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Séries

Carnival Row: Um mundo mágico que não encanta

Uma premissa interessante que se perde em tramas fracas e personagens sem graça...


9 de setembro de 2019 - 18:11 - Flávio Pizzol

Nova aposta do Amazon Prime Video, Carnival Row desperdiça o potencial do seu mundo mágico com escolhas narrativas questionáveis.


O encerramento milionário de Game of Thrones preparou o terreno para outras empresas seguirem dois caminhos paralelos: investir mais dinheiro em projetos grandiosos e tentar encontrar a próxima grande franquia épica da televisão. A própria HBO abraçou His Dark Materials e deu o pontapé num spin off de GoT, a Netflix colocou novas adaptações das Crônicas de Narnia na sua lista de produção, a Disney + pegou impulso em Star Wars pra entrar no mercado com os dois pés na porta e a Amazon conseguiu os direitos de uma série baseada no universo de Senhor dos Anéis. Mas, como uma disputa marcada por tantos competidores não pode esperar, a própria Amazon deu o primeiro passo com o mundo mágico de Carnival Row.

A história, criada por René Echevarria (Teen Wolf) e Travis Beacham (Círculo de Fogo), se passa nesse universo meio vitoriano onde humanos convivem com fadas, faunas e diversas outras espécies mágicas clássicas. No entanto, a trama começa de fato quando essa relação – que já não é necessariamente harmônica – começa a ser abalada por uma série de assassinatos misteriosos que reacendem disputas políticas e revelam segredos escondidos há muito tempo.

Apesar de contar com vários elementos batidos em sua composição, essa premissa possui virtudes suficientes para funcionar como uma colcha de retalhos que transforma clichês em coisas interessantes. Principalmente em relação a esse mundo encantado que pode conquistar pelo visual, pela variedade de espécies e por um paralelo bastante atual com a crise dos refugiados que oferece inúmeras possibilidades narrativas para a série. O problema começa, na minha opinião, quando o texto deixa claro que não possui nenhuma sensibilidade ou sutileza em suas metáforas, chegando ao ponto de perder a mão na forma característica como a fantasia é usada para dialogar indiretamente com o mundo real.

Eu admito que isso parece um pouco de implicância, mas a verdade é que isso não passa da pontinha de um iceberg que quebra, constantemente, o processo de imersão do público. Digo isso porque tal opção por uma linguagem simples e direta poderia até ser perdoável, se o restante do roteiro não fosse tão instável e raso. Seguindo os caminhos mais estranhos possíveis, Carnival Row se revela uma série inchada por personagens sem nenhum apelo e subtramas que não tem importância suficiente para justificar seu tempo de tela.

Isso tudo sem contar as facilitações narrativas que fazem poções cair do céu com o poder de resolver tudo, as diversas vezes em que o texto se perde dentro da suposta riqueza do seu próprio universo, colocando as tramas erradas em primeiro plano, ou a quantidade de conceitos que são apresentados com importância só para serem ignorados depois de dois episódios. Um combo de problemas gigantescos que, pra piorar, ainda precisa conviver com um número incalculável de diálogos toscos, didáticos, mal escritos e mais diretos do que as metáforas citadas acima.

A direção, obviamente, sofre muito com isso, já que precisa colocar todo o “peso” da série no visual pra tentar encobrir a pobreza da narrativa. O resultado acaba sendo uma série dependente (mais do que deveria) de momentos grandiosos e cheios de efeitos que, mesmo sendo pontualmente bem feitos, não surgem com a frequência que Carnival Row precisaria pra manter o olhos do espectador presos na tela. Logo, considerando que o restante do tempo é preenchido por cenas de Malhação protagonizadas por fadas, reviravoltas típicas de novela mexicana e outras coisas bastante deslocadas, a dispersão chega sem ligar para os esforços pouco expressivos de Thor Freudenthal (Um Hotel Bom pra Cachorro), Anna Foerster (Anjos da Noite: Guerras de Sangue), Andy Goddard (Punho de Ferro) e Jon Amiel (O Núcleo: Missão ao Centro da Terra).

Por fim, o elenco também sofre tanto com essa ausência de um bom material textual, quanto com a escolha de diretores sem força pra impedir que tudo desmorone. Isso faz com que a suposta “salvação” da série recaia sobre um casal de protagonistas sem nenhuma química, uma gama enorme de personagens unidimensionais e alguns bons coadjuvantes que nunca se libertam das correntes impostas pela falta de evolução narrativa. Diante desse tanto de obstáculos, fica difícil acreditar que atores limitados como Orlando Bloom (O Hobbit: A Desolação de Smaug) e Cara Delevingne (Esquadrão Suicida) tenham fôlego pra arrebatar os corações do público e mudar o status quo pré-definido da série.

Entretanto, apesar de todos esses problemas, a pior parte ainda é ver atores realmente bons presos em tramas rocambolescas e sem nenhuma impacto. É o caso, por exemplo, do quase sempre incrível Jared Harris (Chernobyl) e seu chanceler sem peso político que acaba sendo desperdiçado em diversas reviravoltas envolvendo filhos bastardos e outras soluções toscas. Tudo bem que Carnival Row tenta colocar essa e todas as suas subtramas nos trilhos com uma boa reviravolta no quinto episódio, mas até esse acerto se torna um mero detalhe quando o texto descarta quase tudo que foi estabelecido pela virada da trama em prol de um personagem fraco tomando atitudes idiotas sem nenhuma razão.

Com isso, no fim das contas, Carnival Row acaba entregando somente uma lista de consequências pobres que não convencem, oferecem camadas interessantes ou fazem jus a Harris e outros bons nomes do elenco. Uma jornada que, mesmo despertando discussões atuais pontualmente, vai ficando cada vez mais desinteressante com o passar dos episódios. Um mundo encantado que desperdiça sua mitologia cheia de potencial com tramas fracas, personagens sem graça e um desenvolvimento que sequer tenta fugir do senso comum. Uma decisão (conjunta, nesse caso) que certamente atrapalha a missão de encantar que me parece ser inerente a um mundo fantástico tão agridoce.


OBS 1: Uma das poucas coisas que posso dizer que aproveitei foi o Agreus jantando os riquinhos preconceituosos em cada diálogo…