AODISSEIA
Especial

Cinema: ser ou não ser, eis a questão?

O que é mais importante: a linguagem ou o meio de exibição?


12 de abril de 2019 - 18:40 - Flávio Pizzol

Os trending topics mudam com uma velocidade avassaladora, mas alguns assuntos sempre acabam se repetindo no universo da cultura pop. São aquelas modinhas que todo mundo insiste em trazer à tona de tempos em tempos, mesmo não adicionando nada de relevante ao pacote. Atualmente, a nova onda do imperador parece ser, por motivos que eu não compreendo, falar que a Netflix ou qualquer outro serviço de streaming não faz cinema.

Entre diretores importantes, jornalistas “especializados” e consumidores normais, todo mundo já deu um ou outro pitaco negativo em relação a isso e deixou seu nome gravado numa lista que não deve diminuir por agora. Uma lista gigantesca que revela como uma parte considerável da indústria em geral tem assumido posições de resistência em relação aos serviços em questão, se contrapondo até mesmo a outros nomes de peso que decidiram deixar o preciosismo de lado para abraçar as oportunidades que estavam (e ainda estão) se abrindo no mercado.

Dentro desse universo cheio de contrastes, é natural que cada pronunciamento ou notícia de ambos os lados coloque um pouco mais de lenha na fogueira, amplie a discussão e gere novas reflexões. Se dermos sorte, alguém pode falar algo que se destaque no meio tantas opiniões descartáveis. E, nesse caso, eu sou obrigado a admitir que, mesmo não concordando com tudo que ele fala, o crítico Pablo Villaça conseguiu lançar uma luz bem interessante sobre uma conversa que tem sido marcada por um conservadorismo vazio em relação a argumentos palpáveis.

As palavras dele se misturaram com uma discussão no Twitter, me fizeram lembrar de alguns artigos da época de faculdade e, por fim, acenderam a vontade de escrever esse texto com o objetivo de ampliar uma parte específica da discussão: nesse tipo de classificação, a linguagem utilizada pela obra deveria ser muito mais importante do que a plataforma em que a mesma é exibida. E, por mais banal que isso possa parecer, usar essa abordagem como ponto de partida pode ajudar a estabelecer alguns save points na discussão, impedindo que a linha de raciocínio retroceda sem nenhuma necessidade.

Entretanto, antes de falar sobre a questão da linguagem, é necessário lembrar que a nossa sociedade está atravessando um momento de grandes transformações tecnológicas e midiáticas. Um período de transição influenciado basicamente pelo crescimento da cultura digital. Um ciclo que, segundo Jenkins (2009), tem como principais características: a convergência entre mídias, a interatividade exercida através das redes sociais, o comportamento migratório de um consumidor cada vez mais ativo e barulhento em suas escolhas e a alteração de certas divisões ou categorias que ditavam as regras anteriormente.

Classificado pelo próprio Jenkins (2009) como cultura de convergência, esse movimento gera uma indiscutível e imparável onda de” transformação tanto na forma de produzir quanto na forma de consumir os meios de comunicação” (JENKINS, 2009, p. 22). E não é nenhuma coincidência que os serviços de streaming estejam no olho do furacão, porque todas essas empresas evoluíram junto com os seus consumidores até encontrar seu lugar como um produtor de conteúdo que entende a importância repensar as formas de conversar com a audiência. É nessa toada que a Netflix deixou de ser uma locadora à distância para fazer televisão e cinema (e games, se levarmos em conta os programas interativos) sem ser estritamente nenhum deles.

É lógico que essa bagunça possui todos os ingredientes pra embaralhar a mente de muita gente. O contato com autores como Henry Jenkins e Rogério Covaleski na faculdade ajudou a abrir minha mente, mas é um fato que nem todo mundo consegue enxergar as especificidades desse universo marcado pela cultura colaborativa, pelo engajamento e por outros elementos detalhados por Rabelo (2018). Mas calma: isso é mais uma constatação do que uma depreciação. A questão é que nós – seres humanos – crescemos condicionados a colocar tudo em caixinhas pré-estabelecidas e bastante limitadoras. Dessa forma, nos acostumamos a enxergar, até hoje, a televisão, o rádio ou o cinema como meios físicos, esquecendo que já podemos acessar qualquer um deles através do celular ou do computador.

