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Reality show de maior sucesso no Brasil, o Big Brother Brasil 2020 começou servindo de escapismo em tempos de quarentena, mas se tornou uma briga política infernal


Se você pudesse me dizer
Se você soubesse o que fazer
O que você faria
Aonde iria chegar?

O trecho acima é o início da música “Vida Real” de Paulo Ricardo, tema do Big Brother Brasil desde o seu início em janeiro de 2002. De lá pra cá, muitas pessoas passaram pela ‘Casa Mais Vigiada do Brasil’. “O que você faria?” é uma das frases mais fortes da canção, pois ela questiona: O que fazer durante 3 meses confinado em uma casa, com pessoas que você nunca conheceu?

Analisando as personalidades dos vencedores de todas as edições, é nítido constatar que não existe um perfil correto. As narrativas são construídas, o público as compra e o jogo segue. Algo estabelecido no começo, pode não funcionar no decorrer do programa, fazendo direção, produção, apresentadores e editores, correrem contra o tempo e mudarem tudo.

O Big Brother Brasil 20 foi histórico. Muito pela ousadia de seu diretor Boninho (ou Big Boss), em reunir anônimos, que ficaram conhecidos como o grupo PIPOCA, a pessoas já conhecidas, sejam elas atores, cantores, influencers e famosos, ou GRUPO CAMAROTE. O que parecia ser um flop gigante (afinal, a frase de Paulo Ricardo não se aplica a eles, já que parecia que não iam se comprometer), calou a boca de todos nós.

big brother brasil 20

No dia 21 de janeiro de 2020 começava uma epopeia. Uma casa dividida por um muro, que caiu na segunda noite de confinamento. Ali, no BBB 20, todos se tornaram iguais. Não existiam influencers, nem influenciados. O Big Brother Brasil encontrou uma fórmula do sucesso ao unir pessoas tão diferentes, mas que formaram alianças e mesmo recheadas de publi posts, queriam ganhar 1 milhão e meio de reais.

Thelma, Rafa, Manu, Babu, Mari, Ivy, Gizelly, Flayslane, Marcela, Gabi, Prior, Daniel, Pyong, Victor Hugo, Guilherme, Bianca, Lucas, Hadson e Petrix, tiveram suas histórias, e por mais que umas sejam tão ou mais impactantes que outras, elas serviram ao todo. Tivemos heróis, vilões, plantas, personagens, discussões, discursos, aulas e Lucas Chumbo.

Recordes

big brother brasil 20

A quarentena em tempos de pandemia, só potencializou o público do reality, que não saia da frente da TV. Pessoas que nunca tinham visto BBB na vida, sejam famosos ou não, começaram a se posicionar nas redes sociais. Mais gente assinou o pay per view (muito graças a facilidade do Globoplay), outros só viam vídeos no Twitter e Instagram, e o clássico grupo que via apenas a edição nas noites da Globo, cada um deles foi essencial para  construir esse sucesso.

É claro que os personagens dentro da casa renderam narrativas suficientes para que o programa batesse o recorde de votação em um reality show por 2 vezes. No primeiro, Babu, Pyong e Rafa protagonizaram uma disputa acirrada, que resultou em 385 milhões de votos e na saída de Pyong Lee. No segundo e mais impressionante, Manu Gavassi, Felipe Prior e Mari Gonzalez bateram mais de 1 bilhão de votos, sendo citados no Jornal Nacional e até pela Variety, entrando para o Guiness recentemente.

É claro que todo essa movimentação tem explicação, e está efusivamente atrelada aos discursos e narrativas do Big Brother Brasil 20, que foram muitas.

As Narrativas

A pauta desta edição do Big Brother Brasil 20 foi o feminismo. A narrativa do início do programa colocou as meninas contra os meninos, oriundo de um plano machista (e bastante burro) de Petrix (que sinceramente não entendi muito bem até hoje).

Junto com Lucas, Hadson, Prior, Guilherme e Chumbo, os “machos escrotos” como foram apelidados pela internet, tiveram falas preconceituosas, babacas e que não caíram bem perante o público. Alguns deles rendiam momentos engraçados, outros renderam momentos criminosos, que acabaram virando caso de polícia.

Além do machismo, o racismo foi discutido aqui fora e lá dentro, nas falas e aulas de impacto de Babu Santana e seu pente e cabelo afro. A rivalidade feminina foi outro assunto abordado, seja ela entre Rafa e Boca Rosa, Rafa e Flay, Thelma e Flay…eu já falei da Rafa?

Fadas sensatas x Machos escrotos

big brother brasil 20

Um por um, os homens foram deixando a casa. O que fazia a narrativa das mulheres ganharam força. A chegada de Daniel e Ivy da Casa de Vidro, foi um evento que mudou totalmente os rumos do Big Brother Brasil 20. Ali, se iniciava uma guerra entre parte dos homens e as fadas sensatas.

