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Documentário chinês montado durante a quarentena, Coronation é um recorte humano da vida durante a pandemia


O grupos de WhatsApp brasileiros bombaram com teorias sobre a China durante a pandemia. Nem sei quantas milhares de vezes recebi textões falando sobre o país ter escondido os primeiros casos, criado a pandemia pra dominar o mundo ou desenvolvido uma vacina que disseminaria o comunismo.

Meu objetivo aqui não é dizer o que é verdade ou mentira (apesar de algumas serem muito óbvias), mas já comecei Coronation imaginando que o documentário seria uma boa forma de desmistificar algumas dessas conversas. Afinal de contas, estávamos falando sobre um filme que mostrava o  começo do lockdown em Wuhan.

E, por mais que o filme não seja uma obra jornalística que organize fatos sobre o começo da pandemia, parte dessa proposta é cumprida quando o diretor Ai Weiwei (Vivos) reúne relatos dos próprios moradores. Quase vlogs diários que ele separou e editou durante sua quarentena na Europa.


Aviso: Coronation pode conter muitos gatilhos em relação a pandemia e ao isolamento. Caso você ainda não esteja preparado pra ver coisas sobre o assunto, espere mais um pouco.


O longa em si é composto por relatos individuais e quase antológicos. Não conta a história de pessoas específicas através do meses de isolamento ou qualquer coisa do tipo. É uma grande montagem que busca certa pluralidade ao reunir diversos pontos de vista.

Coronation

Isso permite que Coronation acompanhe desde os primeiros médicos a enfrentar o vírus até pessoas comuns que enfrentaram desafios diversos durante a pandemia. Ou seja, mesmo sem possuir esse viés jornalístico, o documentário é um relato que percorre diversos ângulos.

Tem pessoas que perderam parentes lutam por um funeral decente. Tem um jovem construtor que precisou morar no carro graças a burocracia do governo chinês. Tem cenas fortes gravadas dentro dos hospitais. Tem curados que continuam sofrendo injustiças sociais. Tem até uma senhora que defende o Partido Comunista com os mesmos argumentos da direita brasileira.

Paralelos que ultrapassam fronteiras, e chamam a atenção justamente por isso. Faz você pensar em diversos momentos que os problemas e as soluções não mudam tanto assim de um país para o outro.

Para a geração que viveu esta pandemia, sua sombra ficará em nossos corações para sempre”

Ao mesmo tempo, por conta da proximidade com que as histórias são filmadas, Ai Weiwei trabalha com um material muito cru. E, curiosamente, o diretor opta por transmitir ele dessa maneira para o espectador. Não aposta em narrações ou qualquer outra coisa que escancare a manipulação do material.

Claro que isso não significa que Coronation é uma produção isenta ou imparcial. Existe uma construção ideológica a partir do ponto de vista dele (a escolha das imagens não é aleatória, né?), mas também rola um esforço para priorizar a voz desses personagens reais que estão no centro da tela.

Coronation

E esse realismo – junto com a pluralidade e a crueza – conversam muito com a urgência presente no longa. Ai Weiwei tem como objetivo fazer um cinema urgente que fala sobre a atualidade de maneira fresca, se alimentando de imagens referentes a uma realidade que ainda não mudou. É um filme sobre o presente, não sobre o passado.

Um país só pode ser construído às custas de inúmeros cidadãos…”

No entanto, essa construção baseada em imagens do dia-a-dia tende a criar sentimentos contrastantes. Ao mesmo tempo em que é interessante ver o ponto de vista das pessoas, falando por si mesmo com suas próprias vozes, o resultado de longos planos sem cortes por cidades vazias pode resultar numa experiência chata e cansativa. 

Em outras palavras: por um lado, é incrível ver planos aéreos que filmam as cidades vazias com uma beleza meio assustadora contrastando com histórias intimistas e humanas, filmadas com honestidade e sensibilidade. Por outro, fica aquela sensação de que faltou uma montagem mais efetiva. Um polimento que não deixasse o ritmo oscilar tanto entre as “esquetes”. 

O lado para o qual a balança vai pesar mais depende exclusivamente de cada espectador. Alguns podem achar insuportável, enquanto outros podem terminar Coronation profundamente impactados.

Eu fiquei dividido durante a sessão, porém refleti muito sobre ele depois. Fiquei muito interessado na maneira como Ai Weiwei intercala escopos, falando: “esse é o nosso mundo vazio e bizarro, mas agora vou me aproximar para contar a história sem a impessoalidade dos arranha céus vazios”. Ele enxerga vida nas pessoas, se aproximando num momento onde o afastamento é prioridade, e isso impacta com força. 


Coronation foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020


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Coronation (2020)

7

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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