No entanto, a cultura de convergência é muito mais do que “um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos” (JENKINS, 2009, p. 29). Ela altera as relações entre tecnologias, produtores de conteúdo e consumidores em níveis que permitem que a mesma seja caracterizada como transformação cultural. E é exatamente por isso que o ideal é desapegar um pouquinho (talvez a indiferença completa seja drástica demais) dessas definições e, como o Villaça falou, pensar mais pelo lado da linguagem.

Roma acaba sendo o exemplo mais óbvio nesse caso, visto que o filme, apesar de ser uma produção da Netflix, possui uma linguagem cinematográfica tão rica que alcançou vitórias expressivas no Oscar. Mas eu entendo que muita gente ache esse exemplo muito bobo ou básico demais. Diante disso, basta pensar em Estrada Sem Lei, Beasts of No Nation e tantas outras produções similares. Podemos até expandir a discussão pra Amazon (que aparentemente sofre uma aversão menor que sua concorrente vermelha) e lembrar de longas como Manchester à Beira-Mar. Esse último, inclusive, é uma produção que, assim como Roma, foi financiada pelo streaming e exibida nos cinemas só para validar sua candidatura ao Oscar.

O fato do filme da Amazon ter enfrentado menos resistência em relação aos votantes do que a produção de Alfonso Cuáron é algo a ser notado, mas não vai passar de uma curiosidade reflexiva nesse texto. O que importa pra gente hoje é que, no curioso caso dos serviços de streaming, o longa chegar no Oscar, ser exibido em salas escuras ou ficar restrito aos aparelhos “caseiros” interfere muito pouco – ou quase nada – no processo de construção da linguagem do mesmo. Isso é definido bem antes do lançamento efetivo do filme e depende muito mais dos responsáveis pela produção, do diretor e da grana investida do que das plataformas de exibição. Até mesmo os mal falados longas produzidos exclusivamente para a televisão (algo muito comum nos EUA) estão ganhando novas roupagens em canais fechados, como a HBO, e comprovando que essa relação entre obras “televisivas” e pobreza de produção não passa de uma herança injusta deixada por filmes que realmente aproveitavam o formato pra gerar conteúdo sem gastar dinheiro ou se preocupar com certos detalhes que fazem total diferença na experiência.

Entretanto, por mais que essas características não façam com que tais longas sejam necessariamente piores, é importante ressaltar que isso acontecia com mais frequência em uma época onde os consumidores não influenciavam tanto as decisões dos estúdios e canais. Agora o cenário é outro, os espectadores realmente ganharam poder de escolha e as possibilidades são muito maiores, movimentando inclusive a compra de produtos de terceiros para distribuição mundial. A Netflix faz isso com muita frequência e pensar nas obras que passam por esse processo abre espaço para outro tipo de exemplo que também casa com nossa discussão central: filmes lançados nos cinemas americanos deixam de ser peças cinematográficas ao serem comprados por um serviço de streaming e exibidos de maneira diferente no resto do mundo?

Caso você esteja pensando demais nas possibilidades, a resposta é não. Nenhum deles deixa de ser “cinema”, porque todos foram produzidos a partir da linguagem cinematográfica com o objetivo primário de se encaixar nessa classificação. A única coisa que acontece é que esses filmes – muitas vezes independentes – ganham a possibilidade de serem acessados e experimentados por uma quantidade muito maior de consumidores. E, coincidentemente ou não, esse é exatamente o caso do recente A Loja de Unicórnios, longa que marca a estréia de Brie Larson (Capitã Marvel) como diretora. A produção de baixo-custo foi produzida em 2017 e, mesmo com o nome de uma vencedora do Oscar por trás, ficou restrita a um circuito de festivais que quase nunca alcança o grande público. Algo que, independente dele ser bom ou ruim, finalmente vai acontecer graças as possibilidades abertas pela cultura de convergência.