Comunidade Hippie, G8, Bloco Hegemônico. Elas e eles (Pyong e Daniel) ganharam muitos nomes. E mesmo estando certas na maioria das vezes, possuíam um discurso soberano, como se fossem as donas e donos da razão. A tal “verdade”, tão falada em discursos do líder na hora das indicações e nos discursos eliminatórias de Leifert cobrou seu preço, e depois dos meninos, a soberba eliminou boa parte da comunidade.

“A sua verdade não é a minha verdade”

Tão citada durante o programa, a tal da verdade nada mais era que o falso moralismo. O BBB 20 foi histórico, mas também foi hipócrita, seja dentro ou fora da casa. Se lá, o que ia contra o bloco hegemônico era considerado errado, aqui fora, pessoas pegavam em bandeiras, sejam elas a do feminismo, do preconceito, da homofobia e por aí vai.

Uma luta se tornou maior que a outra na cabeça das pessoas e dos grupos. “Racismo pode, mas machismo não” era algo postado por grande parte do povo nas redes sociais. Com isso, os fandoms enferveciam, e o jogo baixo e as fake news dominavam. A militância seletiva, a defesa de “famosos de estimação”, as passadas de pano e discursos de ódio, infelizmente, parecem ser pautas que dominarão as próximas edições do programa.

Babu Santana foi um dos participantes que mais sofreu com isso. Sua trajetória foi linda, mas tentaram diminui-la a todo custo. O Big Brother Brasil 20 que antes servia de escapismo para mentes cansadas com as notícias, se tornou uma guerra política. “Votar em participante A é a mesma coisa que votar em tal político”.

O entretenimento perdia, e com ele, a vontade de assistir ao programa.

A Produção

big brother brasil 20

O clima pesado aqui fora, por vezes era refletido lá dentro. Seja com a produção errando ou favorecendo participantes em provas, disputas pouco inspiradas, escolha de participantes acusados de crimes ou cometendo possíveis agressões, além de assédio sexual diante das câmeras, entre outros.

Tudo isso foi crucial para o boom e todos os comentários que se seguiram, mesmo após os participantes deixarem a casa. Tiago Leifert pelo menos se redimiu em seus discursos do ano passado (incluindo o da final vexatória). Neste ano, o apresentador brincou, debochou, fez piadas e emocionou muita gente.

A decisão de informá-los sobre uma epidemia global dentro do confinamento também foi eficiente, ajudando na educação da população. Apesar das provas caídas, os monstros retrô e as festas foram empolgantes. A ideia de uma festa para cada líder fez com que o ego de alguns subisse, e a inclusão das lives em tempos de quarentena foram eficientes.

A edição foi primorosa, e a cada dia mais VTs entravam para a história, tanto por seus enredos, como pela veia artística. Rafael Portugal com seu C.A.T. BBB também foi importantíssimo nessa trajetória, aliviando a tensão. Aliás, o Big Brother Brasil 20 foi um baluarte para o entretenimento em tempos de corona vírus. Sem esportes, sem novelas inéditas e sem cinema, o brasileiro criou um vínculo com o programa, que será difícil superar.

Duas coadjuvantes e Thelma Regina na Final

Sejamos sinceros: Manu Gavassi e Rafa Kalliman não mereciam estar na final do Big Brother Brasil 20. A primeira sempre afirmava que entrou num retiro espiritual para crescimento pessoal, e só começou a se posicionar pós quarto branco. A segunda tinha uma rivalidade com Bianca, que logo saiu. Depois disso Rafa sumiu, e só cresceu de novo quando Flay rivalizou com ela.

De certa forma, ambas não se apresentaram ao jogo, e dependiam de terceiros para criarem algo além de dancinhas e memes. Thelma Regina foi além. Uma mulher preta, médica, passista, linda e com posicionamento forte. Esteve na comunidade hippie, mas logo notou a soberba (cof cof racismo) que vinha de lá e pulou fora. Rivalizou com Lucas, com Flay, com Ivy, sempre mantendo opiniões fortes que envolviam raça, crenças e muita autenticidade.

Thelma vence uma edição histórica do BBB e nunca se escondeu da luta. Ela era uma das que mais mereciam o prêmio, por apresentar a tal verdade que as fadas tanto julgavam. Diferente de jogadas de marketing através de vídeos pré-gravados, ou missões missionárias na África e respostas montadas por uma equipe de redução de danos, Thelma Assis foi de verdade, e a verdade dela prevaleceu.


Então acompanhe tudo sobre filmes, séries, games, músicas e muito mais aqui na Odisseia para saber as novidades da cultura pop.

