AODISSEIA
Séries

Big Little Lies e sua continuação desnecessária

Boas atuações e Maryl Streep não salvam a segunda temporada...


28 de julho de 2019 - 12:14 - Flávio Pizzol

Bastidores conturbados, boas atuações e consequências que não precisam ser exploradas. Com vocês, a segunda temporada de Big Little Lies!


As existências de um podcast (a quarta edição do – ainda embrionário – Dropseia) e de uma crítica com nota máxima já entregam o quanto eu gosto da suposta primeira temporada de Big Little Lies. Uma adaptação segura que se destacava pelo texto ágil, atuações premiadas de grandes nomes de Hollywood, direção cheia de sacadas temporais e muitas temáticas que merecem estar no centro das atenções. Um projeto completo que, graças ao seu sucesso absoluto, fez a desnecessária transição de minissérie para um produto novelesco cujo o objetivo é puramente ganhar dinheiro em cima daquilo que funcionou.

E eu digo isso sem meias palavras, porque a maior parte dos problemas dessa temporada nascem justamente nesse momento. O começo marcado por peças sendo recolocadas no lugar e alguns bons diálogos disfarçam muito bem, mas a verdade é que o decorrer da temporada revela que não existe uma história forte por trás de toda aquela teia de mentiras e consequências. Não existe nada em segundo plano que funcione como o assassinato e prenda a atenção do espectador, logo o resultado é uma novela (ruim) que faz o que qualquer ser humano com tempo e imaginação faria: navegar pelo que aquele momento-chave causou em cada uma das cinco protagonistas.

Não posso dizer que isso não é interessante ou que a ideia não poderia funcionar, mas vou dizer com toda a certeza que David E. Kelley (The Crazy Ones) escolheu os piores caminhos possíveis em quase todos os cruzamentos. Ele até acerta ao fugir do padrão narrativo estabelecido anteriormente, mas demonstra estar perdido num projeto que teve potencial em algum momento de sua existência. Acredito que a possibilidade, por exemplo, de “reexplorar” todas as discussões sobre relacionamento pela ótica das consequências (o que acontece com uma mulher após um relacionamento abusivo?) poderia ter força para segurar sete episódios, caso o roteirista não decidisse esvaziar tudo através de soluções óbvias. Saídas que, como já foi dito, poderiam surgir na cabeça de qualquer espectador com empatia suficiente para compreender que uma viúva vai sofrer com o luto, uma “assassina” vai ter peso na consciência ou que alguém infiel terá que enfrentar problemas no casamento.

A entrada de alguns personagens novos consegue dar gás para essa dinâmica simplória, mas o trabalho também fica no meio do caminho graças a total falta de identidade da direção. E eu não estou dizendo isso somente por causa da maneira como a HBO tirou o poder de decisão de Andrea Arnold (Docinho da América) depois que as gravações haviam sido finalizadas. Na real, tais notícias só lançaram luz sobre algo que era perceptível no decorrer de uma leva de episódios que oscilou entre momentos intimistas claramente pensados por Arnold e a estética efusivamente picotada que Jean-Marc Vallée (Sharp Objects) construiu na temporada anterior de Big Little Lies.

A matéria não deixa claro quem foi exatamente o responsável por sugerir essa troca de poderes, mas os culpados reais pouco importam. O que vale aqui é que a bagunça nos bastidores gerou regravações estranhas, misturou duas equipes diferentes de editores (quinze estão creditados no IMDb) e interferiu bastante naquilo que foi exibido os últimos domingos. Uma série sem rumo que não conseguiu encontrar apoio suficiente no texto e na estética, resultando em algo vazio que não conseguiu justificar sua existência ou, pelo menos, gerar reflexões verdadeiras em cima de um grupo de personagens muito complexas.

E talvez seja isso que doa mais em quem gostou tanto da primeira temporada: ver as protagonistas da série reduzidas de maneira tão desproporcional. Não tenho como negar que todas tem algo a dizer sobre a mulher na sociedade, mas a maioria delas tem pouco espaço no palanque reservado para o show. Na verdade, Celeste e Bonnie são as únicas que parecem receber atenção de fato, enquanto Madeline, Jane e Renata ficam esperando os holofotes sobrarem para mostrarem algo mais substancial. Contando ainda com a colaboração constante da edição bagunçada, elas precisam se contentar com pequenas cenas aleatórias e outras migalhas que vão sobrando no decorrer da temporada.

A sorte de Big Little Lies é que, apesar de todos os escorregões, o elenco não descansa ou abandona o barco, carregando a série nas costas por um tempo considerável. Mesmo quando acabam sem o destaque que mereciam, Reese Witherspoon (Livre), Nicole Kidman (Boy Erased), Shailene Woodley (Vidas à Deriva), Zoë Kravitz (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald) e Laura Dern (Vingança a Sangue-Frio) defendem suas contrapartes com tanta garra que criam grandes momentos do nada. Dern, inclusive, aproveita os bons diálogos que o roteiro entrega para roubar os holofotes e colocar o público do lado de Renata.

Um trabalho impecável que, nessa leva de episódios, só pode ser equiparado aos momentos de pura energia de Kidman ou a adição luxuosa de Meryl Streep (Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo) como Mary Louise Wright. Fazendo com que as outras protagonistas pareçam meras iniciantes, Streep consegue equilibrar com brilhantismo os dois lados de sua personagem: a faceta de idosa indefesa e enlutada que perdeu o filho recentemente e a mulher sarcástica e venenosa que não se preocupa em machucar os sentimentos de alguém para proteger a reputação de Perry. Uma mulher que se enquadra perfeitamente naquele tipo de pessoa que o público vai amar odiar com todas as suas forças, enquanto injeta um fôlego que o roteiro não possui nas discussões cheias de emoção.

O episódio final – com seus finais felizes forçados – funciona como o exemplo máximo de tudo isso, visto que 90% das sequências só funcionam graças ao elenco. Observem, entre outras coisas, como a passagem do julgamento deixa claro que o roteiro falha em dar momentos importantes para as personagens, equilibrar os pesos ou colocar um pouco a mais de energia em confrontos que deveriam ser o clímax dessa história desnecessária. Dessa forma, o momento em que Kelley poderia ter usado os “dramas de tribunal” para justificar a existência da continuação vira um show de inconsistências que só sobrevivem graças a interação entre Meryl e Kidman, alguns poucos diálogos inspirados (que poderiam ter surgido antes) e uma trilha sonora selecionada a dedo como parte da trama.

E, por mais que essa trinca tenha muito poder dentro da linguagem cinematográfica, são inúmeros os momentos que poderiam ser classificados simplesmente como broxantes. Afinal de contas, boas cenas isoladas jamais irão sustentar uma série que não parece estar nem um pouco preocupada em conectar peças, ligar pontos e dar “sustância” para o que está acontecendo em tela. Com isso, mesmo que alguns momentos se salvem de maneira gloriosa, acaba sendo bastante problemático – e triste – ver um produto como Big Little Lies oferecer uma pequena grande mentira tão fraca e supérflua para o seu espectador.