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Preenchido por efeitos ruins e atuações caricatas, Convenção das Bruxas é uma aventura genérica e sem identidade


Convenção das Bruxas já assustou muita gente nas tardes da Globo (ou do SBT, talvez). A maquiagem horripilante de Anjelica Houston, a transformação nojenta das crianças em ratos e tantos outros momentos impactantes ressurgem na mente da minha geração sempre que se fala em bruxas. Isso tudo o transformou em uma espécie de cult, apesar de sua qualidade ser no mínimo duvidosa.

No entanto, o filme não continuou sendo exibido com o passar dos anos e foi esquecido. As crianças de hoje em dia não conhecem nada desse longa, então acaba sendo justificável que alguém queira produzir uma refilmagem com o objetivo de “apresentar a obra para um novo público”. É uma desculpa preguiçosa, mas que pode ser engolida com mais facilidade quando os nomes envolvidos no projeto chamam a atenção.

Afinal de contas, é fácil defender que o romance do Roald Dahl pode ser explorado de maneiras diferentes. Supor que a participação de Guillermo Del Toro e Alfonso Cuáron na produção e no roteiro podem transformá-lo em um grande filme. Ou dizer Robert Zemeckis vai entregar mais uma de suas icônicas aventuras infanto-juvenis.

Convenção das Bruxas

Foto: Divulgação

Só não é tão fácil continuar fazendo isso após o fim da sessão, porque esse novo Convenção das Bruxas é um verdadeiro fiasco. Pode ser que funcione um pouco mais pra parcela do público que nunca teve contato com o longa da minha infância, mas eu tenho sérias dúvidas. É realmente difícil defender ou justificar a maior parte das coisas que surge na tela.

E eu nem estou falando sobre a vilanização das pessoas com deficiência, porque isso passa pela trama com uma timidez absurda. Assim como acontece com o subtexto racial e qualquer outro traço de identidade que pudesse realmente diferenciar a produção da versão dirigida por Nicolas Roeg.

Estou falando, como um todo, sobre essa ausência de personalidade que carrega todo o longa pra baixo. E, da mesma forma que citei anteriormente, isso não está necessariamente conectado com as comparações ou com a típica busca por uma novidade que justificasse a refilmagem. Na real, o que falta é um diretor com vontade de fazer alguma coisa.

Inclusive, estou pensando em sugerir que a creditação de Robert Zemekis como diretor seja parte de uma grande fraude. Porque é difícil acreditar que esse Convenção das Bruxas seja dirigido pela mesma pessoa que nos entregou Náufrago, Forrest Gump, De Volta para o Futuro e até O Expresso Polar (só pra mostrar que até os erros dele são mais virtuosos do que isso aqui).

Convenção das Bruxas

Foto: Divulgação

E estou dizendo isso com uma certa dose de indignação, porque não senti nenhuma vida no longa. Passando por coincidências escancaradas, sotaques aleatórios, doenças esquecidas, atuações apáticas e efeitos mal finalizados, nada nesse filme transmite cuidado ou dedicação. É um produto preguiçoso que parece ter sido feito nas coxas por alguém desanimado ou talhado por executivos que não sabiam se queriam chocar (como a versão de Roeg) ou divertir sem compromisso.

O resultado acaba sendo uma obra perdida e sem identidade que não gera nenhuma emoção. Não diverte, não emociona, não assusta, não choca. Não faz nada, além de deixar o espectador triste e cabisbaixo. Pelo menos foi isso que eu senti a cada vez que Octavia Spencer surgia em cena, completamente deslocada e desconfortável, pra interagir com os animais de CGI menos expressivos do ano.

E deixar o público sem reação talvez seja a pior coisa que pode acontecer com um filme. Porque isso deixa aquela impressão amarga de que esse novo Convenção das Bruxas só serve pra uma coisa: comprovar o valor dos efeitos práticos. Afinal, a versão de 1990 pelo menos dava um nó no estômago, uma espécie de repulsa, com seus animatrônicos nojentos e aquelas maquiagens bizarras. Era cafona, controverso e não chegava perto de ser um grande filme, mas fazia algum esforço pra oferecer sensações ao público.

Convenção das Bruxas

Foto: Divulgação

Esse aqui é só uma aventura genérica que poderia ser classificada como uma bagunça computadorizada. Uma extravagância sem sentido cujo único poder é criar risadas involuntárias (e/ou reflexões internas sobre a necessidade de chegar ao fim) sempre que Anne Hathaway esbanja seu sotaque russo com a bocarra de CGI aberta da maneira mais tosca possível.

Estou tentado a dizer que Convenção das Bruxas não valeria o ingresso nem mesmo tempos normais. Quanto mais no meio de uma pandemia…


Convenção das Bruxas está em cartaz nos cinemas

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Convenção das Bruxas (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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2 Comments

  1. Eu acho que o filme não foi um fiasco porque entregou o que prometeu desde o início: a apresentação de um conto de terror numa abordagem satírica. Sou da geração que assistiu e vivenciou o primeiro filme e se colocar os dois lado a lado é sem dúvida de uma bizarrice enorme a produção antiga. Reproduzir a mesma maquiagem e efeitos seria sim uma abordagem preguiçosa. A nova perspectiva deu um ar diferente pra história e trouxe pra uma realidade atual. Achei divertido, cativante e que entretém do início ao fim na forma como o gênero se propõe.

    1. Que bom que funcionou pra você. Infelizmente, comigo não rolou por causa do CGI meia-boca, por causa do personagens e tudo mais que falei no texto.

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