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Impactante e poderoso, Chico Rei Entre Nós é uma viagem pela exclusão dos negros na história do Brasil


Segundo as histórias, Chico Rei é um escravo que conseguiu não só se libertar, como ascender na sociedade de Ouro Preto em um período onde isso era considerado impossível. Por motivos óbvios e justos, essa conquista o transformou em uma figura mítica. Um verdadeiro rei entre os negros do país inteiro.

É a partir da história – real ou inventada, não se sabe ao certo – desse homem tão celebrado, que Chico Rei Entre Nós faz uma reconstrução histórica da escravidão no Brasil. Um olhar para o passado que trata a história de forma cíclica e já nasce com um pé no presente, mostrando paralelamente como a realidade mudou muito pouco.

É uma experiência engrandecedora, mas, antes de continuar falando sobre ela, preciso deixar uma coisa clara: o longa de Joyce Prado equilibra muito bem informação e emoção, porém, como um homem branco, eu acabei aproveitando mais o lado racional da narrativa. Senti uma dose gigantesca de empatia, mas acabei encarando Chico Rei Entre Nós como uma belíssima aula de história cujo intuito é mostrar o apagamento do negro. Um processo de exclusão contínuo que acontece desde os primórdios da nossa existência como país.

Chico Rei Entre Nós

Foto: Divulgação

Existem algumas frases icônicas que deixam isso claro. Um exemplo é o guia de uma mina, explicando como papéis e documentos foram queimados para que aquela história não fosse contada (fato comprovado com alguém que visitou uma mina com guias brancos). No entanto acho que toda a sequência sobre o centro de São Paulo, falando sobre ruas e pontos turísticos onde é possível notar essa exclusão de memórias e influências, é uma das minhas favoritas. Principalmente por ser algo que pouca gente sabe, algo que tem o poder de abrir os olhos do espectador.

Nesse aspecto “revelador”, Chico Rei Entre Nós me lembrou um pouco o documentário A 13ª Emenda, dirigido por Ava DuVernay pra Netflix. Penso que ambos conseguiram reunir entrevistas certeiras, palavras fortes, imagens bem construídas com um certo nível de didatismo que ajuda qualquer pessoa, independente de raça, religião ou formação escolar, a entender o que está sendo exposto.

Talvez o exemplar brasileiro seja menos amplo por conta de sua conexão mais rígidas com Ouro preto e a mineração, mas cumpre sua proposta com muito valor. Ou, em outras palavras, esfrega a realidade na cara das pessoas, torcendo pela chegada do dia em que um membro do governo não vai ter a cara de pau de falar que racismo não existe.

Chico Rei Entre Nós

Foto: Divulgação

E, como eu disse na nossa live sobre o Festival de Vitória, esse potencial para abrir os olhos foi o que me manteve preso em Chico Rei Entre Nós. Até porque, fora isso, o filme não oferece grande inovações narrativas ou estéticas. Tirando uma divisão capitular que usa peças de museu (e some a partir de certo momento), ele é um documentário histórico padrão e simples.

Entretanto, assim como aconteceu em Um Dia com Jerusa, essa simplicidade não atrapalha. Muito pelo contrário. Na real, ela ajuda o longa a cumprir seu papel, colocando a palavra, a história e as memórias no centro do palco. Dando permissão para que elas carreguem o filme nas costas, abrindo a mente do público para reflexões que muitas vezes passam despercebidas pela frente do nosso rosto.

Eu, por exemplo, já participei do Congo aqui no Espírito Santo, tocando violão por volta dos meus oito ou nove anos. Mas, sem nenhuma coincidência envolvida, nunca vi ninguém comentando sobre as raízes negras. Era tratado como um ritual religioso da Igreja Católica e eu, confortável no meu pedestal de homem branco cristão, nunca parei pra pensar sobre as referências que estavam na minha cara.

Chico Rei Entre Nós

Foto: Divulgação

Precisei que Chico Rei Entre Nós mostrasse imagens e depoimentos pra ouvir a ficha caindo. Pra me tocar que se tratava de uma cultura roubada, assim como tantas outras coisas que preencheriam várias páginas de texto ao lado dos guias que ainda anulam a importância dos negros nos passeios pelas minas das cidades históricas.

Eu entendo que a visão de um negro pode ter muito mais camadas do que a minha, mas não poderia deixar passar a oportunidade de dizer que me surpreendi com a forma como Chico Rei Entre Nós, dialoga sobre o passado e o presente de maneira informativa e extremamente impactante. Um filme que poderia melhorar o mundo, caso alcançasse a parcela da população que costurou os olhos a pedido de seus líderes vazios e seletivos


Chico Rei Entre Nós foi conferido no Festival de Vitória

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Chico Rei Entre Nós (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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