AODISSEIA
Séries

Crítica: 3% foca na desigualdade e na meritocracia em sua segunda temporada

É correto salvar apenas 3% e deixar os outros 97% sofrendo?

7 de maio de 2018 - 22:02 - felipehoffmann

Distopias são realidades paralelas que partem do pessimismo, caracterizando um mundo negativo, sem lá muita esperança e grandes avanços para a humanidade. A segunda temporada de 3% é exatamente a definição básica de uma distopia. Cheia de tecnologia e carregada de uma insistente crítica social, ela bate na meritocracia e estampa a desigualdade que separa uma pequena parcela da população daqueles que sofrem com a total ausência do Estado.

Em sua temporada de estreia, 3% manteve um foco enorme na condução do Processo para a seleção dos melhores candidatos a entrarem no Maralto. Vimos um pouco da Causa, do Continente e das pessoas envolvidas em tudo isso. Contudo, o “vestibular da salvação” não deixou de ser o foco. Já nessa segunda temporada, 3% esquece o Processo e olha justamente pra’quilo que faz a engrenagem girar. As pessoas. Com suas motivações, suas ideias e nas vontades nada maniqueístas que fazem a vida ser dividida em uma pizza totalmente desigual.

Para criar esse mundo, o idealizador e roteirista de 3%, Pedro Aguilera (Os Homens São de Marte e é pra Lá que eu Vou), bebeu muito dos elementos da nossa cultura. Fica nítida a referência às favelas brasileiras com sua pobreza insistente, ao Carnaval – que rende uma das cenas mais lindas da toda a temporada, com uma super apresentação de Liniker cantando Cartola, e uma explícita comparação com o Fla-Flu político que a gente vive.

Dá pra dividir a segunda temporada de 3% em duas.  Num primeiro momento, a série busca resolver os problemas do ano anterior, situando cada personagem em seus respectivos lugares após o Processo. Se antes, a figura de Ezequiel (João Miguel) era a principal razão da série engatilhar, agora, é preciso um desfecho para o personagem para a produção mudar de rumo e buscar novos ares.

 

 

Incomoda a condução dos episódios até sua metade. O desenvolvimento de Michele (Bianca Comparato), Joana (Vaneza Oliveira), Rafael (Rodolfo Valente) e Fernando (Michel Gomes) é confuso. Por vezes os personagens se contradizem em suas ideias e fazem o oposto daquilo que estava sugerindo. Além de uma conveniente ajuda de roteiro para situá-los sempre nos lugares mais adequados para cada situação.

Porém, o mais importante disso é entender a mensagem que essa nova temporada de 3% deseja passar. Expondo cada erro na construção do Maralto e nas consequências das escolhas dos fundadores, a série escancara a desigualdade social que emerge quando o Estado dá as costas para sua população. A meritocracia funciona em igualdade de condições ou é um artifício pra manter separado o joio do trigo?

[…] Esse mecanismo social, supostamente, evidencia a diferença entre indivíduos em um ambiente que se quer igualitário do começo ao fim. Diz a autora Lívia Barbora, Pesquisadora na PUC-RIO e Diretora da Socius Consultoria Ltda.

Por vezes, a série se faz a mesma pergunta e acrescenta alguns outros questionamentos interessantes que batem de frente com a situação do Brasil. Com o crescente desemprego, a volta do país para o mapa da fome da ONU e a discrepante distribuição de renda por aqui, dá pra fazer um exercício de lógica e comparar 3% com a realidade brasileira.

 

 

Para combater isso, a produção insiste na força dos grupos de guerrilhas, tão famosos na América do Sul. A Causa, por exemplo, é a típica personificação dos Guerrilheiros, que tentam derrubar na força o poder do Maralto. O grande problema é a capacidade de estrago que esses grupos conseguem criar. Se olharmos novamente a história, só na Revolução Cubana e na Nicarágua eles tiveram êxito.

Nem sempre combater com força e sangue o que você acredita ser o mal, vai ser a solução dos problemas.

Talvez esse seja o grande mérito da série. Conseguir traduzir de forma ficcional, algo tão cotidiano em nossas vidas. Mesmo em uma distopia, o paralelo com a vida real é constante mas a diferença é que em 3% existe uma pitada de fé para a construção de uma sociedade melhor, longe do mal criado pelas escolhas de poucos. Pelo menos na obra de ficção percebemos o quão destruidor pode ser o poder na mão das pessoas erradas. Na vida real talvez a gente ainda não tenha se dado conta.