito bem dessa enrascada com algumas inserções visuais, a sempre genial quebra da quarta parede, a troca constante dos narradores e, principalmente, a aparição de famosos (incluindo Margot Robbie na banheira) esclarecendo algumas das possíveis dúvidas do espectador.

Isso tudo faz com que o filme tenha um desenvolvimento bem rápido durante a apresentação dos personagens e o estabelecimento da trama. A questão é que essa agilidade atinge o seu prazo de validade no momento em que todos os personagens começam a conviver com a mesma espera e passam a falar sobre os mesmo assuntos, tornando o filme um pouco mais arrastado e repetitivo do que ele parecia ser.

Além disso, eu também me incomodei com a frase final do filme porque ela estabelece um clima de aviso que não combina nem um pouco com o filme. Logicamente, é importante passar a mensagem de que essa não foi a primeira nem será a última vez em que a corrupção, a fraude e a ganância dos bancos iriam causar uma quebra no sistema, mas o filme não é um documentário e nem se apresenta em nenhum momento como um novo “Uma Verdade Inconveniente” para que aquela frase faça sentido dentro do seu contexto.

Apesar disso, os erros de A Grande Aposta param por aí e não se espalham pela parte técnica ou pela ótima direção de Adam McKay. O diretor, acostumado com filmes de comédia mais escrachadas, aceitou o desafio e mostrou uma capacidade de controle gigantesco dentro de um longa cheio de idas e vindas no tempo, cortes inesperados e inserções incomuns para o cinema de grande porte.

Essas características um tanto quanto incomuns fazem que esse seja um longa difícil de ser pensado, planejado e filmado, por isso Adam também conta com uma ajuda valiosa da edição rápida e quase documental de Hank Corwin. Ela é decisiva para a marcação do ritmo do filme e também parece fazer alguns milagres de pós-produção nas cenas que precisaramm ser resolvidas na sala de edição, incluindo ali uma trilha sonora incrível que vai de Nirvana à Gorillaz.

Por fim, temos um elenco onde todos os componentes apresentam características distintas e funcionam em cada um dos papéis. Steve Carell continua trabalhando a sua divisão entre o drama e a comédia com habilidade, Ryan Gosling apresenta um timing cômico que até então era desconhecido (pelo menos, para mim), Christian Bale cria uma pessoa pouco sociável que se conecta com o público pelo seu passado e Brad Pitt é o tipo paranoico e traumatizado pelo próprio mercado financeiro.

Isso sem contar o ótimo elenco de coadjuvantes formado por Rafe Spall, Hamish Linklater, Jeremy Strong, John Magaro, Finn Wittrock, Melissa Leo, Marisa Tomei e Tracy Letts. Com exceção de Magaro e Wittrock (que poderiam estar no grupo de protagonistas se tivessem mais nome), eles tem menos espaço para brilhar e mesmo assim fazem a trama se desenvolver de maneira agradável em alguns momentos.

A Grande Aposta é um filme divertido e interessante que consegue apresentar bastante coisa do mercado financeiro através sua da edição rápida e de um tom sarcástico certeiro. Assim como O Lobo de Wall Street, merece ser visto por saber tirar sarro de si mesmo e daquela situação toda, mas também pode afastar boa parte do público por conta complexidade do tema e da lentidão da segunda metade da narrativa.É um filme difícil de ser digerido, mas diverte e vale os 130 minutos de sessão.

OBS 1: O olho de vidro do personagem de Christian Bale é assustadoramente real e perturbador.

OBS 2: Ainda não assisti todos os indicados, mas acredito que ele mereceu as suas indicações ao Oscar, principalmente de diretor, ator coadjuvante, roteiro e edição.