AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Garota no Trem


31 de outubro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Uma garota quase exemplar


a-garota-no-trem-poster-800x1169Nunca o romance homônimo escrito por Paula Hawkins, mas acompanhei a sua trajetória de sucesso após a explosão midiática de Garota Exemplar. O livro aproveitou essa carona pra entrar na lista dos mais vendidos e isso não aconteceu por acaso. Ambos possuem estruturas de roteiro parecidas, envolvem um assassinato misterioso e colocam personagens femininas no centro do caso, no entanto, por vários motivos, A Garota no Trem acaba sendo um filme mais arrastado e previsível do que deveria ser.

Apesar disso, a história desse filme não é nem um pouco simples. Ele precisa apresentar vários pontos de vistas e entrelaçar muitas peças de xadrez para contar a história de três protagonistas femininas que se enquadram em estereótipos comuns. Rachel (Emily Blunt) – a garota do título – passa seus dias no trem e enfrenta problemas ligado ao alcoolismo, Megan (Haley Bennett) vive uma vida perfeita aos olhos de quem não conhece seu passado e Anna (Rebecca Ferguson) assume o papel da dona de casa que possui ligações misteriosas com ambas.

Mesmo sem ter lido o material original, posso dizer que o roteiro de Erin Cressida Wilson (Homens, Mulheres e Filhos) faz um bom trabalho ao mergulhar o espectador dentro das vidas, dramas e particularidades de cada um das protagonistas, descascando as camadas e revelando as peças do quebra-cabeça com muita paciência. Algumas pistas surgem do nada por pura necessidade de responder uma pergunta, mas também cumprem sua função de prender a atenção do público.

O jogo de câmera de Tate Taylor (Histórias Cruzadas) também ajuda bastante no desenvolvimento, já que ele usa enquadramentos tortos e alguns planos que parecem bêbados para transmitir as sensações dos personagens e incomodar o público, principalmente quando está acompanhando a Rachel. Você fica realmente incomodado, enquanto o diretor cria um ar meio onírico para tenta (e consegue) passar a ideia de que todas as histórias possuem um pouco de fantasia.

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Além disso, Taylor se destaca mais uma vez na condução dos atores, assim como aconteceu com Emma Stone, Viola Davis, Jessica Chastain e Octavia Spencer em Histórias Cruzadas. E, curiosamente ou não, o elenco masculino dessa adaptação também fica extremamente apagado em relação as mulheres, sendo que Justin Theroux (The Leftovers), Luke Evans (Velozes & Furiosos 7) e Edgar Ramírez (Joy: O Nome do Sucesso) fazem apenas o necessário e até somem no meio da trama sem nenhuma justificativa.

Por outro lado, as mulheres carregam o filme nas costas e ficam responsáveis pelos temas mais complexos, incluindo a violência doméstica que permeia toda a trama. A jovem Haley Bennett (em seu segundo grande filme após Sete Homens e um Destino) entrega uma atuação, ao mesmo tempo, sensual e extremamente triste, Rebecca Ferguson (Missão: Impossível – Nação Secreta) cria um personagem dramático bastante complexo e Emily Blunt (Sicario: Terra de Ninguém) trabalha muito bem com a ideia da falta de credibilidade da sua personagem. Os olhos fundos, a cara inchada e a melancolia casam muito bem com Rachel e transformam essa em uma das melhores performances da carreira de Blunt.

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O problema é que o próprio roteiro vai perdendo a coragem no decorrer da projeção. Enquanto o já citado Garota Exemplar vai subindo o ritmo até explodir a cabeça do espectador, esse filme é arrastado, cansativo e completamente óbvio na resolução do mistério central. É um pouco broxante prestar atenção para não se perder na trama durante quase duas horas pra acabar resolvendo o mistério sozinho uns vinte minutos antes do final. Não sei se o livro também passa essa sensação, mas a montagem do filme escancara o culpado cedo demais.

O resultado é um filme melancólico e mediano que poderia ser muito melhor. A Garota no Trem é bem dirigido, extremamente denso e cheio de atuações femininas que estariam no Oscar caso a disputa de 2017 não estivesse tão acirrada, mas desperdiça seu potencial no desenvolvimento lento da trama e na resolução desprovida de criatividade. Ainda tem seu valor por levar temas muito complexos para o grande público, entretanto, em outras palavras, o trem do título anda a 20 km/h e acaba saindo dos trilhos na última curva.


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