AODISSEIA
Filmes

Campo do Medo – Pense duas vezes antes de entrar…

...nesse longa perdido entre as adaptações ruins de Stephen King.


6 de outubro de 2019 - 01:03 - Flávio Pizzol

Nova adaptação de Stephen King, Campo do Medo desperdiça sua boa premissa com uma produção que se perde em um matagal de erros.


Só nesse ano, eu já devo ter começado pelo menos uns três textos falando sobre Stephen King e sua produção prolífica de livros e adaptações. Juro que não queria repetir a mesma coisa, mas a verdade é que ele realmente escreve inúmeras obras que aguçam a curiosidade dos fãs e conquistam os mais diversos produtores de conteúdo. O resultado é uma fórmula quase perfeita onde uma galera gosta de adaptar Stephen King pra uma outra galera que gosta de assistir tais produções. O único problema é que uma lista tão grande de adaptações sempre possui algumas várias maçãs podres. O novíssimo Campo do Medo, apesar de misturar diversos temas recorrentes de King com eficiência, garante seu lugar nesse lado amargo da filmografia com muita facilidade.

A trama, baseada em um livro escrito por King ao lado do seu filho Joe Hill, começa a partir de uma ideia simples, porém muito criativa, onde uma mulher grávida e seu irmão entram num grande matagal para procurar um garoto supostamente perdido. A parada é que, por motivos mais do que esperados, eles acabam perdidos nesse lugar sobrenatural que mata animais, mexe com a cabeça dos seres humanos e influencia até mesmo no espaço-tempo.

O roteiro, adaptado pelo próprio diretor Vincenzo Natali (Cubo), começa bem, apresentando as peças de maneira funcional e prendendo a atenção espectador com essa espécie de Feitiço do Tempo ainda mais bizarro que reúne a claustrofobia, o fanatismo religioso e a paternidade daquele jeitinho que só Stephen King conseguiria fazer. No entanto, o tédio bate na porta bem rápido e deixa claro que, na realidade, Campo do Medo possui um texto raso, óbvio e cheios de sugestões metafóricas que são abandonadas entre diálogos ruins e referências culturais desleixadas.

Isso significa que, mesmo encontrando maneiras interessantes de entregar algumas soluções narrativas, a nova aposta de terror da Netflix continua acumulando falhas que tiram todo o peso da trama. E, nesse caso, eu acredito que a culpa esteja bastante conectada com os péssimos personagens que lutam para sobreviver no matagal. Seguindo no caminho contrário da complexidade que sempre permeiam os personagens de King nos livros, Natali opta por concentrar sua atenção em estereótipos fracos e repetitivos que tem relacionamentos dignos de Malhação e dificilmente se conectam com o espectador. Uma perda enorme pra um filme que, gostando ou não, depende de ter alguém torcendo pela vida dos personagens pra funcionar em sua completude.

Entretanto, pra piorar, tal problema ainda se estende como raízes contaminadas por todo o projeto, influenciando (ou, em alguns casos, sendo influenciado) as atuações medíocres e a direção mediana que complementam o nosso passeio pelo Campo do Medo. Inclusive, no primeiro caso, acho muito importante realçar essa ideia do problema funcionar como uma faca de dois gumes, porque o texto ruim prejudica as atuações ao mesmo tempo em que a maior parte do elenco não se esforça pra salvar alguma coisa. Patrick Wilson (Invocação do Mal 2) é o único que tenta sair com poucos ferimentos da chuva de overacting que toma conta do último ato, porém nem mesmo sua proximidade com o gênero serve pra alguma coisa diante de um texto que parece fazer questão de não funcionar.

Da mesma forma, o jeito como Vincenzo Natali escolhe conduzir a narrativa do longa é, sem nenhuma dúvida, inconsistente e problemático. Admito que ele acerta sim na construção inicial da claustrofobia e na maneira como usa a câmera pra reforçar o senso de confusão gerado pelo matagal, mas a verdade é que, depois do primeiro ato, a direção vai escorregando de maneira gradual até culminar em um final completamente bagunçado e vazio. Só pra tentar exemplificar, Natali se apoia por tanto tempo na trilha insossa de Mark Korven (que, surpreendentemente, é o responsável pela música de A Bruxa) e na fotografia sem impacto de Craig Wrobleski (The Umbrella Academy) que qualquer tentativa de impressionar começa a afundar após certo tempo.

Entre tantos outros escorregões, esses são aqueles que mais prejudicam o longa, porque acabam impedindo que qualquer outra “operação de resgate” consiga levar o longa de volta para a beira da sua estrada figurativa. Nem mesmo as sequências mais estilizadas que remetem ao ótimo trabalho de Natali em Hannibal através dos closes extremos e das mudanças bruscas de cor servem pra tirar o público do marasmo que se impregnou na produção. São apenas momentos sem sustentação que soam como artifícios vazios saídos da mente de um diretor que se perdeu no seu próprio matagal. Em outras palavras: pense duas vezes antes de abrir a Netflix e clicar no ícone de Campo do Medo, porque você pode ficar perdido ou morrer de tédio…