AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Garota na Teia de Aranha não se sustenta…

Entre uma adaptação problemática e um filme mediano.

13 de novembro de 2018 - 12:33 - Flávio Pizzol

A Trilogia Millenium é, sem nenhum dúvida, uma das melhores séries de livros que eu já li em toda a minha vida. Ágil, surpreendente e muito impactante, as obras de Stieg Larsson (que faleceu pouco após terminar o último livro) conquistaram públicos incontáveis no mundo inteiro e viraram uma marca poderosa para diversas mídias, incluindo outros livros, filmes na sua terra-natal e uma adaptação americana que deve ser uma das melhores produções do gênero nos últimos dez anos. Com a retomada dos livros pelas mãos de David Lagercrantz, a Sony acabou repensando o potencial do universo como franquia de ação e decidiu fazer com que A Garota na Teia de Aranha fosse um novo ponto de partida. Um que colocasse Lisbeth Salander na ativa outra vez, ingorando Daniel Craig, Rooney Mara, David Fincher e todo o resto que havia sido apresentado antes.

Uma decisão no mínimo contestável que colocou o diretor uruguaio Fede Alvarez (O Homem nas Trevas) no comando da história, substituindo justamente o gênio que nos trouxe Clube da Luta. E, por mais que eu pareça estar diminuindo o novo chefe, posso garantir que ele é uma das melhores coisas do filme. Não acerta em tudo, mas usa sua experiência com o terror para construir o clima de suspense em sequências pontuais, dirige boas cenas de ação tanto no corpo a corpo, quanto nas perseguições automotivas, imita as características de David Fincher quando necessário (isso não é um demérito) e aproveita o que a fotografia do também uruguaio Pedro Luque (O Silêncio do Céu) tem pra oferecer de melhor. Além disso, Alvarez segue a mesma toada dos seus outros dois trabalhos em Hollywood, dando atenção para o som e usando a trilha composta por Roque Baños (No Coração do Mar) como uma espécie de condutor narrativo muito eficiente.

Nesse caso, se a direção funciona, o problema aqui está todo em um roteiro que tenta ser um reinício, mas funciona na prática como a continuação que sempre foi. A Garota na Teia de Aranha é um longa que depende de certos conhecimentos prévios do espectador para funcionar em sua completude e isso é uma incoerência narrativa daquelas que destroem exatamente a base de sustentação de uma produção, afinal contesta, de certa forma, os motivos de sua existência. Mais do que isso, começar uma possível franquia com um filme onde o público precisa ter lido os livros ou, no mínimo, visto alguns dos filmes que você está ignorando propositalmente não faz sentido algum. Não precisa ser um gênio pra perceber que existe um espaço em branco na história e que ele deveria ser compensado de alguma forma no próprio filme, mesmo se isso fosse feito através de um grande e tosco flashback.

Porque a grande verdade é que o filme sente falta de toda a construção minuciosa que Stieg Larsson fez nos seus livros. O primeiro livro, por exemplo, é uma história independente (ainda assim muito bem construída) cujo o objetivo é basicamente apresentar Lisbeth, Mikael e a relação complexa entre eles. É um livro que constrói a base que o autor vai usar posteriormente para contar a verdadeira história do pai da protagonista nos outros dois livros, incluindo aí a apresentação rápida de Camila Salander, a irmã que mais tarde será aproveitada como elemento central na continuação escrita por David Lagercrantz. E ele não tem a mesma força do escritor anterior, mas mantém as características estabelecidas com segurança porque elas são os pilares que sustentam todo o resto. E é disso que o filme sente falta, já que uma porção mínima de referências ao pai ou ao passado de Lisbeth não são o suficiente para impedir que tudo fique vazio, raso e fraco.

E eu precisava falar isso porque, apesar de ser uma adaptação relativamente fiel do quarto livro, A Garota na Teia de Aranha ainda é uma adaptação de um quarto livro que surge sem tudo o que foi feito e desenvolvido nos outros três livros. É triste e incômodo, principalmente pro leitor da franquia, ver, entre outras coisas, a relação de Lisbeth e Mikael ser reduzida a um romance que não deu certo. Eles são muito mais do que isso e a inexistência de todos os percalços que fortaleceram a parceria dos dois faz com que o próprio Mikael se torne um personagem insosso com menos importância do que um coadjuvante. E, como isso não fosse o suficiente, o mesmo acontece com Camila e Lisbeth: a primeira é uma vilã unidimensional e sem personalidade, enquanto a protagonista substitui seus traumas pelo perfil de uma justiceira cartunesca que toma decisões que sua versão literária jamais tomaria.

A sorte de Lisbeth Salander é que, ao contrário do que acontece com Mikael e Camila, a personagem ganha fôlego através da ótima interpretação de Claire Foy (O Primeiro Homem). Ela arrasa nas cenas de ação, faz o possível pra encontrar alguma profundidade no roteiro e merece nossos elogios por isso. A culpa da personagem ser vazia não é dela e por isso mesmo acaba sendo triste ver o esforço da atriz ser jogado fora pelo texto escrito pelo próprio Alvarez ao lado de Jay Basu (Projeto Dinossauro) e Steven Knight (Locke). O encontro final entre as irmãs, por exemplo, deveria ser o clímax emocional de toda a trama construída em A Garota na Teia de Aranha, mas acaba sendo só um diálogo meia-boca graças a inexistência de um relacionamento que explorasse pelo menos o real motivo que as manteve afastada.

Fora isso, mesmo enxergando o longa de forma separada dos livros e ignorando todos os problemas de adaptação, ainda é possível notar outros problemas narrativos que prejudicam a experiência de qualquer espectador. Afinal de contas, um texto cheio de coincidências que apela para resoluções simplificadas o tempo inteiro é exatamente o que não queremos ver um suspense complexo de espionagem. É o tipo de coisa que torna o todo de A Garota na Teia de Aranha extremamente óbvio e enfraquece principalmente as resoluções. É só observar como as respostas são dadas sem nenhum impacto, sem nada que faça o espectador se sentir desafiado pela trama. O roteiro prefere dar um aspecto novelesco para esse momentos e até mesmo o diretor parece aceitar o descaso. Não existe sequer a vontade de ao menos brincar com a edição ou com os movimentos de câmera pra criar algo que exploda as cabeças ou que mexa com as emoções do público. Fica a sensação de que está faltando algo e ela só aumenta pra quem já provou o que Fincher podia fazer através da versão americana.

E esse é, finalmente, o golpe final em um filme que já nasceu condenado. É o nocaute que derruba uma ideia ruim que talvez pudesse funcionar como obra independente. Só que isso não pode rolar sem bons personagens e reviravoltas impactantes. Seria injusto dizer que o filme é pavoroso porque ele tem energia, bom ritmo e algumas ideias com potencial (principalmente nos aspectos visual e sonoro), mas não consegue passar de uma montagem de papéis picados onde o autor usou pouca cola. Não gera tensão e emoção como deveria, sendo um suspense mediano e esquecível. Em outras palavras: A Garota na Teia de Aranha é um filme que não tem força nem pra se sustentar, quanto mais pra servir de base pra uma nova franquia. E isso é uma pena…


OBS 1: A arrecadação inicial do longa foi muito mais baixa do que a da primeira versão da Sony (que já tinha sido considerada baixa). Isso significa que dificilmente A Garota na Teia de Aranha ganhará uma continuação…