E, se a quantidade de exemplos ainda não for suficiente, também podemos falar sobre a nova produção do grande Martin Scorcese: The Irishman. O longa (que ficou em fase de desenvolvimento por muito tempo) foi pensado para ser lançado no cinema, mas sempre tropeçava em grandes problemas envolvendo seu orçamento alto. O elenco estrelar, a quantidade de maquiagem e efeitos digitais que seriam usados no rejuvenescimento dos protagonistas e a alta classificação etária tornavam o projeto inviável até a Netflix entrar como produtora principal. Não li nenhuma entrevista recente do diretor para falar sobre seu sentimento após a produção, porém, concordando ou não com o modelo de negócios da Netflix, o importante é que ele abraçou as possibilidades do mercado com o objetivo de lançar uma obra que, independente da plataforma, nasceu com o vocabulário cinematográfico no seu cerne.

Todavia, no caso da maioria dos serviços de streaming, todo esse contexto fica restito aos filmes. Afinal, quando se fala de séries, eles assumem sua já citada postura como produtora de conteúdo para a televisão com uma diferença perceptível. Claro que algumas peças recebem dinheiro e atenção suficientes para fugir da regra, mas boa parte mantém um nível de produção próximo do que é produzido pela televisão aberta americana. Repito que isso não é necessariamente ruim, só é diferente dos filmes e precisa ser interpretado como tal. É indiscutível, por exemplo, que as séries de heróis produzidas em parceria com a Marvel se aproximam mais da linguagem de Agents of S.H.I.E.L.D do que de Vingadores – Ultimato. Lógico que parte disso recai sobre o orçamento infinitamente menor, mas a questão do planejamento também é decisiva. Em outras palavras, os responsáveis pelo projeto sabem das suas limitações e escolhem usar a linguagem audiovisual de maneira mais simples, evitando elementos como um plano extremamente aberto cheio de detalhes.

Entender as particularidades que “separam” tais conteúdos da Netflix é importante para entender esse aspecto da linguagem, mas, como sempre, não chega nem perto de esgotar a questão. E eu digo isso, porque o vocabulário cinematográfico pode ser facilmente identificado em diversas séries de televisão fora do streaming, subvertendo a sugestão de que uma produção deve mais simples por conta do meio ou do formato. Isso significa que a Netflix escolhe, desde o princípio, dar uma cara mais “televisiva” para suas séries (possivelmente pra criar essa distinção com o cinema internamente), mas o formato em si pode seguir o mesmo caminho da linguagem. Ou seja, não ficar preso 100% do tempo a nenhum estilo, construção narrativa ou meio de exibição.

Um exemplo que pode ajudar a entender isso é Game of Thrones. A série possui suas peculiaridades por ser produzida por um canal fechado, ter um orçamento fora da curva e se adequar a um modelo de negócio diferente do que estávamos discutindo até aqui, porém deixa claro que uma série feita com exclusividade para a telinha pode beber mais da fonte cinematográfica do que da televisiva. Mais do que isso, com exceção de algumas comédias, a maioria das séries da HBO mistura esses dois universos com brilhantismo, deixando as separações ainda mais tênues. Eu não me incomodaria se produções como GoT, Big Little Lies ou Sharp Objects fossem exibidas no cinema, assim como não teria problema em ver um longa – para a TV – sensível e bonito como The Normal Heart sendo indicado ao Oscar. Seria até mesmo justo e coerente, considerando tanto a convergência midiática, quanto o fato de que diversos filmes feitos “só para o cinema” usam a linguagem cinematográfica de maneira muito inferior ao longa de Ryan Murphy.

