Bergman Island | Metalinguagem paradisíaca

Bergman Island
Foto: Divulgação

Com diversas referencias ao diretor de Persona, Bergman Island lança dois diretores em uma viagem marcada por bloqueios criativos, relacionamentos estranhos e passagens metalinguísticas.


É muito comum ouvir escritores e outros artistas dizerem que suas obras possuem pedaços de suas próprias vidas. Lógico que nem toda obra precisa ser necessariamente autobiográfica, mas talvez seja difícil encontrar algum exemplo que não tenha um pouco das experiências, sentimentos e traumas vivenciados por aquela pessoa.

Afinal de contas, todo mundo concorda com Stephen King quando ele diz que é mais fácil escrever sobre algo que conhecemos. Pois não existe nada que conheçamos tão bem quanto nós mesmos, certo?

A psicologia também fala sobre esse assunto quando estuda a transformação de angústias que, na maioria das vezes, somente o artista conhece em algo menos prejudicial. O nome disso é sublimação e seus efeitos na produção artística são descritos em diversos artigos científicos.

Bergman Island passa longe de ser uma obra acadêmica, mas dialoga com a produção artística e suas origens internas de forma leve e poderosa.

Bergman Island
Foto: Divulgação

Qual é a história de Bergman Island?

Ao longo de um verão, um casal de cineastas, em vias de começar a escrever seus novos filmes, se estabelece na ilha sueca de Fårö, onde o diretor Ingmar Bergman viveu e encontrou inspiração. No entanto, à medida que seus respectivos roteiros avançam, eles entram em contato com as paisagens naturais do lugar, se afastam e passam a confundir os limites entre ficção e realidade.

O que achamos de Bergman Island?

– Filmes podem ser terrivelmente tristes, pesados e violentos, mas no final eles te fazem bem.

– Os dele não?

– Não. Só me machucam.

– Então por que você os assiste?

– Porque eu os amo. Só não sei o motivo.

Acho curioso como Mia Hansen-Løve deixa claro as diferenças artísticas entre seus protagonistas com poucas palavras. Nós não precisamos de muito tempo para entender, através da relação de cada um com o cinema de Bergman e outras cenas que poderiam passar despercebidas, que eles enxergam a sétima arte de maneiras divergentes.

Essas distinções também influenciam no jeito como eles produzem seus roteiros e vivem suas vidas, mas, curiosamente, pode ser descartada quando o assunto é transportar suas vivências, angústias e sentimentos para o papel. Ambos estão dispostos a seguir o caminho da sublimação, e essa é a alma de um filme cuja estrutura é totalmente metalinguística.

Bergman Island
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Parece, numa camada superficial, ser uma história convencional de bloqueio criativo onde dois artistas buscam refúgio em alguém que marcou sua jornada pela arte. Não é por acaso que o primeiro ato acaba sendo preenchido por contextualização que flerta com o didatismo na esperança de eliminar as restrições sentidas por quem nunca mergulhou na carreira de Ingmar Bergman.

Uma atitude justa, visto que a trama está integralmente entrelaçada com a vida e a arte do diretor sueco. Nós, como audiência, precisamos conhecer Bergman (ainda que o básico) para entender que Chris, Tony e Mia Hansen-Løve estão no mesmo degrau quando o assunto é demonstrar carinho pela filmografia do artista que transformou a ilha de Fårö em ponto turístico.

Mas entender isso é apenas o primeiro passo de uma jornada com muitas camadas que se cruzam e se confundem no espaço-tempo de Bergman Island. E a maioria delas dialoga com os dilemas de um fazer artístico que, para além da mera metalinguagem, está relacionado a uma palavra muito poderosa: a coragem.

Essa é a palavra que domina a mise en scene quando Chris admite não gostar de escrever, quando ela decide falar sobre as angústias que norteiam seus relacionamentos (do passado e do presente) e, principalmente, quando ela narra sua história para o marido. Tony, ao contrário, se esconde atrás de crenças fajutas para não ter que passar pela mesma prova de fogo que sua esposa enfrenta ao revelar o quanto dela está presente em Amy.

Bergman Island
Foto: Divulgação

Talvez o público que vai assistir o futuro filme de Chris não conheça os fatos que desencadearam a história, mas nós sabemos. Nós reconhecemos essa sublimação que também se faz presente no processo criativo de uma Mia Hansen-Løve disposta a revelar não só o seu amor por Bergman, mas outras vulnerabilidades apresentadas através de Chris, seu alter-ego.

Sim… Amy é Chris, Chris é Mia e todas as três são fãs tanto de Ingmar Bergman quanto da sublimação que claramente faz parte da sua obra. No entanto, nenhuma das três enxerga o diretor de Cenas de um Casamento como um alvo a ser alcançado ou um mestre a ser imitado.

Ele é uma espécie de refúgio artístico. Uma força criativa que merece ser referenciada e reverenciada. Um artista que assumia os riscos e mergulhava na sua própria mente para criar, eliminando as barreiras que separam realidade e ficção de maneira similar ao que Mia Hansen-Løve faz quando decide escancarar o seu processo criativo em um filme cujo cenário central é uma ilha reconhecida pelo seu nome.

Pode parecer confuso, mas essa é a beleza de Bergman Island. Ser uma produção que dispensa as respostas convencionais com o intuito de se tornar um diálogo aberto sobre arte e sublimação, expandindo as chances de ressoar em qualquer pessoa que precisa expor suas vulnerabilidades para lidar com as angústias do passado.

E digo mais: Mia Hansen-Løve merece ser aplaudida por ter a coragem de abrir as portas da sua mente e iniciar essa corrente “terapêutica” de forma tão leve, íntima, provocativa e poderosa.


Bergman Island foi conferido durante a Mostra de São Paulo 2021


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