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Filmes

Coringa – O melhor filme de herói dessa semana?

"Não tem punchline. Não é uma piada."


3 de outubro de 2019 - 05:05 - Flávio Pizzol

Coringa é icônico, bizarro, perturbador e muito bem embalado, mas não passaria nem perto do status de obra-prima sem Joaquin Phoenix.


Um dos grandes vilões da cultura pop, o “palhaço do crime” foi revisitado diversas vezes nos quadrinhos, na televisão e no cinema até alcançar seu auge com a premiada atuação de Heath Ledger (10 Coisas que Eu Odeio em Você) em Batman – O Cavaleiro das Trevas. Agora, depois de ver uma versão mal construída do personagem acompanhar os últimos erros da DC nas telonas, a Warner decidiu mergulhar na década de 70 e lançar seu novo selo cinematográfico através de um filme-solo realmente sombrio e realista. Isso é Coringa!

O longa, como a própria sinopse revela, conta a história de Arthur Fleck, um sujeito marcado por doenças mentais que, marginalizado pela sociedade de Gotham, faz bicos como palhaço enquanto persegue uma possível carreira de sucesso como comediante stand up. As coisas mudam de figura quando, graças ao acúmulo de problemas e risadas deslocadas, ele começa a mergulhar na sua própria solidão, usando essa tal derrocada pessoal como combustível para uma transformação bizarra e nada engraçada.

Fugindo de ser uma adaptação específica e misturando diversas referências em sua base, o roteiro – escrito pelo próprio diretor Todd Phillips (Cães de Guerra) ao lado de Scott Silver (O Vencedor) – joga essa premissa inédita na fórmula clássica dos estudos de personagem e segue o manual à risca. Ou seja, entrega um filme focado nesse homem cujo maior desejo é ser levado a sério, mostrando tudo pelo seu ponto de vista e descascando aos poucos todas as camadas que formaram sua personalidade. Tudo organizado burocraticamente por subtramas e subtextos que se amarram direitinho, enquanto abrem espaço para ironias da vida, críticas políticas assustadoramente reais e boas doses de violência.

Inclusive vale dizer que, mesmo se apoiando nessa jornada solitária e nada heroica que destoa dos longas de ação típicos do gênero, Coringa não tem medo de integrar a violência física em sua narrativa. Isso significa que a transição de Arthur Fleck para Coringa não funcionaria da mesma forma sem um pouquinho de gore. Logo, é um filme adulto, visceral e recheado de sangue que deve sim chocar muita gente, ainda que não promova tal violência como a única saída. A verdade é que o personagem-título pode ser considerado tóxico por seus atos vilanescos sem que o longa mereça a mesma classificação. É claro que incomoda ver a brutalidade ser trabalhada através de uma moral tão ambígua, porém, na minha humilde opinião, o filme como um todo consegue se manter do lado certo dessa linha tênue que se estende bem no meio de Gotham City.

Essa mistura entre um estudo de personagem e a crueldade presente na cidade resulta em um projeto que explora questões mais complexas, lança novos olhares e realmente abre possibilidades dentro do universo dos super-heróis. No entanto, também estamos falando de uma combinação que já foi vista inúmeras vezes fora dessa bolha. Dessa forma, por mais redondinho que seja, o longa não conseguem se diferenciar substancialmente de Taxi Driver, O Rei da Comédia, Rede de Intrigas e outras inúmeras produções que trouxeram as mesmas discussões de maneiras mais eficientes, transgressoras e originais. Eu não consegui abandonar a ideia, por exemplo, de que estava vendo uma imitação barata do Scorcese que não conseguiu impor sua estética autoral na hora de transformar referências em algo novo.

Em outras palavras, Todd Phillips (Se Beber, Não Case) parece um chef presunçoso que tenta misturar seus ingredientes marcantes de maneira homogênea, mas só consegue apresentar uma tigela onde azeite e água nunca se juntam com a consistência necessária. Pra sorte do público e do próprio filme, isso acaba sendo o suficiente para cumprir a proposta de Coringa e garantir que trabalho de Phillips como diretor não seja considerado tão descartável quanto suas últimas palavras sobre a comédia. Afinal de contas, ele acerta em diversas escolhas visuais e sonoras que acompanham a decadência de Arthur, incluindo vários momentos inspirados de enquadramento e iluminação, o bom proveito da estética setentista, o design de som decisivo para o funcionamento das reviravoltas e a trilha perfeitamente melancólica de Hildur Guðnadóttir (Chernobyl).

Além disso, Phillips ainda acerta no tom do longa e na direção do elenco, tendo plena noção de que estava apenas organizando o palco para Joaquin Phoenix (Maria Madalena) brilhar do jeito mais perverso, solitário e pirado possível. O resultado é um tour de force completo que inclui a subversão da risada icônica do vilão, os ossos desfigurados que só fazem sentido no terceiro ato e alguns sentimentos expressados com a força e a precisão que o Oscar gosta. Phoenix e sua entrega absoluta ao papel do Coringa carregam a produção nas costas, mas fazem isso de uma maneira tão incrível que contagiam o restante de sua trupe: Frances Conroy (American Horror Story) mistura fragilidade, segurança e loucura com perfeição; Brett Cullen (Person of Interest) adiciona camadas ambíguas à persona sempre perfeita de Thomas Wayne; e Robert De Niro (Um Senhor Estagiário) consegue disfarçar inclusive o piloto automático que vinha tomando posse de suas últimas participações.

Entretanto, apesar de ser incrível ver todas essas engrenagens em ação, o longa continua não sendo verdadeiramente diferente, e perde parte do seu impacto por conta disso. Pode até atingir com mais força aquelas pessoas que não viram Taxi Driver ou qualquer outra produção citada nesse texto construir protagonistas com a mesma profundidade de Arthur Fleck, mas, nesse caso, continua dependendo unicamente da atuação poderosa de seu ator principal para cumprir tal missão. Nada disso muda, é claro, o fato de que Coringa acumula sim inúmeros méritos e bons momentos feitos para chocar, impactar, surpreender e sacudir o cinema de heróis, porém contam como fatores limitadores dentro de uma produção um bocado presunçosa. Em outras palavras: é um bom filme. Só não tem fôlego para chegar perto do disputadíssimo status de melhor filme da história do cinema dessa semana…