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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7 Comments

  1. Eu achava a página de vocês incrível, vocês abordam assuntos, filmes, séries e opiniões magníficas.
    Mas é inacreditável que um cara que é preto, está numa representatividade tão grande, compactua de ótimas opiniões ficar oprimindo só porque o Babu não ganhou uma edição, parece que não queria uma mulher ganhando, isso mostra o quão machista o Tiago está sendo.
    Cara, a mulher é negra, representou milhares de mulheres, teve garra desde o início da vida e mostrou isso no BBB
    Mas invés de falar da campeã o cara fica dissimulando ódio, falando mal de branco, e compartilhando coisas só pra denegrir.
    Compartilha sobre a Thelma, da uma abertura pra ela na página ou no seu Instagram, para de ser um cara fútil que não aguentou ver um grande ator saindo..Babu tem milhares de oportunidades aqui fora.
    Vamos abrir um pouco a mente

    1. Fernanda, escrevo aqui no Odisseia há 4 anos e sempre tento ser imparcial, ao mesmo tempo em que exponho minha opinião nas publicações do site.
      Em relação as minhas redes sociais pessoais, acho que minhas atitudes devem ser comentadas única e exclusivamente lá.
      As opiniões compartilhadas em meu Instagram, Twitter ou Facebook, não refletem a opinião da Odisseia.
      Abraços!

    2. Sinceramente tu só leu a parte que te ofendeu e de resto ignorou né amada? Pois não sei se tu leu até o fim mas tem uma parte que diz “Thelma foi verdadeira e sua verdade prevaleceu” caso você não tenho lido até o final antes de vir denegrir o cara no post. E antes de qualquer ofensa sua a um escritor da @aodisseia tem que lembrar que os cara tão aqui por quê são profissionais e eles escrevem não só o ponto de vista DELES mas cumprem o dever de falar outros também, assim como fez e fez muito bem feito o Tiago. Agora se pra você falar do Babu é ofensa paciência beijo e tchau.

  2. Tiago, o meu comentário não foi referente ao texto que você postou sobre o BBB, ao contrário do que você falou nas suas redes se promovendo com ” meu primeiro hate ” e com expressões no rosto como se estivesse surpreso.
    Você é conhecido exatamente por expor opinião e não ouvir o que o outro tem a dizer.
    Você só promovia coisas sobre o Babu, era raramente falando da Thelma ? Será porque você não queria uma mulher campeão. Essa cultura encubada de machismo desseminado com ódio deveria ser deixada de lado.
    Você é conhecido pelo ótimo escritor que é, mas a partir do momento que você escreve algo mas age totalmente diferente então de nada é válido os lindos textos.
    Você é uma figura pública devido a odisseia, para mais para ouvir e diminuiu o deboche. Acredito que se fosse o Babu campeão você teria feito um texto como se ele fosse rei, enquanto ele não foi tão jogador assim.
    Você defende a cor, então defende com boa dentro da bolha, para de falar com exclusão sobre as mulheres, não é a primeira vez que você faz isso

  3. Acredito que a hipocrisia enxergada no texto foi além de cada palavra dita refletindo a opinião sobre a temporada. Vivendo em sociedade, claro que podemos discordar de tudo que foi escrito aqui, porém respeitar. E com “além”, acredito eu com uma certa dose de exagero. Mesmo o Babu sendo um ator incrível, um ser humano que dava aulas de vida lá dentro, ao se misturar com os machos escrotos, mesmo se desviando deste veneno de vilania rsrs não soube conquistar tanto assim o público como as mulheres da casa. Não afirmando que todas eram maravilhosas eu seu jeito de ser, falas, opiniões, posicionamentos e caráter. E mesmo disseminando aquele velho discurso de que o BBB é um reality show e não para ajudar pessoas carentes, mais pobres, mais precisadas e blá blá bla. Foi uma final digna, de quem representou uma edição histórica e sem nenhum erro a se mencionar aqui (Thelma). 🤷♥️👏

  4. Ótimo texto, pena que não age como condiz.
    Conheci o Tiago a algum tempo atrás, e realmente é a opinião dele, pronto e acabou
    Acredito que o que a menina lá quis dizer é que ele age de uma maneira nas redes sociais e na escrita fala de outra forma
    Ele nunca expôs tanto que torcia para Thelma igual ele torcia para o Babu, e torcia porque deixou claro que era representatividade, as pessoas esquecem que se é um perfil público deve ser comentado sim, gerar preconceito não é conteudo, diminuir uma mulher não é entretenimento.
    Todas as fala acima não tem nada haver com a citação aqui no comentário, é só pra trazer a realidade, a verdade as vezes dói

  5. Gente, vocês que tão criticando a postura do redator no texto ser diferente da postura dele nas PRÓPRIAS redes sociais precisam entender que, pelo que tá no cabeçalho da página, esse é um especial do ODISSEIA, não um ARTIGO DE OPINIÃO do Tiago enquanto pessoa. Saber e levar em consideração a diferença dos gêneros de texto é fundamental para a gente não cair numa de tecer críticas sem sentido. Duvido que os redatores de TODOS os veículos que falaram e enalteceram a Thelma na matéria sobre a sua vitória torciam para ela. E é um direito deles. Vocês esquecem que não é só sobre machismo x feminismo (branco). É sobre representações e intersecções. Se para vocês não é nítido o motivo do apoio do Thiago ao Babu, é porque falta muito para começar uma conversa ainda.

    Dito isso, ótimo texto Tiago!

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