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Lançado internacionalmente pela Netflix, Cidade Pássaro é uma história sobre família impulsionada pela beleza magnética de São Paulo


Cidade Pássaro estreou oficialmente na Mostra Panorama do Festival de Berlim. Com os elogios de uma parcela da crítica, o longa chamou a atenção da Netflix África. Esta, por sua vez, propôs que o serviço de streaming comprasse a distribuição mundial.

O negócio foi fechado, mas teve um problema: no momento da assinatura do contrato, a Ancine ainda não tinha definido que os filmes poderiam ter estreias fora dos cinemas durante a pandemia. Com isso, o Brasil precisou ficar de fora do acordo, vendo de longe nossa produção ganhar espaço em 190 países.

Por mais que a demora das nossas instituições tenha afastado Cidade Pássaro dos espectadores nacionais, sua presença na Netflix é uma boa notícia. Principalmente porque estamos falando de um filme difícil de distribuir, seja por conta da mistura de línguas ou do formato de tela reduzido que já faz muita gente revirar os olhos (erroneamente) antes de começar a sessão.

Cidade Pássaro

É com muita tristeza que eu chuto que, aqui no Brasil, ele não ficaria muito tempo nas salas grandes. Talvez nem estrearia por ser uma vítima perfeita para a nossa síndrome de vira-lata.

Mas a verdade é que todas as escolhas estéticas citadas até aqui conversam muito bem com um filme que fala sobre confusão e incertezas. Não é à toa que o protagonista vive encarando o vazio, perdido entre as ruas ou entre as diversas línguas que compõem a cidade.

Afinal de contas, Amadi (O.C. Ukeje, um astro de Nollywood) é apenas mais um estrangeiro andando pelas ruas lotadas de São Paulo. Ele chega ao Brasil com o objetivo de localizar o irmão Ikenna (Chukwudi Iwuji, de Olhos que Condenam), mas descobre que toda a vida contada pelo irmão era uma farsa. Com esse mistério em mãos, ele acaba ficando ainda mais perdido do que pensava estar.

Cidade Pássaro

Porém, curiosamente, Cidade Pássaro é um filme sobre se encontrar. Tanto que Matias Mariani (em seu primeiro longa fictício) filma a cidade de maneira controlada e quase simétrica. Junto com o formato de tela que mantém tudo insistentemente emoldurado, ele parece estar dizendo sobre o que é a sua obra desde os instantes iniciais.

Só que eu não posso elogiar Mariani sem falar sobre a direção de fotografia comandada por Leo Bittencourt (Ana. Sem Título). Seu trabalho nos oferece as melhores imagens já feitas de São Paulo, traduzindo para as telas sua beleza, sua vastidão e sua impessoalidade. Elementos importantes para um filme que transforma a capital paulista em personagem.

Nesse ponto, quem não viu o longa ainda pode acabar se perguntando: “Mas o filme sobre o Amadi ou sobre São Paulo?”

Cidade Pássaro

Ambos. Eu acredito que esses dois lados caminham juntos de uma forma muito orgânica. Afinal de contas, o protagonista conhece (e se apaixona) a cidade durante a busca pelo irmão. Cada canto é uma pista, cada grupo de pessoas atravessando a passarela é uma possibilidade de completar tal objetivo.

Claro que tudo isso é desenvolvido sem nenhuma linearidade, tecendo sugestões místicas, questionando o desenrolar do tempo e abrindo espaço para várias interpretações. É possível, se você quiser, enxergar Cidade Pássaro até mesmo como uma ficção científica anti-Nolan. Daquelas que faz milhares de perguntas sem confirmar as respostas.

Entendo que essa parte incomoda e pode afastar uma grande parcela do público, mas a maneira como o desenvolvimento de Amadi dentro dessa espécie de jornada do herói se cruza com a cidade faz quase todos os minutos da sessão valerem a pena.

Cidade Pássaro

Principalmente pela forma como, no final das contas, ele acaba se perdendo novamente. Se encontra como ser humano, libertado das amarras da família para voar pela Cidade Pássaro, mas se torna apenas mais um imigrante perdido pelas ruas da maior metrópole brasileira. E eu acho, como brasileiro, que essa possibilidade de forjar encontros e desencontros talvez seja a grande magia – contraditória, é claro – de São Paulo.


Cidade pássaro foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Cidade Pássaro (2020)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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