AODISSEIA
Séries

Crítica: 13 Reasons Why (2ª Temporada)

Uma temporada desnecessária cheia de bons momentos e novas polêmicas

28 de Maio de 2018 - 12:41 - Flávio Pizzol

13 Reasons Why pode ser enquadrado na categoria de projetos arriscados da Netflix que deram, majoritariamente, certo. A primeira temporada chegou ao serviço de streaming sem muita pompa, porém logo viralizou de maneira surpreendente, virou tópico de discussão mundial por pessoas de diversas idades e gerou uma parcela de polêmicas que ampliou ainda mais o sucesso. Todas aquelas críticas em torno da romantização da violência e da necessidade ou não de mostrar um suicídio com tantos detalhes são bastante infundadas na minha opinião, no entanto ajudaram a construir um contexto de hype que clamava – sem necessidade – por um segundo ano que pudesse consertar alguns erros anteriores e mergulhar nas consequências da morte da Hannah sem ficar preso a uma obra anterior (nesse caso, o livro de Jay Asher). E, depois de tantos pedidos e meses de espera, a sequência finalmente veio…

Dessa vez, a história, que se passa cinco meses após a conclusão do ano de estréia, acompanha a briga por justiça da família de Hannah. Sua mãe decide seguir em frente com o processo que busca analisar novamente os fatores envolvidos na morte da garota com o intuito de responsabilizar a negligência da escola, mas o decorrer de tal julgamento acaba mexendo com a cidade de formas inesperadas e trazendo à tona os grandes segredos que cercam os estudantes da Liberty High.

O roteiro se apropria, sabiamente, desse típico drama de tribunal para oxigenar seu formato sem precisar necessariamente modifica-lo por completo. Agora, ao invés da fitas deixadas por Hannah, o que assume a função de condutor narrativo da temporada são os depoimentos de algumas das peças envolvidas no suicídio de Hannah e eu preciso admitir, logo de cara, que a estratégia funciona muito bem. Enquanto as polaroids tão usadas na divulgação ficam perdidas no meio de uma complexidade ainda maior, a sequência das testemunhas mantém o espectador curioso para as próximas revelações e constrói um ambiente judicial eficiente. Tudo isso continua, obviamente, cercado por aqueles diálogos expositivos, frases de impacto e atuações medinas que parecem caracterizar produtos voltados para os adolescentes, mas eu já nem conto esse combo como um defeito e prefiro concentrar minhas atenções em outras coisas.

Uma dessas é o fato de que existe uma gigantesca forçação de barra na validação dessa temporada que não precisaria existir. Os roteiristas tem plena consciência dessa última informação e ficam o tempo todo – literalmente – tentando justificar tal existência através da revelação de novas informações sobre a convivência de Hannah com seus amigos e familiares. A proposta, não vou mentir, até funciona nos primeiros episódios e a oportunidade de ampliar o nosso contato com a garota através do olhar dos outros teria me conquistado se, pelo menos, uma dessas histórias não andasse na total contramão dos fatos estabelecidos na primeira temporada. Tudo bem que a Hannah não era narradora mais confiável do mundo, mas ela culpar o Zach por ignorá-la enquanto exclui três meses de romance tórrido da sua fita é completamente incoerente. No entanto, essa escolha é um tiro no pé tão grande que não existiria nenhuma possibilidade (seja o final do caso feliz ou triste) dela se encaixar no todo.

A segunda temporada ainda peca em continuar apostando suas fichas em personagens ruins. Muitos são superficiais, alguns possuem subtramas que só incham o desenrolar da narrativa e outros só ficam cada vez mais mal construídos, como parece ser o caso do Clay. Ele é um personagem incoerente que toma decisões estúpidas que eu não vejo um adolescente real tomando, mas, pra piorar, nunca aprende com seus próprios erros. Além disso, eu acho completamente sem noção que os roteiristas preencham ele com todas as características existentes no arquétipo do herói, mas o deixe estagnado em seus pensamentos contraditórios e, em certo momentos, machistas. E não, aquela escolha final não corresponde a nenhuma evolução, já que, apesar do resultado positivo, ela é apenas uma repetição de sua atitudes nas duas temporadas anteriores em uma situação muito mais perigosa e pouco condizente com o realismo que a série insiste em inserir nos seus acontecimentos.

