AODISSEIA
Games

BGS 2019: Chrono Trigger e o choro gamer

Lukas Morais, editor-chefe do Freakerama é o autor do texto e das fotos


15 de outubro de 2019 - 01:09 - Tiago Soares

Este é o último texto da minha contribuição para o Odisseia nesta BGS 2019, e apesar de inúmeras coisas que ainda temos para falar, acredito que desta vez existe algo que merece um pouquinho mais daa nossa atenção. Tomarei a liberdade de ser bem mais pessoal e espero que vocês gostem. O Brasil é famoso por abraçar artistas internacionais, muitas vezes só pelo meme, mas algumas vezes acontece algo incrível, que é quando essa celebridade abraça o Brasil de volta. Ano passado fazíamos pela primeira a piada: “Shota Namaka, hein?”. Desde então o querido Shota, veio demonstrando um carinho enorme pelos fãs do Brasil.

Em 2019, ele retorna para o evento e desta vez com o seu tão famoso grupo Video Game Orchestra, fazendo valer o título Brasil Game Show. A apresentação foi uma das experiências mais incríveis que o público poderia ter presenciado em uma BGS. A produção do evento reservou algumas cadeiras no espaço e-sports, onde todos aguardavam ansiosos para o início. Logo quando toca a primeira nota, uma energia tomou conta da platéia e era impossível permanecer sentado. Ao perceber isso, Shota convida todos para frente do palco e não demorou 2 segundos para que estivéssemos todos ali, diante da orquestra e bem próximos do todo o grupo.

bgs 2019

O setlist foi extremamente variado, porém quando começou a tocar a música tema de Chrono Trigger, foi impossível não se emocionar. Um breve contexto, ao começar a minha jornada no mundo dos games, com pouco mais de 5 anos de idade, lembro claramente de pular a janela da casa de um dos meus tios, ligar o Super Nintendo escondido dele, e colocar qualquer fita para tocar. Ainda muito novo, não conseguia nem ao menos iniciar o jogo. Demorou um pouco, mas no fundo,  não era nem necessário, já que ouvir aqueles sons e ver aquela arte, foi o suficiente para me colocar diante do que seria a minha vida alguns anos depois.

Até que certo dia, o meu tio, ao descobrir que eu fazia aquilo quase todos os dias, resolve sair de casa, e deixar o videogame ligado. Quando chego lá, pela primeira vez vi a tela inicial do game, me encantei com aquilo de uma forma que até hoje eu não saberia como descrever. Algumas horas se passaram e ele chegou, surpreso que ainda não tinha conseguido sair da primeira tela do jogo, ele gargalhou alto, jogou a mochila de um lado e sentou do meu  lado. 

Jogamos por quase 15 horas, ele lendo todas as linhas de diálogos, me ensinando cada caminho, contando cada detalhe da história, me falando curiosidades que tinha descoberto lendo algumas revistas. Depois daquilo, eu nunca mais parei de jogar, ano após ano, eu sempre me interessava mais e buscava aprender mais coisas. Hoje, quase 20 anos depois, aqui estou eu, cobrindo uma feira de games, escrevendo, gravando vídeos e podcasts sobre o assunto. Não consigo imaginar como seria a minha vida se naquele dia, ele não tivesse chegado e jogado comigo.

Dizem por aí, que um gamer nunca vai embora de verdade, ele vai dá respawn em outro checkpoint. Meu velho tio passou desta para uma nova fase, talvez um pouco cedo demais, já que infelizmente não conseguiu ver seu pequeno sobrinho tão envolvido neste universo. Mas quando a trilha sonora do nosso jogo favorito começou a tocar, e aquelas milhares de pessoas cantaram juntos, foi como se de alguma forma, ele estivesse ali comigo, me abraçando e me parabenizando por tudo que aconteceu. Durante a feira, uma pessoa me perguntou “mas será que imprensa pode chorar?”, eu respondi: – “Antes de ser imprensa, eu ainda sou gamer, e se existe algo que eu aprendi é que as emoções que sentimos, valem mais que qualquer aspecto técnico.”

Obrigado Brasil Game Show 2019, até o próximo ano!