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Apoiada num curioso equilíbrio entre ficção e realidade, Bom Dia Verônica choca ao mostrar, com requintes de crueldade, que o machismo mata


Quando o assunto é violência contra a mulher, o Brasil sempre teve estatísticas elevadas. Mesmo assim, estamos vendo, com muita tristeza, 2020 bater todos os recordes por conta de uma pandemia que isolou vítimas e agressores dentro de casa. O número de casos de feminicídio, por exemplo, cresceram 22% durante os últimos meses.

Por pura coincidência de um destino que não tem nada a ver com violência doméstica, em São Paulo, 83% de todos os casos confirmados foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. E desses, 69% tiveram a própria casa da vítima como cena do crime . 

Se você não leu meu texto com as primeiras impressões de Bom Dia Verônica, pode estar se perguntando porque eu comecei a crítica com esses dados. E o motivo é muito simples e direto: a série é sobre machismo e violência doméstica.

Bom Dia Verônica

Também fala sobre o peso que a sociedade dá para uma autoridade somente pela farda, corrupção policial, saúde mental e outros temas que podemos classificar como cascudos. Porém, como se fosse a água da chuva descendo por uma calha, o foco sempre recai sobre esse machismo estrutural que constrói o cenário de todos os tipos de violência contra a mulher.


Bom Dia Verônica possui muitos gatilhos relacionados à violência contra a mulher. Caso você tenha alguma sensibilidade ao assunto, vá com calma.

E se você ou alguém próximo sofre qualquer tipo de violência doméstica, peça ajuda através do 180 ou do aplicativo SOS Mulher.


Esses são os temas que marcam presença em diversos níveis e formatos tanto na história da Verônica (uma escrivã que vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando começa lidar com várias denúncias contra homens, indo de um golpista até um serial killer), quanto na história da Janete (uma mulher que sofre com um relacionamento abusivo e extremamente cruel).

É verdade que todo esse contexto se ergue cercado por diversos clichês de produções policiais, começando pela protagonista que parece ser a única pessoa que se importa na delegacia. Não posso negar isso, mas não vou dizer que esse detalhe atrapalha, porque Bom Dia Verônica escolhe lidar com uma dicotomia muito clara entre o bem e o mal. A série aposta, sem pudores, nessa disputa franca entre os dois lados da força.

Bom Dia Verônica

Isso não obriga a Verônica a ser, necessariamente, uma personagem perfeita e unidimensional. Ela é obstinada quando o assunto é fazer justiça, porém também comete erros, carrega diversos problemas pessoais nas costas e faz escolhas questionáveis.

Assim como Cláudio, o principal representante do lado oposto. Ele é um psicopata que mata mulheres e não pensa duas vezes antes de destroçar a mente de sua mulher, mas também surge em momentos tão doces que chega perto de enganar. E conseguiria, se a gente não tivesse acesso a toda a podridão escondida sob a farda.

Mesmo assim, a disposição monocromática do bem e do mal ajuda a construir uma mensagem direta. Uma tentativa de garantir que qualquer espectador, independente do nível de conhecimento, consiga entender que o machismo é como uma erva daninha que estrangula tudo que vê pela frente.

Até admito que pode existir um charme maior em séries que optam por abordagens mais complexas, mas não é errado escolher a outra alternativa. Principalmente quando a produção depende do choque causado instantaneamente pelas ações dos vilões.

Bom Dia Verônica

No entanto, a verdade é que uma boa premissa sozinha não faz verão.

Em outras palavras: essa mesma premissa, com todas as características citadas, poderia estar relacionada a um documentário-denúncia qualquer, se o trabalho de construção narrativa não fosse tão certeiro.

O trabalho de José Henrique Fonseca (vou creditar ele, porque é o seu nome que aparece como diretor-geral) trata tudo com uma sobriedade que aproxima Bom Dia Verônica da realidade. Apesar dos clichês típicos da nossa dramaturgia, ele se afasta do novelesco com o objetivo de equilibrar momentos que permitem um toque “fantasioso” com aqueles que exigem uma aproximação mais sutil.

É claro que os ataques do assassino se encaixam bem na lista dessas sequências que permitem uma abordagem mais exagerada. São momentos tensos e sangrentos que conquistam o espectador pelo choque, dialogando com o trabalho asqueroso de Eduardo Moscovis e comprovando seu valor narrativo.

Bom Dia Verônica

Entretanto, os meus momentos favoritos são aqueles em que Fonseca percorre a intimidade dos personagens com paciência e muita atenção aos detalhes. Em nome da necessidade de dar exemplos, posso citar os diálogos de Verônica com a filha e a representação do ciclo de violência doméstica através do relacionamento de Janete e Cláudio.

Esse último, não por acaso, se torna o grande destaque da série. São os momentos onde Camila Morgado rouba todos os holofotes, ofuscando até mesmo as reações de nojo causadas por Moscovis. Mas também são os pontos de discussão que amarram a caçada de Verônica com a já citada temática do machismo, apresentando de maneira chocante todas as táticas que Brandão usa pra criar esse ambiente marcado por pressão psicológica, culpa e ameaça constante.

Mesmo partindo de uma abordagem menos escancarada, essas sequências se aproximam da realidade com tanta crueldade que é impossível não sentir nada.

A união certeira entre essas mortes dignas dos maiores assassinos da sétima arte e uma câmera que revela segredos escondidos atrás das paredes de casa faz com que Bom Dia Verônica seja uma série chocante. Uma daquelas produções que deixa um nós no estômago. Um mal estar que incomoda, agindo como ponto de partida para uma série de reflexões posteriores.

Bom Dia Verônica

Talvez o resultado alcançasse níveis mais interessantes, se algumas representações fossem menos caricatas? É bem possível. Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo deixar de pensar em como a série prende o público em seu próprio ciclo de corrupção e machismo, entregando a mensagem principal com eficiência: a realidade é cruel e muito difícil de mudar.


A primeira temporada de Bom Dia Verônica já está disponível na Netflix

 


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Bom Dia Verônica (1ª Temporada)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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