A aceitação dessa ideia de que filmes podem ser cinematográficos, mesmo quando são produzidos com o objetivo de passarem na televisão, seria uma decisão muito importante dentro desse momento de transição. Eu entendo que deve ser um passo grande demais para os velhos brancos da Academia que tem dificuldade para abraçar até mesmo gêneros que nem fogem tanto assim de suas regras idosas, porém também penso que estamos diante de um movimento inevitável que subiu degraus valiosos com as quatro estatuetas de Roma. A tendência é que isso continue e ganhe mais força com o passar dos anos, porque é certo que a convergência midiática e suas mudanças de conceito não irão nos abandonar tão cedo. Podem ficar tranquilos que nenhum meio de comunicação vai deixar de existir nesse processo (falam que o rádio vai morrer desde o surgimento da TV e nada…), mas as denominações tem tudo pra evoluir e destruir definitivamente aquelas caixinhas pré-estabelecidas que eu citei há pouco.

Eu concordo que a Netflix, a Amazon ou qualquer outro serviço do tipo nunca conseguirá reproduzir a experiência coletiva que acompanha a projeção de um filme na sala escura, mas também é importante refletir que tal experiência mudou com a cultura digital e suas telas iluminadas. Por mais que ver algo dentro de uma sala de cinema lotada – vide as estreias na CCXP – ainda tenha uma magia particular, eu acredito que essa sensação por si só não justifica as inúmeras tentativas de diminuir produções que surgem através de outras plataformas. O cinema como espaço físico vai continuar existindo (talvez com algumas regras diferentes, mas nada além disso), enquanto os serviços de streaming crescerão como uma opção que alcança mais consumidores com produtos diversos que englobam documentários, narrativas interativas, séries de TV, cinema e muito mais. Não é utopia tão grande pensar que ambos podem sim coexistir em um mesmo universo.

No fim das contas, a moral da história é os opositores desses avanços são aquelas pessoas que, como disse um professor em seu livro sobre criatividade, costumam falar pros outros não inventarem moda “a fim de persuadir os colegas a ‘ficarem na sua’ e deixarem tudo do jeito que está” (MAZZEI, 2016, p. 37). Mas a verdade é que a moda já foi inventada e as mudanças continuarão acontecendo com ou sem o aval deles, permitindo que aqueles produtores de conteúdo que pensam fora da caixa saiam um bocado na frente. Seguindo esses mesmos passos, nós – como bons consumidores ativos – podemos entrar nessa onda aceitando, entre outras coisas, que a maior parte do conteúdo midiático produzido nos próximos anos talvez não se enquadre nas classificações pré-existentes. E, para nossa sorte, a boa notícia é que eles podem ser apreciados mesmo assim…


OBS 1: Tenho que direcionar um agradecimento especial ao Leandro, porque foi um questionamento dele no Twitter que me deu a ideia desse texto.

OBS 2: Isso não é uma carta em defesa da Netflix como empresa, porque ela também toma decisões idiotas, como cancelar One Day at Time. Seu nome aparece tantas vezes no texto por ser mais fácil usá-la como elemento central de uma discussão que se encaixa com todos os outros serviços de streaming que investem em TV e cinema.

OBS 3: Não acho que esse texto é uma opinião única e superior que esgota a discussão. É só um ponto da vista que surgiu a partir dos meus aprendizados na faculdade. Dessa forma, argumentos contrários serão muito bem-vindos.


Referências Bibliográficas

COVALESKI, Rogério. Cinema e publicidade – intertextos e hibridismos. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.

JENKINS, Henry. Introdução. In:_______. Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e novos meios de comunicação. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009. 27-53.

MAZZEI, Victor. Criatividade: o que inspira as suas ideias?. Curitiba: CRV, 2016.

RABELO, Cláudio. Faixa preta em publicidade e propaganda: um guia com os novos conceitos, contextos e ferramentas. Vitória: GSA, 2018.

VILLAÇA, Pablo. Tweet disponibilizado em 02 abr. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 04 abr. 2019.