AODISSEIA
Filmes

Critica: 12 Anos de Escravidão

19 de Fevereiro de 2014 - 13:15 - Flávio Pizzol

download

Vencedor do Globo de Ouro e um dos grandes favoritos ao prêmio máximo do Oscar 2014, 12 Anos de Escravidão é forte, emocionante e retrata muito bem uma das épocas mais tristes da história. Um dos melhores filmes dos últimos tempos.

O filme conta a história surpreendente de Solomon Northup, um negro livre em plena escravidão americana que foi enganado e sequestrado. Depois de vendido, passa pelos 12 anos de escravidão que dão nome ao filme.

O primeiro ponto que merece ser destacado é a maneira como o filme não amacia a história. A crueldade está sempre presente, tanto nos momentos de sofrimento físico quanto em diálogos que mostram como era a realidade da época. Essa maneira crua de tratar a história fez com que o filme fosse comparado ao forte A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, que também não perdoa o espectador. A comparação faz sentido, mas esse filme é menos pesado.

images

Mas vamos falar especificamente do filme, que está arrebatando a crítica e o público do mundo inteiro. Principalmente nos EUA, que tem uma ferida mais aberta e dolorida em relação à escravidão e à segregação racial.

Tudo no filme funciona com perfeição, como se fosse várias engrenagens de um relógio. A começar pelo roteiro de John Ridley, que é baseado no livro do próprio Solomon escrito em 1853.

O roteiro acerta em cheio nas quebras de narrativa. O vai e vém atemporal das cenas exige um pouco de atenção do público (isso não é um problema), mas torna o filme extremamente dinâmico. Ridley também balanceia a história, posicionando as cenas mais emocionantes quase que cirurgicamente para não deixar que o filme perca força ou comece a se arrastar. Além de tudo isso, o roteirista também escreve alguns diálogos excepcionais para os personagens principais. Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender e Brad Pitt tem falas marcantes durante todo o filme.

A direção de Steve McQueen também funciona com perfeição. O maior acerto do diretor é transportar o realismo, que marcou suas produções anteriores, para um filme de época. Um realismo que nunca foi tão marcante em um filme sobre escravidão.

download (1)

Um realismo que é usado nas cenas de crueldade, mas também marca presença quando o diretor quer passar uma visão perfeita sobre uma época que o cinema americano gosta de romantizar. Não tem nada de senhor de escravo ajudando os negros ou coisas desse tipo, ainda que apareçam alguns vestígios de gratidão.

McQueen também continua na sua saga que tem como objetivo chocar o público. Seus filmes sempre são pesados e chocantes e 12 anos não fica pra trás. Ainda que choque de maneira diferente do insano Shame.

A direção é tão balanceada quanto o roteiro. Steve não abusa de nada, nem dos closes em feridas. Sua câmera se posiciona com perfeição, sendo ampla e intimista ao mesmo tempo. O filme é dirigido com uma sensibilidade envolvente, mas o diretor não poupa o público de cenas fortes, quando elas são necessárias.

images (2)

O elenco estrelar também está ótimo, tanto que parece ter sido escolhido a dedo. Dos principais aos desconhecidos, passando pelos coadjuvantes de luxo, todos merecem ser aplaudidos por interpretarem seus personagens de maneira perfeita.

A começar por Chiwetel Ejiofor, que agarra com unhas e dentes o personagem da sua vida e não decepciona. O protagonista do filme passa todas as emoções de Solomon com olhares fixos e agonizantes. O público pode sentir na pele toda a dor e sofrimento que acompanham a saga do escravo. Sua atuação ainda é coroada por cenas emocionantes que mostram toda a crueldade da época. Destaque para a cena sublime em que Solomon fica pendurado em uma árvore após ser quase enforcado.

Outro destaque é a novata Lupita Nyong’o, que surpreende e tira o foco do protagonista em suas poucas cenas. A cena em que ela é açoitada é uma das coisas mais chocantes do cinema. Mas esta cena só fica perfeita por que o excepcional Michael Fassbender (em sua terceira parceria com McQueen) chega ao ápice de sua atuação naquele momento. Michael está surtado e perfeito como o tirano senhor de escravos Epps.

images (1)

Além desses três, que mereceram a indicação ao Oscar que abocanharam, outros atores famosos também participam e não deixam a peteca cair. Brad Pitt tem uma participação muito pequena, mas é muito importante no ato final do filme. Seu diálogo com Fassbender é sensacional.

O sensacional Benedict Cumberbatch também faz um ótimo trabalho como Ford, um fazendeiro integro que cria um laço interessante com Solomon, mas não consegue quebrar o ciclo da escravidão. Também marcam presença os sempre ótimos Paul Giamatti, Paul Dano e Sarah Paulson. Essa última tem ótimas cenas com Lupita e Fassbender.

A parte técnica também merece destaque. A ambientação do século 19 está sublime, graças a uma ótima direção de arte e um figurino espetacular. A fotografia também ajuda a dar um toque envelhecido ao filme.

A trilha sonora do veterano Hans Zimmer também chama atenção e foi injustamente esnobada pela academia. A trilha é composta por muito violino e tambor, misturado com alguns elementos que lembram suavemente músicas eletrônicas. As músicas casam perfeitamente com as cenas e ajudam a contar a história de maneira perfeita.

download (2)

Um filme que tem tudo pra vencer o Oscar e ficar marcado na história do cinema, não só por ser um filme sensacional. A maneira quase única como a época, o assunto e a história são tratados é marcante. Um filme brilhantemente executado que consegue emocionar qualquer espectador, seja ele negro, banco, pardo ou amarelo.

OBS1: O orçamento do filme é muito pequeno e a única coisa que pode explicar a presença de tantos nomes conhecido é o engajamento com a história. Principalmente Brad Pitt, que também produz o filme.

OBS 2: O filme também venceu as principais categorias do BAFTA, o “Oscar Britânico”, e do PGA (prêmio dos Produtores de Hollywood). Nesse último, curiosamente, o troféu foi dividido com Gravidade.

Por Flávio