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Nova comédia da Netflix, BlackAF traz uma família negra e rica com sérios problemas, todos por conta da escravidão


Construir uma versão serializada de si mesmo não é tarefa fácil. Pamela Adlon em Better Things e Louis C.K. com Louie conseguiram isso com louvor. Agora é a vez de Kenya Barris, criador, roteirista e diretor de séries como Black-ish, Grown-ish, Mixed-ish e filmes “A Viagem das Garotas”, além de ser roteirista da tão esperado continuação de “O Príncipe de Nova York”.

Em BlackAF, Kenya toma as rédeas e fala sobre ele, sua família e suas escolhas em formato de mocumentário (um falso documentário). Uma sátira de si mesmo que possui um casamento imperfeito e midiático, e seus 6 filhos. Na série, sua filha Drea (Iman Benson) pretende fazer um documentário para ser aceita em uma faculdade de cinema, e este é o ponto pé inicial para as coisas inacreditáveis que vamos ver em tela.

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Preto e dinheiro, são palavras rivais
E então mostra pra esses cu
Como é que faz

– Vida Loka | Racionais Mc’s

BlackAF une a comédia nonsense com discursos e inserções sérias sobre paternidade, ancestralidade, cultura e raça. O título de cada episódio faz alusão a escravidão, e praticamente explica o comportamento do povo preto durante os anos e os reflexos diretos deste período traumático. No início Kenya não mostra a que veio, ainda meio tímido com o recente contrato milionário com a Netflix.

A partir do terceiro episódio, abre-se um leque objetivo e sabemos o que série vai abordar e o que quer, tornando o episódio 5, o suprassumo da produção. As mulheres de BlackAF também são grandes expoentes da narrativa e dominam boa parte das tramas, sejam elas falando sobre feminismo, adultização de mulheres negras, colorismo e identidade.

Uns preferem morrer ao ver o preto vencer

– Sucrilhos | Criolo

Aliás, o quinto episódio é exemplar no aspecto identidade. Como ser negro? Por ser negro eu preciso gostar de uma coisa A ou B? Posso odiar os filmes do Tyler Perry (que faz uma participação pontual) e a cultura hip hop? Estou errado por gostar do filme Green Book (sim)? Kenya traz um povo negro moderno que não tem medo de viver, de gastar, de ser julgado, ao mesmo tempo em que mostra que ainda nos importamos com o que acham de nós.

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A questão do colorismo por exemplo, ultrapassa a tela, já que a atriz Rashida Jones foi a escolhida para viver Joya, mulher de Kenya. Para muitos Rashida é uma atriz branca, mas nos EUA ela é considerada mestiça e é filha de um dos maiores compositores do cinema, Quincy Jones. Na série, Joya é julgada justamente por isso, e vive se perguntando: “será que sou negra o suficiente?”

Xô devolver o orgulho do gueto, e dar outro sentido pra frase tinha que ser preto

– Beira de piscina | Emicida

A comédia também discute se só o aumento da representatividade negra em filmes e séries é eficiente, mesmo que tais produtos sejam ruins. As hilárias participações especiais de Ava DuVernay (criadora de “Olhos Que Condenam”), Lena Waithe (roteirista de “Master of None”) e Issa Rae (criadora e estrela de “Insecure”), discutem a qualidade de produções afro-americanas e o papel dos críticos em exaltá-las ou criticá-las.

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Relevante para a comunidade negra, as séries de Kenya exaltam a evolução dos negros e as dificuldades em ascender ao estrelato. De certa forma, o autor quer esbanjar tudo aquilo que conseguiu em BlackAF, algo perfeitamente normal para sua figura excêntrica. Sendo assim, o exagero faz parte da produção, além da clara e indubitável zueira com os brancos.

Jovem, negro, rico
Isso é perigoso

– Jovem Preto Rico | Baco Exu do Blues

Quando vai para o drama, BlackAF faz uma transição nada forçada, e discute assuntos pontuais da cultura negra, principalmente nos momentos em que envolve Kenya e Drea e ela e sua mãe.  Algumas banalidades como o uso nada sutil de drogas e o retorno de conflitos e brigas, deixam a série mais fraca, mas como Drea afirma, quando as brigas em família acabarem, é sinal de que não estamos ligando mais, e é aí que devemos nos preocupar.


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BlackAF | 1ª Temporada

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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