Por sorte, em contrapartida, a série também possui alguns bons personagens cujas histórias merecem sua atenção. A evolução da trama de Jessica Davis após a descoberta de seu estupro, por exemplo, é uma das mais interessantes da temporada, assim como a abordagem das consequências da morte de Hannah nas vidas de Justin e Bryce. Além deles, podemos dizer que personagens como Alex, Zach e Tony continuam sendo salvos dos problemas recorrentes do roteiro pelo carisma dos seus interpretes. Indo na direção contrária de Dylan Minnette (Os Suspeitos) e sua atuação inerte, Alisha Boe (Ray Donovan), Brandon Flynn (BrainDead), Justin Prentice (Preacher), Miles Heizer (Com Amor, Simon), Ross Butler (Shazam!), Devin Druid (Olive Kitteridge) e a recém-chegada Anne Winters (Tyrant) fazem bons trabalhos e garantem seu lugar ao lado de uma Katherine Langford que arrasa ao interpretar Hannah através de visões completamente distintas da mesma.

Já entre os adultos, existem alguns poucos que merecem destaque por, ao menos, não soarem tão estúpidos como a maioria. Josh Hamilton (Manchester À Beira-Mar) ganha pontos por tentar ser um pai razoável para Clay na maior parte do tempo, Derek Luke (The Americans) consegue entregar camadas bastante complexas como o questionável Kevin Porter e Allison Miller (Go On) chega chutando a porta como a advogada que, ao contrário do seu oponente, realmente adiciona veracidade ao julgamento, entretanto todos ainda estão abaixo de uma Kate Walsh (Fargo) que destrói mesmo quando o roteiro se boicota e não dá a devida atenção para a mãe de Hannah.

É assim, enfrentando cada vez mais trancos e barrancos, que a segunda temporada de 13 Reasons Why chega ao fim. Uma conclusão agridoce, novelesco e inconsistente que apresenta momentos de cortar o coração (o “velório” de Hannah), bons pontos de amarração e escolhas narrativas realistas (o vício de Justin é um exemplo aqui) ao mesmo tempo em que falha na proposta de se aprofundar nas consequências, faz um desserviço pra história da Jess e cai que nem um patinho em uma polêmica que é impossível perdoar. Em meio a cenas de violência chocante e a possibilidade de construir uma sequencia final que impactaria pelo seu realismo, a série acaba dando seu escorregão final ao tentar fugir das criticas por não apresentar uma solução positiva paraos desastres. No entanto, a verdade é que a vida real nem sempre consegue fugir das tragédias com tanta facilidade e, por mais que tabus sejam quebrados e diálogos abertos, 13 Reasons Why precisa acabar antes que o público precise citar treze motivos para não vê-la.


OBS 1: Os pais de 13 Reasons Why só podem ter vindo do universo do Snoopy. São estúpidos, insistentes no mesmos erros e parecem falar um língua diferente dos seus filhos. Eu entendo que o exagero aqui serve para criar certas situações entre os adolescentes, mas existem algumas situações que exigem um nível de descrença na realidade muito grande. Eu maratonei a temporada com a minha mãe e o desespero dela com relação a isso não pode passar despercebido…

OBS 2: O que foi aquela cena do banheiro? Pesada, mas chocante e necessária…

OBS 3: Eu tenho pra mim que um tiroteio na escola seria um final crítico e realista que atestaria as falhas da escola de uma vez por todas, mas não é a sua inesticência que me incomoda. O que acaba com final é a ideia de que, contra todas as medidas de segurança sugeridas em casos de invasões similares (que, infelizmente, acontecem com frequência nos EUA), um único adolescente que se acha o herói solitário pode sair e impedir uma tragédia com um discurso tão pobre. Se a primeira temporada, “ensinava” as pessoas a cometerem suicídio, essa faz algo pior – como já tínhamos previsto nesse texto – ao sugerir esse tipo de heroísmo…