AODISSEIA
Filmes

Crítica: 10 Segundos para Vencer é uma biografia de respeito

E Eder Jofre finalmente se torna o nosso Rocky Balboa...

2 de outubro de 2018 - 16:16 - Flávio Pizzol

A cinebiografia é um subgênero muito recorrente no cinema brasileiro, porém, quando se para pra pensar, fica fácil notar que a maior parte dos alvos está no meio musical. É claro que sair dessa linha possui certos obstáculos, mas acaba sendo um tanto quanto estranho ver um país tão reconhecido pelo esporte deixar de lado figuras tão marcantes da nossa história. O fato é que, depois do famigerado filme do Pelé (que não é esse pesadelo todo) e do regular Heleno, a indústria – que já não fazia muito – parece ter ficado com medo de investir em histórias desse tipo, ignorando até mesmo algumas que já mereciam ter chegado nas telonas há muito tempo. 10 Segundos para Vencer não tem a pretensão de mudar toda essa engrenagem, mas faz a sua parte quando mostra que é possível sim fazer grandes filmes de esporte em terras tupiniquins.

O longa conta a história do lendário boxeador Eder Jofre da sua infância pobre no subúrbio paulista até o sucesso alcançado após dois marcantes títulos mundiais. Em outras palavras, se tratando da cinebiografia de alguém famoso, estamos falando de uma produção que vai explorar o pacote básico: a divisão entre o lado profissional de Jofre (nesse caso, treinos e lutas) e um caminho “pessoal” que inclui decisões difíceis, doenças na família, casamentos, aposentadorias dramáticas e uma relação complicada entre pai e filho.

Pra completar, o roteiro escrito por Thomas Stavros (Gonzaga: De Pai pra Filho) e Patrícia Andrade (2 Filhos de Francisco) escolhe passar por todos esses aspectos sem reinventar a roda, assumindo o estilo mais clássico possível quando se trata de histórias baseadas em fatos reais. Essa decisão resulta em um produto padronizado (o próximo passo é adicionar alguns minutos deletados e lançar como série na Globo) e quase jornalístico que se divide entre o medo de errar e as possibilidades de mergulhar com eficiência em certos detalhes da vida do protagonista. E, no meio disso, o filme realmente consegue fugir de algumas armadilhas quando faz o simples, errando apenas naquilo que sempre surge como uma dificuldade para o gênero.

Entre alguns escorregões, os que mais incomodam em 10 Segundos para Vencer ficam restritos a divisão do que precisa ou ser contado, deixando espaços em branco no meio da narrativa, e ao abandono de certos personagens. No caso do segundo, é fácil notar como o texto escolhe reduzir a importância da esposa (interpretada de maneira carinhosa por Keli Freitas) para priorizar a relação de Eder com seu pai. É como se Cida só estivesse no filme orque existiu na vida real, já que em nenhum momento ela faz a transição de causa das dúvidas do protagonista para dona de sua própria história. Mesmo assim, por mais que isso incomode, esse é o tipo de decisão que cinebiografias sobre “vidas inteiras” precisam fazer, já que a quantidade de história é muito maior do que o tempo de um longa-metragem comum.

Apesar disso, o texto cumpre seu papel de construir uma narrativa que cresce e prende a atenção do espectador a cada novo capítulo, deixando que a sólida direção de José Alvarenga Jr. (Supermax) conserte alguns desses pequenos problemas que foram citados. E, ainda que o diretor também escolha caminhar por trilhas simplórias, esses trabalho é bem realizado na maior parte do tempo da projeção de 10 Segundos para Vencer. A vida cotidiana de Eder e sua esposa, por exemplo, é filmada com uma delicadeza que quase obriga o espectador a torcer pela felicidade dos dois, mesmo com o roteiro deixando essa subtrama de lado. Já os momentos de transição da história, por sua vez, ganham muito com o uso de imagens de arquivo ou cenas que evocam esse estilo, mostrar as mudanças de tempo ou personalidade de maneira realista e íntima.

Algumas lutas também acabam alternando a presença dos atores com imagens reais, mas, por sorte, Alvarenga demonstra ter pleno controle sobre a estratégia antes dela ganhar status de anticlimática. Ele escolhe a dedo quais momentos podem ser substituídos, acerta um jab espetacular quando sincroniza uma das primeiras lutas de Eder nos EUA com a narração original de rádio e não esquece de colocar o esporte em foco nas horas decisivas. Não vou discordar que um pouquinho daquela inventividade de Creed faria bem às cenas dentro do ringue, mas novamente o simples cumpre seu papel em 10 Segundos para Vencer: as coreografias descentes, a edição certeira e os bons movimentos de câmera propostos pela fotografia do ótimo Lula Carvalho (Bingo: O Rei das Manhãs) conseguem capturar a emoção do boxe e a importância que ele tem pras pessoas envolvidas com eficiência.

É lógico que muito do sucesso desse último aspecto recaí sobre o ótimo elenco, exigindo um bocado a mais das interpretações de Daniel de Oliveira (Cazuza: O Tempo Não Pára) e Osmar Prado (Olga). O primeiro ignora as diferenças físicas consideráveis com o verdadeiro Eder Jofre, surge com um tanquinho que escancara a dedicação pelo personagem e carrega as diversas emoções exigidas pela história sem dificuldade. Enquanto isso, Prado encontra o papel da sua vida na figura séria, porém sonhadora, de Kid Jofre e arrepia o espectador cada vez que abre a boca para proferir algum monólogo. E, mais do que isso, o filme cresce absurdamente nas vezes em que esses dois se cruzam – seja nas figuras de pai e filho ou treinador e pupilo – para construir confrontos que misturam do amor ao ódio, da decepção a vontade insana de vencer.

São esses momentos que deixam uma escolha duvidosa muito clara: optar por colocar a maior parte do foco na relação entre Eder e Kid Jofre é possivelmente o grande acerto dos roteiristas, porque é nessa construção minuciosa de figuras icônicas que o filme guarda sua maior pérola. Unir isso com uma direção sólida e atuações tão luxuosas cria uma compensação que corrige pequenos erros de narrativa, salva um clímax que surge de maneira bizarra após alguns minutos bem tediosos e ajuda até mesmo a arrancar algumas lágrimas no final. Isso é tudo que um filme como 10 Segundos para Vencer precisa para cumprir sua proposta e ser carregado pela galera como o campeão da noite…