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Dirigido pelo mestre Rodrigo Aragão, O Cemitério das Almas Perdidas mergulhas nas origens do terror com muito sangue e criatividade


Quem conhece a realidade da produção independente fora do eixo Rio-São Paulo tem quase a obrigação de apreciar o trabalho de Rodrigo Aragão (A Mata Negra). Pode até não gostar dos filmes em suas totalidades, mas precisa aceitar que é um ato de heroísmo nível Homem-Aranha na cena do trem produzir cinema de gênero com orçamentos baixíssimos num estado como o Espírito Santo.

Então, eu já posso dizer desde agora que fico muito feliz em ver seu reconhecimento nacional (e internacional) crescer cada vez mais. Porque isso, de certa forma, permite que ele tenha mais ambição e nos presenteie com obras como O Cemitério das Almas Perdidas.

Cemitério das Almas Perdidas

Foto: Divulgação

O longa – que é, sem nenhuma dúvida, um reflexo dessa ambição – conta a história de um grupo de jesuítas que são corrompidos pelo poder de um misterioso livro negro. Após “tocar o terror” em terras indígenas, eles são amaldiçoados e obrigados viver presos num cemitério pela eternidade. Ou até eles aproveitarem, nos dias atuais, a chegada de um circo místico para fugir de sua prisão.

Passeando entre passado e presente, O Cemitério das Almas Perdidas remonta as raízes da história brasileira pra dialogar com as raízes do terror. E faz isso sem medo de reunir o sobrenatural (a cena de abertura é um primor) com medos reais, indo do fanatismo religioso até a violência imposta pelo colonialismo.

Uma proposta ousada que casa muito bem com a grandiosidade do projeto. Tanto que um dos pontos forte do longa é transmitir a riqueza de seu folclore através da direção de arte, dos cenários elaborados e da maquiagem. Tudo com mais criatividade e talento do que dinheiro em si, afinal, como eu disse, se trata de um projeto muito barato.

Cemitério das Almas Perdidas

Foto: Divulgação

E talvez seja justamente isso que chame tanta atenção na filmografia do diretor. Ele extravasa alguns momentos de violência com um certo nível de “tosqueira”, mas, na maior parte do tempo, consegue imergir o espectador em um mundo tão cheio de detalhes que não parece ser fruto de um cinema independente e meio marginal.

No entanto, o que mais me impressiona nesse jogo de aparências é ver como Rodrigo Aragão tem pleno domínio do gênero e dessa mitologia satânica (bem Zé do Caixão) que ele criou. Ele sabe exatamente a hora de deixar o espectador desconfortável com O Cemitério das Almas Perdidas. A hora de chocar com esse gore extremamente sangrento. E, acima de tudo, a hora de se conter, criando metáforas visuais ou suposições que incomodam muito mais do que a cena explícita em si.

Não é à toa que minha cena favorita do filme envolve um abuso sexual que nunca é mostrado. O público só escuta, enquanto encara uma entrada de luz em forma de cruz. É uma cena assustadora, mas ao mesmo tempo muito significativa, já que, de certa maneira, resume o conceito temático por trás da trama.

Cemitério das Almas Perdidas

Foto: Divulgação

Até concordo que, às vezes, a unidade narrativa é deixado de lado, desperdiçando boas ideias que o próprio roteiro apresentou anteriormente. É fácil notar que O Cemitério das Almas Perdidas não é o trabalho mais coerente ou bem organizado de Aragão, apesar disso não me incomodar tanto assim.

Na verdade, posso ir além e dizer que realmente gostei do clímax. Muito mais do que eu mesmo esperava. O motivo: é nesse momento, quando o filme corta todas as amarras e “surta”, que a exploração das origens do satanismo ganha o status de diversão e encerra o seu ciclo com louvor.


O Cemitério das Almas Perdidas foi conferido no festival de vitória


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Cemitério das Almas Perdidas (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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