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Filmes

Crítica: A Forma da Água

A Forma da Água é uma ode à beleza dos incompreendidos

4 de fevereiro de 2018 - 15:31 - felipehoffmann

A Forma da Água é uma daquelas fábulas fantásticas que conseguem passar sua mensagem de uma forma doce e surpreendente, martelando na cabeça durante um bom tempo e nos fazendo pensar se na verdade os monstros são as criaturas de Del Toro ou nós, os humanos.

O filme é uma poesia romântica, apoiada na sutileza do silêncio. A Forma da Água conta sua história com poucas palavras, mas cheia de elementos visuais ancorados numa trilha sonora arrebatadora, cantando cada sensação que os personagens possuem.

Guilhermo del Toro é famoso por fazer criaturas excêntricas e trazer personalidades à elas, significando cada um de seus personagens. Hellboy, Labirinto do Fauno e Círculo de Fogo, por exemplo, são alguns filmes que mostram a versatilidade do diretor mexicano, seja de forma lúdica ou mesmo tecnológica. Cada um traz uma beleza peculiar e estranhamento à primeira vista. Mas com passar do tempo, cria-se um costume visual e descobrimos que elas vão muito além do que se apresentam.

A Forma da Água é uma ode à beleza dos incompreendidos. Elisa, vivida por Sally Hawkins (Godzilla), é uma pessoa muda que conversa com o mundo em seus gestos. Sua curiosidade ao ver pela primeira vez A Criatura (Doug Jones – Star Trek: Discovery) foi o reflexo de sua vida e da sociedade em que ela vive. Estar nos anos 60 é conviver com todas as particularidades daquela época. A paranoia da Guerra Fria, o racismo, o ideal de família americana e a diferença de classes são retratados por Del Toro em tom de crítica entre as linhas do roteiro e Elisa quebra cada uma dessas “regras”, desvirtuando essas premissas sociais como se elas nem existissem.

 

 

Hawkins faz um trabalho incrível, deixando para suas expressões corporais dizerem o que sua boca não consegue. Em certa parte, um momento La La Land destoa do restante do filme e podemos ouvir sua voz. Do contrário, suas vontades gritam o tempo todo sem que uma palavra seja dita. Entendemos perfeitamente sua indicação ao Oscar.

Michael Shannon vive a pele do Dr. Strickland, um vilão clássico dos filmes da Disney. Suas motivações são muito bem construídas e, até certo ponto, entendemos que sua vilania é mais pelo cargo que ocupa do que pelo seu maniqueísmo exacerbado. Mas lá pelo fim do segundo ato, Shannon deixa a maldade fluir e entrega um Dr. paranoico em busca de realização egocêntrica.

Os outros coadjuvantes de A Forma da Água também estão no limite de seus personagens. Otavia Spencer, Michael Stulhbarg e Richard Jenkins complementam as ideias de Elisa e ajudam a personagem a chegar no desfecho do seu arco principal.

 

 

Cada cena de A Forma da Água parece um papel de parede diferente do Windows. O jogo de luzes, a direção de arte e a fotografia, ancorados numa trilha sonora arrebatadora, criam uma das melhores obras que tive a oportunidade de acompanhar. Por mais que uma ou outra ideia tenham sido pouco exploradas, não diminui sua absurda experiência cinematográfica. Um filme redondinho, belíssimo e com uma mensagem de vida ao melhor estilo fábula.

Entender que o monstro tem sentimentos como os meus e os seus dá a empatia necessária para perceber que o problema não é ele ser diferente. É a sociedade pensar igual. E isso é tão atual que nem parece uma história de meio século para trás.