AODISSEIA
Especial

E o cinema democrático do ENEM?

Algumas palavras sobre o ótimo tema escolhido para a redação do ENEM 2019.


4 de novembro de 2019 - 19:32 - Flávio Pizzol

Graças a um tema inesperado e bastante abrangente, chegou a hora de falarmos um pouquinho sobre cinema democrático no ENEM.


Eis que, no meio desse domingo um tanto quanto parado, ficamos sabendo com alguma surpresa que a redação ENEM 2019 seria sobre a democratização do acesso ao cinema no Brasil. Um tema inesperado que, apesar das discussões geradas em um ano onde Vingadores ocupou todas as salas e Bacurau “viralizou” com uma força impressionante, não parece ter sido tratado como um dos possíveis candidatos nos famigerados cursinhos, pegando muita gente desprevenida e despreparada.

Isso já faria com que a gente escrevesse algo sobre a questão em algum momento, mas o fato de tantas pessoas (incluindo professores que vivem em alguma bolha) estarem falando que o tema é irrelevante ou politicamente neutro torna essa conversa extremamente necessária. Para isso, vamos fazer uma pequena divisão e prosseguir com muita calma.

Os textos motivadores

Assim que o tema foi revelado, a primeira coisa que preencheu pela minha cabeça foi uma enorme curiosidade em relação aos textos usados como base para o desenvolvimento da questão. Como estamos falando sobre um tema muito amplo e pouco discutido entre a população em geral, os trechos escolhidos para “ilustrar” a proposta de redação seriam essenciais para o direcionamento esperado pelos desenvolvedores da prova. Principalmente porque muita gente acaba usando tais textos como verdadeiras bases para os argumentos que ocuparão seus respectivos textos.

E, como era mais do que esperado, a prova escolheu a rota mais segura, ignorando qualquer elemento relacionado com o acesso à produção cinematográfica e a importância da tão criticada Ancine nesse jogo todo. Em outras palavras, os textos motivadores não fizeram nada além de conceituar o cinema academicamente, citando autores do porte de Jean-Claude Bernardet (foto acima), e colocar alguns dados relacionados com a quantidade de salas existentes ou a ida dos brasileiros ao cinema. Aspectos importantes e corretos que – infelizmente ou não – conduziam o estudante para caminhos bem simples e diretos.

As possíveis “respostas” do Enem

Querendo ou não, uma linha de argumentação natural e bastante óbvia está sim ligada ao preço dos ingressos e a elitização do cinema. Eu sei que parece algo muito superficial e simplório quando se fala desse jeito, mas os próprios motivadores direcionam o aluno para esse caminho quando cita a estagnação do número de salas de e sua concentração em centros urbanos ou quando fala que apenas 17% dos brasileiros costuma frequentar algum cinema. Dois dados que refletem a situação de um país em que suas poucas salas estão concentradas em pontos específicos das regiões Sudeste e Centro-Oeste, enquanto as regiões Norte e Nordeste tem pouquíssimo acesso ao recurso em questão.

Muita gente torceu o nariz pra ideia da galera falando sobre não ter dinheiro pra ver Vingadores, mas esse lado da discussão ganha peso quando, fugindo dos aspectos geográficos, se usa ele pra pensar em segregação da cultura através das classes sociais. Principalmente porque estamos indo além de um jeito mais chique de falar que pobre não consegue ir ao cinema. Estamos usando o cinema para falar sobre acesso a cultura e aí não interessa se estamos falando de blockbuster ou filme independente, apesar do último ter um acesso ainda mais restrito.

Ao expandir a discussão dessa forma, o candidato poderia inclusive trocar os dados simplórios apresentados pelo Enem por outros mais profundos. Você sabia, por exemplo, que mais da metade da população negra de São Paulo nunca foi ao cinema? Essa é uma realidade que, mesmo sem conhecimento dos números exatos, está estampada nas ruas do país, nas redes sociais e em inúmeras matérias produzidas pela imprensa. Uma realidade que pode ser ainda mais assustadora, se levarmos em conta que estamos falando de uma cidade que há dois anos abrigava um terço das salas do país.

