AODISSEIA
Filmes

Crítica: 120 Batimentos por Minuto

Quantos batimentos são necessários para destruir um coração?

2 de março de 2018 - 12:42 - Flávio Pizzol

A arte – espectro do qual o cinema é parte importantíssima – pode se classificada de diversas formas, mas eu gosto de pensar nela como algo que mexe com o sentimentos e pensamentos das pessoas, seja através de sorrisos, lágrimas ou indigestões. Passando por toda a nossa gama de emoções com precisão, 120 Batimentos por Minuto encontra sua força motriz na última categoria e, após um clímax avassalador, demonstra que o cinema bem-feito tem sim o poder de destruir corações.

A trama, situada na França em algum ponto dos anos 90, acompanha um grupo de ativistas homossexuais que lutam pelo direito dos portadores do vírus HIV. Perante a indiferença e negligência do governo e das empresas farmacêuticas, eles tentam chamar atenção da mídia e levar uma vida normal em uma sociedade preconceituosa antes de precisar encarar a morte de frente.

Repleto de experiências pessoais e praticamente autobiográficas, o roteiro escrito pelo diretor Robin Campillo (Les Revenants) ao lado de Philippe Mangeot (Les nuits d’été) acerta em cheio na condução de uma história que possui algumas complexidades narrativas e temáticas. 120 Batimentos por Minuto é o tipo de longa que depende de personagens cheios de camadas que não caiam em caricaturas, de acontecimentos que choquem o público e, principalmente, de uma dinâmica que impeça a obra de cair no marasmo completo. Nesse caso, o texto já resolve tudo isso desde a sequência de abertura, apresentando personagens cheios de opinião política, um protesto midiático com potencial e uma montagem extremamente ágil.

Além disso, o roteiro consegue dividir-se entre a organização dos protestos e a vida dos portadores sem perder seu foco ou eficiência. Contando justamente com seus personagens bem construídos, Robin e Philippe conseguem transitar entre plots que se desenvolvem de maneira distinta sem ficarem perdidos ou precisarem criar alguma manobra louca para juntar tudo. Ainda vou falar mais sobre o terceiro ato, porém posso adiantar que é incrível notar a fluidez com que as tramas vão sendo costuradas sem que o espectador precise fazer qualquer esforço.

Como eu já ressaltei, a edição tem grande importância tanto na organização das sequências, quanto na manutenção do ritmo. São inúmeros os momentos em que o trabalho do próprio Campillo com Stephanie Leger (Entre os Muros da Escola) e Anita Roth (Escobar: Paraíso Perdido) brinca com o tempo e o espaço que compõem a cena, criam conexões visuais entre os plots sem precisar de grandes explicações ou adiciona camadas de interpretação através do lirismo da alternância de imagem e som, como, por exemplo, na ótima sequência em que o rio tingido de sangue e misturado com a respiração enferma de um dos protagonistas. Caso isso não seja o suficiente para te convencer da força dessa montagem, posso informar que os “longos” 143 minutos passaram voando pelos meus olhos.

No entanto, enquanto o roteiro e a montagem criam todo o cenário para um filme cheio de mensagens necessárias, a direção de Robin é o elemento que completa o trabalho com intensidade e puro realismo. Suas lentes, refletidas pela vivência pessoal em meio ao grupo representado ali, injeta raiva e ferocidade ao longa sem esquecer de exalar amor, sexualidade, compaixão e empatia em cada entrelinha. É um trabalho complicado que mexe com muitas emoções distintas e tende a chocar os mais ingênuos ou preconceituosos. Nesse caso, se você faz parte do grupo que não conseguiu suportar Call Me by your Name por sua sensualidade quase explícita, corra sem pestanejar de 120 Batimentos por Minuto.

 

Pra completar os acertos imprescindíveis desse longa, o diretor conta com um grupo de atores pouco conhecidos, porém extremamente expressivos, para ajudar na condução da história até sua conclusão. Nahuel Pérez Biscayart (O Futuro Perfeito), Arnaud Valois (Eyes Find Eyes), Adèle Haenel (Nocturama) e todo o grupo de ativistas – sem descontar um sequer – possuem cenas importantes e ganham ainda mais força quando chega a hora de reunir todos em clímax de cortar a respiração, esmagar o coração e dar um nó na garganta.

O diretor costura tudo com cuidado e sensibilidade extremos, dando espaço para cada um lançar seus sentimentos na cara do espectador antes que o silêncio tome conta dos créditos e da sala como um todo. Campillo não usa artifícios hollywoodianos para arrancar lágrimas e nem quer fazê-lo, porque a conclusão é sobre muito mais do que a emoção de um velório. O objetivo de 120 Batimentos por Minuto é gerar reflexões e, assim como a Act Up!tenta fazer durante todo o longa, manter as mensagens enviadas naqueles dolorosos vinte minutos finais na mente do público por muito tempo.