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Cheio de alegorias, Casa de Antiguidades é uma obra poética e interpretativa sobre a resistência do brasileiro


Preso numa região sul que nem português fala, Cristovam (interpretado com maestria por Antonio Pitanga) saca seu berrante e interrompe toda a balbúrdia alemã com um som tipicamente brasileiro. Essa cena de pura resistência, localizada ainda nos primeiros minutos de Casa de Antiguidades, é o momento que resume minha relação com o longa.

Apesar de estarmos falando de um filme ambicioso que mistura gêneros e temas sem dar respostas claras, essa é a sequência que me hipnotizou e direcionou minha interpretação da história desse senhor idoso que trabalha, solitário, em uma fábrica de leite austríaca. Tudo começa a mudar quando ele encontra uma casa abandonada, onde objetos cheios de memória aparecem do nada.

João Paulo Miranda Maria (em seu primeiro longa) filma tudo isso de uma maneira simbólica que mistura esplendor e desconforto. É tudo muito bonito, mas ao mesmo tempo preenchido, desde o início, por personagens de ficção cientifica apresentados com travellings extremamente lentos e incômodos. Toda vez que a câmera se arrasta do macro para o micro, o filme cresce sua tensão de maneira tão hipnótica quanto desconfortável.

Casa de Antiguidades

Mas esse ritmo não só faz sentido, como é muito importante na construção desse senso de não-pertencimento que guia Casa de Antiguidades. Cristovam vive em um lugar onde não é aceito, então se arrasta tal qual a câmera de um dia para o outro, de uma tentativa de encaixe para a outra, sem o mesmo esforço ou esperança de sucesso que possuía antes.

A própria casa é preenchida por uma impessoalidade que reforça esse não-pertencimento. O protagonista não tem nada dele, nem mesmo um lençol na cama, até essas antiguidades vindas do nada ativarem sua memória, criando um sentimento de posse que viabiliza a resistência. Que lhe fornece o combustível necessário para tentar outra vez.

E, apesar da progressão lenta, eu gosto da maneira como João Paulo costura tudo isso com espíritos, folclore e algumas doses de surrealismo. Peças que não parecem se encaixar, e justamente por isso ampliam essa sensação de deslocamento que persegue Cristovam até o fim.

O problema é que em certo ponto da narrativa, principalmente no meio, o diretor parece se perder em sua própria ambição na tentativa de dialogar com temas em excesso. Ele quer falar sobre racismo (um tema que ecoa na presença magnífica de Pitanga como protagonista), sobre machismo, sobre a ideias separatistas do sul e mais uma série de pequenas discussões sem foco.

Casa de Antiguidades

Até mesmo os flertes com a memória, o pertencimento e a resistência que ditavam o tom do primeiro ato são deixadas um pouco de lado, levando Casa de Antiguidades para uma sala cheia de alegorias perdidas. Fica evidente que Miranda Maria quer dizer algo com isso, mas a ideia nunca é efetivamente exteriorizada pela execução.

Claro que esse sentimento surgiu a partir da minha interpretação. Como estamos falando de um filme onde as perguntas não possuem respostas, o ponto de vista de outro espectador pode (e deve) resultar em uma experiência diferente.

Eu acho interessante o filme possibilitar essa interpretação múltipla, principalmente porque casa muito bem com a proposta poética. Mas, ainda assim, fiquei com aquela impressão amarga de que faltou uma última revisão. Um polimento que deixasse a resistência (um tema que volta com tudo nos últimos minutos) ressoar para o público com uma força que a fixasse, de uma vez por todas, em nossa própria Casa de Antiguidades.


Casa de Antiguidades foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Casa de Antiguidades (2020)

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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