Concordo que nem todo candidato sabe esses dados específicos de cabeça, mas ninguém precisava do número exato para dar o pontapé em algo tão evidente. Quem não conseguiu pensar nisso tem que ser muito alienado ou privilegiado, afinal de esse é o aspecto da discussão que todo mundo – incluindo a grande quantidade de alunos que nunca pisou em um cinema – teria condição de desenvolver, mesmo que seguisse a trilha mais direta que falasse somente sobre o preço absurdo dos ingressos. Só não enxerga pelo menos a fagulha dessa discussão sobre DESIGUALDADE SOCIAL quem escolhe ignorar a sociedade onde vive, jogando toda a empatia no lixo do cinema que visita toda semana.

Eu entendo que muitos candidatos podem ter parado sua linha de raciocínio nesse ponto e não vou julgar isso porque meu objetivo nesse momento não é dizer quem teria capacidade de falar sobre o que, porém preciso dizer que seria plenamente possível ampliar a discussão para provar o quanto o quão amplo pode ser esse tema escolhido pelo Enem. Tudo que os estudantes precisariam fazer era comentar um pouquinho sobre a importância de todos terem acesso à cultura em geral, seguindo os artigos da nossa própria Constituição que falam justamente que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.

Intimamente conectado com a elitização do cinema quando se reflete sobre as sessões gratuitas que raramente acontecem e tantas outras coisas, esse seria o início de uma discussão que poderia abordar, por exemplo, as políticas culturais a nível municipal, estadual ou nacional. Uma conversa que poderia ser expandida até mesmo para o acesso precário de deficientes ao cinema, abordando desde a ausência de rampas em salas até a quantidade inexpressiva de sessões voltadas para espectadores cegos ou surdos. Questionamentos reais que fazem parte do nosso mundo e estão disponíveis sem nenhum barreira para qualquer pessoa pesquisar, entender e amarrar com o começo proposto há alguns parágrafos.

Contando com inúmeras citações a exibição de Bacurau na pequena cidade de Barra, os candidatos mais antenados que fossem até esse ponto já teriam um texto bem interessante dentro do que foi proposto pelo Enem. No entanto, você pode também fazer parte de uma parcela ainda mais politizada da população e ir além, conectando tudo isso que foi falado até aqui com um último tópico: a Ancine.

Eu entendo que isso pode ser pouco referenciado graças tanto a falta de um percepção mais industrial do cinema, quanto ao medo de possíveis atitudes de censura. Só que, apesar de ambas possibilidades terem um pé na realidade, vamos focar primeiro no fato de que muita gente realmente não enxerga o cinema como uma industria que depende sua linha de produção para funcionar. Logo, em termos gerais, mexer com a Ancine ou com qualquer outra lei de incentivo também influencia nesse acesso democrático ao cinema. A tão criticada Lei Rouanet, por exemplo, possui alguns artigos que falam sobre a construção de novas salas, possibilitando que a demonização da mesma por motivação puramente ideológica também entrasse nas redações do Enem sem desviar do tema em nenhum momento.

Isso sem contar que, seguindo esse mesmo processo de encaixe, os candidatos ainda poderia falar sobre as dificuldades que os produtores de conteúdo enfrentam no Brasil, as narrativas censuradas e até mesmo sobre o sistema de distribuição que limita muitos filmes a pouquíssimas sessões quando a disputa é contra os grandes blockbusters. Tudo sem sair desse pacote que poderia ser classificado como educação cultural. E a única exigência seria, teoricamente, entender que o assunto girava exclusivamente em torno da ausência de cultura como uma realidade que atinge a maioria do país. O cinema é apenas uma parte desse pacote que conquistou aos poucos sua relevância como parte do imaginário de uma nação, sendo usado tanto como ferramenta de conscientização quanto como fonte de publicidade para governos ditatoriais.

É possível que o saneamento básico ou o desmatamento sejam temas mais importantes do que esse se focarmos nossa atenção nas atualidades ou pensarmos apenas à curto prazo, mas você (você mesmo que criticou as escolha do Enem) já parou pra pensar em como seria viver em um país sem cultura. Provavelmente não, porque um país sem cultura some do mapa. Um país sem cultura não tem liberdade ou soberania. Um país sem cultura – ou que não investe em tal agenda – é facilmente dominado ou manipulado sem nenhuma resistência. E o fato de que muita gente no topo da nossa “cadeia alimentar” parece desejar esse domínio é o que mais incomoda e nos leva ao próximo tópico deste texto.

