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Produzido na Europa, Colômbia Era Nossa é um documentário político, completo e meio impessoal


Dezembro de 2016.

O governo colombiano, liderado pelo presidente Juan Manuel Santos (que venceria o prêmio Nobel da Paz por conta desse momento), assina uma acordo de paz com a FARC. A conclusão de um longo processo que busca, em teoria, encerrar os confrontos entre o governo e uma das maiores guerrilhas da América Latina.

Colômbia Era Nossa – dirigido por Jenni Kivistö e Jussi Rastas – acompanha justamente o desenrolar desse acordo, focando no processo de transição e nas consequências diretas de sua assinatura em todos os âmbitos políticos.

Um trabalho dinâmico e completo, mas feito de maneira bem padronizada. O longa não foge de ser uma grande montagem jornalística que reúne entrevistas de pessoas importantes dos mais diversos lados políticos, sociais ou econômicos. No entanto, preciso admitir que gosto da maneira como ele usa isso para pregar que tudo possui outro lado. Nenhuma história é unilateral.

Colômbia Era Nossa

Foto: Jussi Rastas

Com isso, Colômbia Era Nossa se torna um bom exercício sobre não parar na superfície das coisas. As Farc, por exemplo, é uma associação criminosa que cometeu muito crimes, mas também tem outras camadas. Por mais que não consigam equilibrar a balança, elas existem e tomam conta da tela.

Da mesma forma, quem está do outro lado político também possui camadas e interesses muito particulares. Desejos que colocam em cheque até mesmo a guerra contra as drogas. Algo facilmente defensável que pode começar a não parecer tão legal, se você tem empatia suficiente pra entender o lado dos pobres trabalhadores que dependem da colheita de coca para viver.

Precisa de mais algum exemplo?

Pegue o próprio acordo de paz.  Uma solução merecedora de aplausos que pode perder o favoritismo entre aqueles que entendem o principal: assinar um documento não é o fim. Poderia ser para o presidente, mas para a oposição significava se adaptar, viver com medo da morte, enfrentar diversos obstáculos e talvez continuar longe da paz quatro anos depois.

Colômbia Era Nossa

Foto: Jussi Rastas

Eu já morei alguns meses no sul da Colômbia (região mais afetada pelas Farc) e nunca vi os rebeldes surgirem como tema. Mas isso é, ao contrário do que se pode pensar, muito ruim, porque mostra como o assunto precisa se esforçar para ganhar as mídias ou a boca do povo.

E digo isso porque também gosto de ver Kivistö e Rastas trazerem tudo à tona, escancarando as engrenagens de um movimento de direita que se retroalimenta dessa violência. Que usa a guerra como tópico principal, logo se recusa a vê-la acabar, e defende isso com uma série de argumentos genéricos que se parecem muito com os discursos de Trump e Bolsonaro. Algo que só acontece por acaso, é lógico…

No fim das contas, o mais importante é ver Colômbia Era Nossa fazer um convite a reflexões desse tipo, enquanto satiriza a soberba dos ricos e se aproxima da vida dos ativistas mais simples. Tudo com uma montagem ágil e, apesar das repetições, merecedora de atenção.

Colômbia Era Nossa

Foto: Jussi Rastas

Porém não poderia terminar o texto sem dizer que senti falta de uma identidade mais colombiana. Por mais próxima que a câmera esteja dos personagens estudados, ainda existe uma impessoalidade típica de “jornalistas em busca de uma história”. Entendo que esse afastamento ajuda a escolher as histórias e filtrar certas informações sem se preocupar com o fator emocional, mas deixa tudo meio genérico e pasteurizado.

E é isso que Colômbia Era Nossa acaba sendo quando os créditos sobem: um relato político completo e corajoso, mas levemente impessoal.


Colômbia Era Nossa foi conferido na Mostra de São Paulo 2020

 

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Colômbia Era Nossa (2020)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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