A intenções do governo

Tudo que foi dito no tópico acima demonstrou com todas as letras a relevância política incontestável do tema escolhido pelo Enem, e é justamente por isso que nós precisamos fazer um questionamento essencial: será que um governo que ataca de maneira tão franca as instituições ligadas ao cinema por pura ideologia (como foi falado no podcast sobre censura) está realmente preocupado com a democratização do acesso? No meio dessa briga entre extremos que dominou o país, quais motivos podem estar por trás da escolha desse tema?

Por mais que eu não tenha qualquer certeza sobre isso, é possível pensar em algumas possibilidades: a) pagar de “isentão”; b) facilitar a localização de opiniões contrárias; c) priorizar o acesso da elite. Admito que algumas dessas possibilidades pode ter algumas características de teoria da conspiração, vamos conversar com calma sobre cada uma delas para ver onde chegamos.

A primeira opção, por exemplo, surgiu justamente por causa do número de pessoas listando outros temas que seriam – em teoria – mais relevantes do que a democratização do cinema. Algumas sugestões passavam dos limites quando diziam que a redação poderia ter sido sobre o incêndio em Notre Dame, mas outros perfis ligavam as minhas engrenagens cerebrais ao citar coisas como os protestos anti-vacina, as queimadas na Amazônia ou a ascensão das milicias no Rio de Janeiro. Não tenho nada contra tais propostas e até as considero relevantes, mas alguém realmente foi ingênuo o suficiente pra acreditar que o governo ia sugerir propostas que batessem tão de frente com as polêmicas da família Bolsonaro?

Eu sei que defendi pouco tempo atrás que o tema escolhido também bate (e muito) nas decisões recentes do governo, mas a democratização do cinema também possui características que permitem uma sugestão de isenção que, no final das contas, foi comprovada pelas pessoas que chamaram o tema de politicamente neutro. Estamos falando sobre um tema atual amplo e importante, mas precisamos lembrar que ele não está ligado apenas ao governo Bolsonaro como as milícias. É um tema que precisa de mais raciocínio para se enquadrar em alguma crítica. Algo mais difícil (e melhor para a avaliação) do que simplesmente abrir espaço para a cópia de acusações feitas na internet, como aconteceria se o Enem propusesse qualquer um dos temas citados acima.

Outra possibilidade é que o governo esteja dois passos a frente da população, enxergando esse tema como uma possibilidade de separar o joio do trigo sem muito esforço. Em outras palavras, tal temática foi escolhida na ideia do governo usar a correção das provas para localizar opiniões diversas, tachar como esquerdista todo mundo que citar a Ancine ou bater nas decisões recentes, e punir tais candidatos com uma nota que dificulte sua ingressão na faculdade.

Ou quem sabe a ideia seja realmente criar um sistema de escolha onde quem tem acesso ao cinema (ou seja, elite) pode fazer uma redação melhor e sair na frente dos outros candidatos. Gostando ou não, foi nisso que eu pensei quando vi uma pedagoga falando que jovens da zona rural seriam prejudicados porque não sabem nem o que é cinema. Apesar de defender que parte desse dilema poderia ser resolvido pelo simples ato de ler ou participar de discussões que estão “em alta”, eu também entendo o que ela quis dizer com suas palavras. Mas será que não era exatamente isso que o governo queria: deixar os mais pobres em desvantagem?

Antes que alguém critique meus devaneios, eu quero dizer que realmente espero estar errado. Eu espero que isso tudo seja uma grande viagem dessa mente que não confia em políticos e que o tema tenha sido escolhido por motivos éticos e nobres. No entanto, não podemos negar que existe algo errado sendo comprovado pela ausência completa da ditadura como tema de discussão em pelo menos uma questão de história. Logo, eu sou obrigado a admitir que tenho sim medo das decisões tomadas por um governo que falou em demissão de opositores, criticou quase todas as políticas de inclusão, atacou pilares importantes para o país desde sua entrada e gritou sem pudor que iria selecionar as questões do Enem antes da aplicação desse ano. Peço desculpas, mas eu desconfio bastante desse governo que, apesar do tema escolhido, parece estar interessado em aumentar cada vez mais a falta de democratização na cultura, na ciência e na educação.


OBS 1: Um agradecimento especial aos amigos Will Weber, Léo Vais e Luiz Henrique Lorenzoni. As discussões que tive com os três após a divulgação do tema construíram esse texto de maneiras diretas e indiretas.